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Eleger um peixinho de aquário para presidente da junta ou um cavalo para vereador

Álacre Serafim das Neves

Edição de 23.07.2021 | Emails do Outro Mundo

Aqui há dias vi uma senhora a passear um gato pela trela. Escrevi passear mas o verbo certo seria arrastar porque o animal ia de rojo, talvez para não se cansar muito. Conto-te isto para fazer notar que não páro de me espantar com a criatividade dos amigos dos animais.

Um cão quando passeia vai cheiriscando aqui e ali e alçando a perna em todos os postes, muros e sinais de trânsito, arrastando consigo o dono de um lado para o outro. O gato, não cheirou nada, não marcou território com mijadelas, nem abanou o rabo uma única vez. De vez em quando fincava as unhas no chão e, por vezes, bufava e eriçava o pêlo como se estivesse a ser electrocutado. Um gato com mau feitio, imagino eu.

E conto-te também que, nesse mesmo dia, pisei merda de cão no areal da praia do Baleal, em Peniche. Foi uma sensação indescritível porque estava descalço. Já tinha pisado matéria orgânica daquela, nos mais variados locais mas estava sempre calçado. Ou seja, tratou-se de uma estreia absoluta tê-la pisado descalço e no areal de uma praia, tendo como pano de fundo ondas de dois metros e uma brisa atlântica a soprar de norte, a trinta quilómetros por hora.

Estes acontecimentos de que te dou notícia ocorreram antes do congresso do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) onde foi decidido lutar pela inclusão dos direitos dos animais na Constituição da República.

Se tal vier a acontecer, cães, gatos e mais alguns animais, onde não se incluem as vespas asiáticas, as moscas e as baratas da Póvoa de Santa Iria, cujo envenenamento está a ser reivindicado por populares, passarão ao superior patamar de cidadania a que todos aspiramos, que é aquele em que temos direitos sem a chatice de termos deveres.

Creio que um dos direitos constitucionais de que gozarão os animais, nossos iguais, será o de eleger e ser eleito porque só assim se poderá falar em plena cidadania. E se em Portugal vier a ser possível votar num Bobi ou num Tareco para presidente de câmara ou deputado é bom que os actuais políticos se ponham a pau.

Em S. Paulo, no Brasil, nas eleições municipais de 1959, um rinoceronte fêmea chamado Cacareco, que tinha ido do Rio de Janeiro para a inauguração do jardim zoológico da cidade, teve mais de cem mil votos e foi eleito vereador embora tivesse sido impedido de tomar posse porque não havia nenhum PAN brasileiro, nem direitos dos animais.

Tenho esperança que este ano, nas autárquicas de Outubro, haja cães, gatos e canários a ter mais votos que os burros, camelos e candidatos dos maiores partidos políticos. E não é difícil. Basta que os abstencionistas optem por escrever no boletim o nome de um qualquer peixinho de aquário e o PAN consiga que esses votos sejam válidos, em troca do seu voto a favor do Orçamento de Estado.

Termino com mais uma referência a questões do mundo animal. A presidente da Junta de Freguesia de Azambuja, Inês Louro, anunciou que não vai contratar artistas para as festas que a autarquia organizar, se eles forem contra as touradas. Ela não disse mas também não contratará artistas que não digam bem dela. Pelo menos é assim que as coisas costumam ser feitas e a senhora presidenta não será excepção.

Um abraço constitucional
Manuel Serra d’Aire

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