Ex-autarca do Chega recusa defender José Sócrates na Operação Marquês por objecção de consciência
Inês Louro, antiga presidente da Junta de Azambuja pelo PS e vereadora eleita pelo Chega, recusou defender José Sócrates no processo Operação Marquês. Advogada diz não ter condições para “fazer uma defesa isenta”.
A advogada Inês Louro, candidata à presidência da Câmara de Azambuja nas últimas eleições autárquicas, recusou defender o antigo primeiro-ministro José Sócrates. Inês Louro foi a primeira advogada oficiosa a ser chamada na terça-feira, 6 de Janeiro, para defender o arguido José Sócrates no âmbito do julgamento da Operação Marquês, mas invocou objecção de consciência por militar num partido político e ser bastante crítica do antigo primeiro-ministro.
“Além de ser advogada tenho exercido funções públicas, sou militante num partido e tenho tido manifestações públicas quer sobre o arguido em causa quer sobre o processo em si. Estou longe de estar em condições de fazer uma defesa isenta”, disse a O MIRANTE a advogada que foi vereadora na Câmara de Azambuja, eleita pelo Chega, no mandato 2021-2025. Nas últimas eleições autárquicas, recorde-se, conseguiu renovar um mandato no executivo, mas renunciou ao cargo. Antes de ser militante do Chega, Inês Louro foi presidente da Junta de Freguesia de Azambuja, eleita pelo PS.
O reinício do julgamento do processo Operação Marquês, previsto para 6 de Janeiro, foi adiado para 13 de Janeiro, após o tribunal ordenar a nomeação de uma nova advogada oficiosa para representar o antigo primeiro-ministro. Ana Velho, chamada por o advogado nomeado por José Sócrates se encontrar hospitalizado, sustentou não ter condições para defender o antigo chefe de Governo, mas o tribunal considerou que não poderia ser dispensada da função e deu-lhe cinco dias para contactar José Sócrates e tomar conhecimento do processo.
José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado de 22 crimes, incluindo três de corrupção, alegadamente por ter recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o “resort” algarvio de Vale do Lobo.
No total, o processo envolve 21 arguidos, que em geral negam a prática dos 117 crimes económico-financeiros de que são acusados. Os ilícitos terão ocorrido entre 2005 e 2014 e, no primeiro semestre deste ano, podem prescrever os crimes de corrupção mais antigos, relacionados com Vale do Lobo. Os arguidos foram dispensados de comparecer no julgamento, iniciado a 3 de Julho de 2025, e têm estado ausentes das últimas sessões.
À Margem
Uma (des) agradável surpresa
A advogada Inês Louro estava de escala na manhã de terça-feira, 6 de Janeiro, data de retoma do julgamento da Operação Marquês quando foi chamada para subir ao edifício A do Campus de Justiça, em Lisboa, reservado aos grandes casos. Subiu as escadas sem saber ao que ia e nem os risos dos seguranças, que a inquietaram, desvendaram a surpresa que foi saber, ao entrar na sala, que tinha sido escalada para defender o arguido José Sócrates. Mas as escadas que subiu depressa as voltou a descer, depois de invocar objecção de consciência, que foi aceite pelo colectivo de juízes. A surpresa valeu-lhe uns minutos de tempo de antena nas televisões, mas não lhe pagou o almoço já que nessa manhã há-de ter sido a única advogada de escala no Campus que ficou sem honorário.

