
Ainda se lembram de Álvaro Guerra?
Um dia convidou-me para almoçar, para me perguntar “qual a razão de ter um transmontano como presidente da junta de freguesia da minha terra?”. Confidenciou-me que um dos seus grandes desejos era ver ligadas as comunidades desde a nascente até à foz do rio Tejo
Um dia convidou-me para almoçar, para me perguntar “qual a razão de ter um transmontano como presidente da junta de freguesia da minha terra?”. Confidenciou-me que um dos seus grandes desejos era ver ligadas as comunidades desde a nascente até à foz do rio Tejo
Lembram-se daquele que disse ter sido candidato a toureiro, mas que tendo jeito não tinha coração. Lembram-se daquele que direcionou o jeito para a ‘palavra’ e o coração para a terra que o viu nascer e tornar-se numa das figuras mais notáveis de Vila Franca de Xira ?
Lembram-se do HOMEM que viajou pelo mundo, numa primeira fase enquanto ‘condenado’ pelo regime ditatorial e, numa segunda fase, enquanto diplomata? Representou Portugal na antiga Jugoslávia, na Índia, no Zaire, em Estrasburgo e na Suécia e foi conselheiro do Presidente da República Ramalho Eanes. Quanto ao seu jeito para a palavra, colaborou no jornal “República”, no “Jornal do Caso República” e foi fundador do jornal “A Luta” e, ainda, diretor de informação da RTP. Como escritor, da sua vasta obra, saliento que o prefácio do seu romance “Os mastins”, foi assinado pelo respeitado Alves Redol, e que a “trilogia dos cafés” (Café Central, Café República e Café 25 de Abril), teve como palco de inspiração o “Café Central” da sua Vila Franca de Xira.
Todo este seu percurso invejável mereceu a atenção do Estado que o agraciou com o grau de Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1980, com o grau da Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1985 e, no mesmo ano, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. As autarquias, junta de freguesia e câmara municipal também lhe prestaram homenagem. A mais recente aconteceu em outubro de 2017, aquando da comemoração do seu 80º aniversário, com a inauguração de uma escultura no cais, inspirada, ao lado da Fábrica das Palavras. Escultura cujo autor é outra figura notável de Vila Franca de Xira: António Antunes.
Mas, para mim, o maior registo da sua história de vida é o facto de ter tido sempre um acompanhamento presente à terra que o viu nascer, sempre preocupado com o futuro de Vila Franca de Xira. Um dia convidou-me para almoçar, para me perguntar “qual a razão de ter um transmontano como presidente da junta de freguesia da minha terra?”. Confidenciou-me que um dos seus grandes desejos, numa perspetiva socioeconómica, era ver ligadas as comunidades, desde a nascente até à foz do rio Tejo. Guardo, com grande carinho, a sua visão e o seu sentido simples e objetivo. O Álvaro Guerra que não queria o seu nome atribuído a uma rua ou praça, mas aceitaria que fosse atribuído a um jardim.
O HOMEM com uma paixão pela sua terra, com uma postura de lutador pela democracia e pelo desenvolvimento de Vila Franca de Xira. Achei que este era o momento para partilhar estas confidências, para lembrar que ainda é pouco o que se fez, em proporção com o valor e prestígio alcançado por Álvaro Guerra. Lembrar que as figuras notáveis de Vila Franca de Xira são uma fonte de inspiração. E, dentro desses notáveis, espero que os atuais e futuros autarcas e, sobretudo, a população de Vila Franca de Xira não se esqueçam do homem que gostava de quem gostava de Vila Franca de Xira, terra de que era um fervoroso defensor.
