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“Silly Season”
P.N.Pimenta Braz

“Silly Season”

“Silly” porque assistimos, madraços e patetas, à diminuição de bebés. “Silly” porque isso é o ocaso anunciado. “Silly” porque isso não nos incomoda.“ Silly” porque temos vergonha de afrontar correntezas politicamente correctas. “Silly” porque queremos medalhas como os outros. “Silly” porque nunca praticámos o planeamento, o trabalho e o mérito entre nós.

Temporada lânguida e quiçá, tola. Tola porque ilusória e falsa. Ilusória visto que, afinal, nem no tempo estival a vida pára; e falsa, porque o verdadeiro descanso é sempre fecundo. Por cá continua a confundir-se descanso com indolência fútil. Adoptámos preguiçosamente a expressão inglesa “Silly Season”, que nos invade durante o Verão, que nos contextualiza e que tão bem nos retrata.

“Silly” casa muito bem com “Season”, alinhavando um casal perfeito que desenha admiravelmente a vida nesta Pátria lusitana. Legitima a indolência e as cumplicidades sibilinas de uns poucos que tão bem pressagiam, urdem e asseguram uma pobreza que teima em não nos deixar. Mas a eles não.

Silly” de insistirmos em gastar e exigir o dinheiro que não temos; “Silly” de insistirmos em viver, sempre, com a guita de outros; “Silly” de ansiarmos “ad aeternum” por esses tostões que vêm sempre de fora; “Silly” de continuarmos a pensar que os problemas se resolvem despejando neles bazucas; “Silly” de nos terem anunciado putativas libertações pandémicas para as vésperas de eleições; “Silly” de não percebermos que isso era demasiado previsível; “Silly” de nem sequer já ninguém se afoitar a criticar; “Silly” porque ainda nos atrevemos a propor aeroportos no distrito de Santarém; “Silly” porque os candidatos autarcas ainda insistem em trincar toneladas de bifanas e a tragar hectolitros de minis; “Silly” porque mantemos as leis eleitorais inamovíveis; “Silly” porque assim o povo cada vez manda menos; “Silly” de vegetarmos impávidos face à mediocridade, sem reagir; “Silly” de ainda gastarmos tempo a escrever e a falar de Otelo; “Silly” de ainda negarmos que a liberdade veio mesmo com Abril; “Silly” de nos arriscarmos a perdê-la; “Silly” de, por lermos pouco, confiarmos, embevecidos, sempre e cegamente na opinião de muito poucos; “Silly” porque nos enfeitiçam com as “marquises” do futebol; “Silly” porque assistimos, madraços e patetas, à diminuição de bebés; “Silly” porque isso é o ocaso anunciado.

Silly” porque isso não nos incomoda; “Silly” porque temos vergonha de afrontar correntezas politicamente correctas; “Silly” porque queremos medalhas como os outros; “Silly” porque nunca praticámos o planeamento, o trabalho e o mérito entre nós; “Silly” porque nunca percebemos que a mãe natureza em nada nos beneficiou; “Silly” em assumirmos o abandono escolar como coisa normal de pobres; “Silly” por não queremos, a sério, apostar nas pessoas e na nossa educação; “Silly” porque isso nunca demonstrou muita inteligência da nossa parte; “Silly” de termos medo do amanhã incerto e de, por isso, nos conformarmos com a pobreza; “Silly” porque continuarmos pobres e, por isso, a emigrar; “Silly de insistirmos num Estado descomunal, pobre, cinzento, oco e subserviente; “Silly” de insistirmos em não perceber que apenas uma restaurada Justiça, o lucro e o trabalho é que nos farão medrar; “Silly” de nos estarmos tranquilamente a afundar e continuarmos a sorrir serenamente uns para os outros; “Silly” de teimarmos nos mesmo erros porque nos são confortáveis; “Silly” porque assim desistimos de nós; “Silly” ainda muito mais, porque mais um ano sem festas e romarias; “Silly Season” de que nos deveríamos afastar, não do calor e da modorra estival, mas do autismo civilizacional e da falta de liberdade que ainda não ousámos conquistar.

P.N.Pimenta Braz.

“Silly Season”

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