Incêndio no aterro de Azambuja deixa rasto de dúvidas sobre riscos para a saúde
Associação ambientalista fala em “má política de gestão de resíduos” e dos perigos das chamas num aterro com amianto e resíduos orgânicos. Ministério do Ambiente e CCDR aguardam relatório da empresa que gere a infra-estrutura e garantem a O MIRANTE que vai haver nova fiscalização.
Depois do incêndio no aterro de resíduos industriais não perigosos de Azambuja, ainda não há certezas sobre perigos de contaminação do ar e águas subterrâneas mas há erros e dúvidas que persistem. O MIRANTE foi saber a opinião de um especialista em matéria de resíduos e questionou as entidades governamentais. A luta contra as chamas que alastraram até à área rural contígua ao aterro mobilizou 45 bombeiros e 16 viaturas e foi dada por terminada ao fim de mais de duas horas.
Às 16h50 de 13 de Julho soou o alerta. A célula onde estão depositadas cerca de 172.774 toneladas de resíduos estava em chamas. “Ardeu tudo o que são combustíveis, como plásticos e outros materiais sintéticos que libertam substâncias altamente tóxicas”, refere Rui Berkemeier, da associação ambientalista Zero, alertando que o mais preocupante são os resíduos contendo amianto depositados numa parte da célula.
“O amianto não arde, mas como está degradado e os plásticos que o envolvem ardem, as fibras (potencialmente cancerígenas) são arrastadas com os gases quentes. É uma aberração e nem o ministro do Ambiente nem a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) podem garantir, até serem feitas análises, que não tenha havido libertação dessas fibras”, afirma.
Rui Berkemeier considera ainda de extrema importância verificar a “extensão dos danos na tela que impermeabiliza o aterro e fazer testes ao comportamento das águas subterrâneas”. No mesmo aterro ocorreu, em Setembro de 2019, um outro incêndio.
APA e CCDR aguardam relatório
Tanto o Ministério do Ambiente como a CCDR de Lisboa e Vale do Tejo garantiram a O MIRANTE que, em articulação com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), “está planeada uma visita ao local para aferir a informação reportada” pela Triaza, empresa que gere o aterro e que assegurou que “não foram registados danos em equipamentos, sistemas de drenagem ou quaisquer sistemas de protecção ambiental”.
A Triaza informou formalmente, e no prazo previsto por lei, a CCDRLVT, a APA e a IGAMAOT da ocorrência do incêndio sublinhando que foi accionado o plano de emergência. A empresa terá ainda que enviar, no prazo de 15 dias desde a data do incêndio, “o relatório da ocorrência, que tem como objectivo avaliar as medidas implementadas para que possam as entidades avaliar a necessidade de medidas adicionais”, refere o Ministério do Ambiente.
Também o vereador com o pelouro do Ambiente na Câmara de Azambuja, adiantou que vai aguardar pelo relatório e visita das entidades do Governo antes de tomar outras medidas, se necessário. Silvino Lúcio lembrou ainda que desde que a autarquia iniciou uma batalha judicial com a Triaza, com o objectivo de evitar a expansão do aterro, ficou proibida de entrar no local e poder desenvolver acções de fiscalização.
Um exemplo da má gestão de resíduos
O aterro, situado na Quinta da Queijeira, tem estado debaixo de fogo com a população e autarcas a exigirem o seu encerramento, por considerarem tratar-se de um atentado ambiental e representar perigo para a saúde pública.
As queixas não tiveram qualquer efeito pois a licença ambiental foi renovada para mais cinco anos e o ambientalista não tem dúvidas: “Um aterro que está relativamente perto de casas (300 metros) não deve receber resíduos orgânicos. Além dos maus cheiros, geram gases (metano) e líquidos (lixiviados) que podem - estes últimos - representar perigo de contaminação da água. O furo de captação de água que abastece Azambuja fica a cerca de 427 metros do aterro. Este aterro é, por isso, na opinião de Rui Berkemeier, um “exemplo da má gestão de resíduos” em Portugal.