
Maria José Figueiredo: “A pandemia foi o desafio mais difícil de enfrentar”
Maria José Figueiredo tem 61 anos e é jurista, técnica superior na Junta de Freguesia de Rio Maior e provedora da Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior, a maior e mais antiga instituição do concelho, com cerca de uma centena de funcionários.
Nunca pensou exercer o cargo de provedora mas aceitou o desafio para poder ajudar o próximo. O momento mais difícil que viveu, enquanto provedora, foi o surto de Covid-19 em que morreram alguns utentes do lar, incluindo a sua mãe. A infância foi muito feliz, na aldeia de Azinheira, a dois quilómetros de Rio Maior, onde em criança ajudava na loja dos avós. Adora viajar e receber pessoas em casa.
Ainda hoje reconheço algumas pessoas pelas mãos. Sempre gostei muito de observar as mãos das pessoas, desde criança. Tive uma infância muito feliz. Aos sete anos já ajudava os meus avós, que tinham uma loja, que era mercearia e taberna, na aldeia onde nasci e cresci, Azinheira, no concelho de Rio Maior. Servia copos, pagava a fornecedores. Ainda hoje faço muitas contas de cabeça porque na altura não existiam calculadoras.
Aos 15 anos já queria ser advogada. Sempre quis ir para a universidade mas depois de terminar o ensino secundário arranjei trabalho num escritório. Depois dei aulas de Português e Inglês e fui adiando a faculdade mas nunca esqueci esse objectivo. Há 40 anos não existiam as estradas que há hoje e Rio Maior ficava longe de tudo. Mas aos 29 anos surgiu a oportunidade e tirei o curso de jurista. Ia a Lisboa todos os dias e regressava, porque conciliava os estudos com o trabalho. Foi nessa altura que me tornei muito organizada para conseguir fazer tudo.
Comecei a cantar no coro da igreja em criança e fiz parte do Coral e Orquestra Típica de Rio Maior. Era soprano. Ainda hoje canto para os amigos quando nos juntamos em casa de alguém ou em algum restaurante. Também fui catequista e estou ligada ao associativismo desde jovem. O associativismo está na minha família há muitas gerações. O meu avô já era um homem ligado às colectividades.
Nunca imaginei exercer o cargo de provedora da Misericórdia de Rio Maior. Entrei na Misericórdia em 2009 mas com o intuito de ajudar os outros. No entanto, em 2016 surgiu a oportunidade e aceitei. É um cargo de grande responsabilidade. O mais difícil de enfrentar foi a pandemia. Tivemos um surto de Covid-19, em Dezembro do ano passado, onde morreram alguns utentes, incluindo a minha mãe que não saía do quarto há cerca de um ano. A situação já está controlada mas vivemos dias muito complicados.
Foi muito duro ter um pai com Alzheimer. O meu pai nunca foi uma pessoa doente e era raro ir ao médico. Foi diagnosticado com a doença em 2008. Em Agosto ainda conduzia e em Outubro já não sabia quem era. O meu pai nunca deixou de me reconhecer, o que foi um conforto. Não sabia o meu nome, nem das minhas irmãs, mas sabia que tinha três filhas. Também sabia que tinha netos, chamava-lhes “os meninos” porque não sabia os seus nomes. Faleceu em pouco tempo.
A minha viagem de sonho foi a Nova Iorque. Tudo me fascinou naquela cidade. Imaginava-me a viver lá. Adoro espectáculos e cultura e Nova Iorque tem tudo isso. Também gosto muito de ir a Lisboa à ópera, ao teatro ou ao cinema, que adoro. Também não esqueço as duas viagens ao Brasil e o Rio de Janeiro é realmente a cidade maravilhosa. Gostava de conhecer a China e o Japão por serem culturas tão diferentes da nossa.
Gosto de cozinhar para muita gente. Há muitos anos que as festas, sobretudo o Natal, são em minha casa. Também recebo amigos e famílias noutras alturas do ano. Cozinho pratos que não dêem muito trabalho como borrego ou coelho no forno. Gosto de comidas mais tradicionais. Dá-me prazer não só cozinhar como preparar a sala e a mesa para os convidados. Gosto de receber pessoas.
Falta mais indústria em Rio Maior. Só com mais empresas é que se consegue desenvolver a economia do concelho. Rio Maior cresceu muito no início deste século e houve um boom de construção mas actualmente há falta de habitação para as pessoas poderem viver em Rio Maior. O concelho precisa de se desenvolver sustentadamente, tem que ser com calma, mas não pode parar.
