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Manuel Valamatos quer respeito pelo Tejo e discriminação positiva para o interior  
Manuel Valamatos sucedeu a Maria do Céu Antunes na presidência da Câmara de Abrantes há cerca de dois anos e é candidato ao cargo nas próximas eleições autárquicas

Manuel Valamatos quer respeito pelo Tejo e discriminação positiva para o interior  

Manuel Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, considera-se um autarca sem vaidosismos, pragmático e que não se deixa levar em cantigas. Quando a Tejo Ambiente acenou assobiou para o lado; assumiu transferências de competências sem medo e defende mais poder para as freguesias. Aos seus colegas autarcas deixa o recado que têm de se unir mais pela região e trabalhar em conjunto.

Edição de 23.07.2021 | Entrevista

O socialista Manuel Valamatos gere os destinos do município de Abrantes há dois anos após a saída da sua antecessora, a actual ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes. Orgulha-se do rumo que tem traçado para o concelho com o apoio do seu executivo e não há decisão da qual se arrependa. Ir pela primeira vez a votos como candidato a presidente não lhe tira o sono, mas não conseguir resolver tudo o que tem em mãos fá-lo dar voltas na cama.

A conversa que se teria feito em ambiente festivo, não fosse a pandemia a ditar o segundo adiamento das Festas da Cidade, acabou por acontecer numa tarde de terça-feira entre uma reunião presencial e outra por videoconferência. O tema de abertura não fugiu à data.

Esteve até à última para decidir o cancelamento das festas da cidade?

Há dois meses ainda tinha esperança, até perceber que não teríamos hipótese. Tínhamos o programa de 2020 feito com contratos e adiantamentos de 50 por cento a alguns artistas que iríamos replicar em 2021.

Sente o peso dessa decisão sobretudo para a economia local que ia beneficiar com o movimento?

Claro, não é fácil dizer que não a um evento que pesa na dinâmica local. Primeiro, porque nas festas, através das tasquinhas, o nosso tecido associativo consegue uma importante almofada financeira e o comércio local beneficia com mais movimento. Depois, porque é um momento de reencontros e isso pesa do ponto de vista emocional.  

Disse que gostaria de inaugurar o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes (MIAA) na altura das festas mas ainda não vai ser desta...

Foi uma opção. Vamos inaugurar a adaptação da Igreja de Santa Maria do Castelo e as obras de conservação e restauro do património da Igreja de São Vicente, intervenções importantes do ponto de vista cultural e do turismo. O MIAA merece destaque individual e por isso estamos a trabalhar para que a sua abertura aconteça em Julho e tenha entrada gratuita até ao final do ano.

A pandemia provocou surtos em Abrantes mas também pôs um travão na economia. Enquanto autarca como lidou com o problema e que medidas foram tomadas?

Penso que numa fase inicial ninguém estava preparado para a gerir. A primeira preocupação foi mitigar a proliferação de casos, mas rapidamente percebi que o impacto na actividade económica do concelho seria fortíssimo. O Governo pôs em marcha medidas de apoio que claramente não eram suficientes; nós tomámos outras que se traduzem em mais de um milhão de euros em apoios directos à comunidade, desde a isenção das refeições escolares às tarifas da factura da água à restauração.

É caso para dizer: se não fossem os autarcas locais que seria do futuro dos seus territórios após a pandemia?

A pandemia veio evidenciar a importância do poder local na luta pela redução das assimetrias. Quando o ensino passou a ser online a autarquia adquiriu 600 computadores de um dia para o outro porque o código genético da gestão autárquica é cuidar das pessoas. Se estivéssemos à espera do Governo o ano lectivo acabava sem que os computadores tivessem chegado.

Uma crise destas é o momento para repensar e diversificar a actividade económica e traçar novas linhas para a captação de investimento?

Sem dúvida. Por exemplo, o teletrabalho veio demonstrar que muitas pessoas podem voltar aos territórios do interior e ganhar qualidade de vida. No que toca à captação de investimento a nossa linha está traçada. Estamos a investir mais de dois milhões de euros no Parque de Ciência e Tecnologia, vamos ter uma incubadora de empresas e mais 2.400 metros de área para as instalar.

As comunidades intermunicipais trouxeram vantagens ou ainda andam em busca de uma razão de ser para a sua criação?

São um processo recente, mas que trouxe vantagens nomeadamente na gestão de fundos e concursos feitos em grande escala que geram poupança aos municípios. Os autarcas é que ainda têm que perceber que têm de se unir para o bem da região e não andar cada um a fazer por si. Pensamos de forma isolada durante demasiado tempo.

A Tejo Ambiente apresentou resultados negativos na ordem dos 2,2 milhões de euros e agora os municípios que a integram vão ter que suportar o prejuízo. Valeu a pena não ter dado um empurrãozinho à sua antecessora, que na altura ficou isolada na defesa da adesão de Abrantes a essa empresa intermunicipal...

Na altura eu era presidente dos Serviços Municipalizados de Abrantes e a proposta que estava a ser feita era para entregarmos tudo a essa nova empresa e ainda víamos subir as tarifas da factura da água. Se aceitássemos estaríamos a penalizar os abrantinos, que têm um serviço de excelência com distribuição da água e saneamento a 100 % e que tem apresentado sempre resultados positivos mesmo fazendo grandes investimentos.

Por outro lado, a Tagusvalley apesar de apoiar 69 empresas e ter criado 137 postos de trabalho ainda não conseguiu ter um saldo positivo... A Tagusvalley tem feito um excelente trabalho na absorção de fundos comunitários e tem trazido muitos milhões de euros em infra-estruturas para o Parque de Ciência e Tecnologia. A tendência é tornar-se auto-sustentável, mas ainda é momento de investir e temos que olhar para isso de forma tranquila.

A educação foi uma das áreas onde o município avançou com a transferência de competências. O ensino beneficiou ou saiu a perder?

Assumimos essa transferência sem medos para que as nossas escolas possam ter os seus problemas resolvidos mais rapidamente por uma câmara municipal preparada para lhes dar resposta. Temos cinco milhões de euros investidos, estamos a requalificar escolas, a construir um novo centro escolar, vamos dar novas instalações à Escola Superior de Tecnologia de Abrantes e não esperamos por fundos comunitários.

Houve alguma decisão que tomou enquanto autarca da qual se arrepende?

Não, não tomei nenhuma decisão que fosse grave ao ponto de me tirar o sono.

Se pudesse voltar atrás e aprovava, por exemplo, a construção do novo mercado diário de Abrantes que custou um milhão de euros para estar às moscas?

Algumas pessoas é que dizem que está às moscas. O que digo é que depois do fecho do antigo mercado era necessária uma resposta rápida, que foi dada. O que precisa é de gente a comprar, não é dos que se dizem amigos do mercado mas são meros oportunistas do momento político.

Tem dito que o mercado precisa de uma nova dinâmica. O município já descobriu qual a fórmula de salvação?

Vamos apresentar nos próximos dias uma proposta de dinamização e criar mais condições de conforto. Assim como vamos apresentar um projecto extraordinário para a reconversão do antigo mercado.

“Para fazer política suja não contem comigo”

Ir pela primeira vez a votos nas autárquicas deste ano anda a tirar-lhe o sono?

Não, mas não conseguir resolver tudo o que quero tira. Relaciono-me muito bem com a democracia e os abrantinos é que sabem quem deve representá-los.

Um bom resultado seria manter os cinco vereadores?

Essa é a nossa grande expectativa.

Só a pandemia vai atrapalhar a campanha eleitoral ou já lhe cheira a política suja?

Espero que não. Para fazer política suja não contem comigo. Estou cá para discutir política à séria sem populismos.

Há um ano dizia-nos, em entrevista, que não falava de assuntos da câmara com a sua antecessora porque tinham muito trabalho. Já conseguiu pôr a conversa em dia?

Para ser honesto, não. Tive e tenho que decidir e andar para a frente pela minha cabeça e com o apoio da equipa que lidero. Cada um seguiu o seu caminho. 

É a favor da reposição de alguma freguesia no concelho de Abrantes?

Estarei disponível para apoiar a vontade dos cidadãos que entendam por maioria essa necessidade.
As freguesias são geralmente o parente pobre do poder local.

Que medidas tem tomado este executivo para que deixem de o ser?

Se há marca que este executivo deixa é a democratização do território e trabalhar o mais próximo possível das freguesias. Nunca houve um apoio tão directo às juntas de freguesia como nos últimos três anos. Investimos mais de 1 milhão de euros em contratos interadministrativos para que cada uma possa fazer investimentos e pequenas reparações, fora os contratos habituais.

Enquanto residente em Rossio ao Sul do Tejo, uma localidade que tem vindo a perder serviços e acaba de perder a última agência bancária física e multibanco, sente na pele os problemas do interior...

Claro que sinto, por isso queremos alargar a mais zonas as Áreas de Regeneração Urbana (ARU). Estamos a concluir a ARU em Alferrarede e queremos avançar para o Rossio, porque acreditamos que a única forma de contrariar a desertificação e perda de serviços privados é apresentando programas de reabilitação para que possam existir benefícios fiscais, maior dinamismo e apoio a novas actividades.

Como se transformam os problemas do interior numa preocupação que gere solução?

O Governo tem que criar benefícios fiscais e condições em termos de acessibilidades, como investir na conclusão do IC9. O interior precisa de discriminação positiva para se desenvolver. As preocupações que tenho em democratizar o meu território, o Governo tem de ter com o país.

Que papel tem tido o município na reconversão da Central Termoeléctrica do Pego e qual o impacto na região?

O impacto que desejamos é conseguir trazer mais riqueza e dinamismo económico que ajude a albergar postos de trabalho. Nesse sentido temos vindo a falar com os accionistas e a Tejo Energia para conseguirmos o melhor projecto.

O açude de Abrantes já é mais amigo do ambiente ou continua a ser um perigo para os peixes?

Encomendamos um estudo que apontará as medidas correctivas necessárias, que infelizmente está parado devido ao problema num dos insufláveis do açude. A nossa intenção continua a ser tornar o açude o mais amigável possível para o ecossistema.

Abrantes vai liderar a candidatura do rio Tejo a Património da Humanidade da Unesco?

Será a CIM do Médio Tejo a liderar. Já fizemos chegar esta nossa vontade aos autarcas da Lezíria e de Lisboa e temos tido uma recepção positiva. O grande problema do rio é a gestão dos caudais, que tem afectado a própria qualidade da água. O Tejo precisa de ser respeitado e acredito que se conseguirmos que seja património da Humanidade as entidades deixam de brincar à má gestão do caudal.

Manuel Valamatos quer respeito pelo Tejo e discriminação positiva para o interior  

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