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Os sem-abrigo que ganharam um tecto à conta da pandemia  
Nuno Vieira passa os dias entre as paredes do abrigo e a passear pelas ruas de Vila Franca de Xira

Os sem-abrigo que ganharam um tecto à conta da pandemia  

Desde que a pandemia chegou têm cama, comida e roupa lavada. Dez meses e duas vagas depois, O MIRANTE foi ver como vivem os residentes do abrigo da cidade montado pela Câmara de Vila Franca de Xira.

Eram moradores de bancos de jardins, soleiras de portas e casas abandonadas, não fosse a pandemia mudá-los para as casas refúgio, criadas pela Câmara de Vila Franca de Xira, no centro da cidade. Acabado de sair da cama, Nuno Vieira abre a porta do quarto a que chama de casa há meio ano e pede “uns minutos” para se recompor. “Falamos aí fora que é melhor. Há mais um a morar aqui e tenho que respeitar o espaço dele”, diz, resgatando do interior um casaco antes de se sentar num degrau das escadas de acesso ao abrigo.
“Não fosse este abrigo e não sabia o que fazer à minha vida. Já fui avisado tanto eu como os que cá estão que isto é temporário, mas já é uma boa ajuda”, começa por explicar, agradecido, porque com os “cento e poucos euros” que recebe de Rendimento Social de Inserção não conseguiria comer e pagar uma renda.
Este centro de acolhimento, nascido com a pandemia a 30 de Março, dá abrigo, banho, comida quente e roupa lavada a seis pessoas, tendo capacidade para receber mais uma. Dormem dois por cada divisão, com as camas afastadas para manter o distanciamento. São testados com frequência e, até agora, nenhum ficou infectado com o vírus da Covid-19.

“Temos que ser
uns para os outros”
O ambiente não se pode dizer que seja familiar, mas todos se tratam pelo nome próprio, como se fossem vizinhos desde sempre. Ajudam-se quando a comida esgota e a fome aperta, e quando os vícios de uns os derrubam e impedem de chegar ao abrigo pelos próprios pés. “É triste, mas temos que ser uns para os outros, só nos temos a nós”, diz Nuno Vieira, antes de acender um cigarro.
Nuno tornou-se sem-abrigo depois de uma briga com o padrasto, que o atirou para o hospital duas semanas devido a uma facada no abdómen. Operário de construção civil, ficou primeiro sem trabalho por causa da pandemia e depois sem tecto, já que vivia com a mãe e o padrasto. “Não podia voltar para casa”, desabafa. Família com a qual contacte não tem mais nenhuma. Há 16 anos que não vê nem fala com a filha, de 19. “Separei-me da mãe dela e nunca mais a vi. Vou sabendo como está através de amigos. Situações da vida, não é fácil”.
Depois da separação chegou a estar emigrado, sempre a trabalhar nas obras. A vida “nunca foi fácil”, mas com 45 anos orgulha-se de nunca se ter metido na droga ou refugiado no álcool. Os dias, conta, são passados no abrigo a ver televisão - oferecida por uma funcionária da junta de freguesia - ou a deambular, quase sempre sozinho, pelas ruas da cidade. “Na verdade, viver assim não é fácil, mas podia ser pior. Ao menos tenho uma cama, comida, roupa lavada”, afirma. Depois, pensa no frio da rua: “Nem quero imaginar como seria”.
A limpeza e higienização das pequenas casas, construídas debaixo do viaduto da A1, na Quinta da Grinja, é feita duas vezes por dia e diariamente têm toalhas e roupas limpas. O almoço, explica Helena de Jesus, vereadora com o pelouro da Acção Social, é assegurado pela cantina do Centro de Bem-Estar Infantil (CBEI), onde também pode ser levantado o jantar em take-away. Há micro-ondas e frigorífico para acondicionar alimentos, que quase todos preferem guardar em estantes improvisadas nos quartos.
Os restantes sem-abrigo do concelho, nomeadamente os que recusam apoio municipal ao nível habitacional, continuam a receber apoio alimentar e um acompanhamento de proximidade regular.

Os vizinhos do lado
Paulo e Manuel são os vizinhos da casa abrigo ao lado da de Nuno e aqueles com quem melhor se relaciona. Este último vai ouvindo a conversa à distância. De boina na cabeça e olhar desconfiado, Manuel acena com a cabeça para confirmar que tem 70 anos. É o mais velho. Antes da pandemia tinha como casa um edifício inacabado em ferro e betão que partilhava com outros.
É a olhar para o velho Manuel encostado à parede das casas-de-banho que Nuno Vieira, o residente mais novo, diz que tem de “dar uma volta à vida”. Recomeçar, só ainda não sabe por onde. Para já, diz, espera que a pandemia passe e lhe passem as mazelas deixadas pelo ferimento provocado durante a briga em Junho. “Sem vergonhas e a dar a cara” para que outros como ele não se tornem invisíveis à sociedade.

Os sem-abrigo que ganharam um tecto à conta da pandemia  

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