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Há idosos a viver sem condições em Casal dos Bernardos
As consequências da depressão Kristin em Casal dos Bernardos são bem visíveis - foto O MIRANTE

Há idosos a viver sem condições em Casal dos Bernardos

Um mês depois da depressão Kristin, há colchões no lixo, casas encharcadas e uma aldeia no concelho de Ourém que resiste à força da entreajuda.

Um mês depois da passagem da depressão Kristin, a freguesia de Casal dos Bernardos, no concelho de Ourém, continua a viver entre infiltrações, telhados por reparar e colchões destruídos. A prioridade, agora, é simples e urgente: garantir camas secas para os mais idosos. “Foi preciso retirar os colchões, porque foram para o lixo”, relata Georgina Pereira, assistente social do Centro Social da aldeia. Ao todo, cerca de 80 idosos foram particularmente afectados por uma tempestade que atingiu “drasticamente” a povoação.
Depois do primeiro embate do vento, a chuva persistente, a humidade e o frio fizeram o resto. Sem telhas nem barrotes em muitas habitações, os quartos ficaram encharcados e a qualidade de vida degradou-se. Parte da roupa de cama ainda está a ser recuperada, mas muitos colchões acabaram amontoados num descampado, impróprios para uso. No Centro de Dia, ao lado da junta de freguesia, as infiltrações persistem. As máquinas de lavar e secar trabalham sem descanso para garantir roupa limpa a quem mais precisa. “Só espero que as ‘minhas máquinas’ não se avariem e que não falhe a luz”, confessa Georgina Pereira. Quando a electricidade falha, a alternativa é lavar à mão.
A freguesia, com cerca de 800 habitantes, tem uma população envelhecida, com muitos residentes acima dos 80 e 90 anos. Não há centro de saúde nem médico de família. Muitas receitas médicas perderam-se com a intempérie. Coube ao Centro de Dia reorganizar a medicação, procurar prescrições em freguesias vizinhas e distribuir os medicamentos porta a porta. A higiene pessoal é assegurada com panelas de água quente e “banhos de cafeteira”, quando a pressão da água não permite usar o chuveiro. Nos primeiros dias, as limpezas foram “inglórias”: mal terminavam, a chuva voltava a estragar tudo. Apesar das dificuldades, a resposta tem sido marcada pela entreajuda. Helena Pontes, responsável pela cozinha, garante que as refeições continuam a chegar a idosos e crianças.
Entretanto, parte da aldeia já recuperou electricidade e água, mas as telecomunicações continuam deficientes e os danos nas habitações mantêm-se visíveis. Árvores cortadas permanecem amontoadas junto às estradas, lembrando que a tempestade passou, mas os seus efeitos continuam bem presentes. “Às vezes ouço o vento e penso que vai cair alguma coisa outra vez”, desabafa Georgina Pereira, confessando o desgaste emocional de um mês de luta constante.

Casal dos Bernardos teme que as matas se transformem em pólvora no Verão

A freguesia de Casal dos Bernardos ainda está a sarar as feridas deixadas pelo vento. O cenário que ficou para trás preocupa. Árvores tombadas, caminhos destruídos, cabos eléctricos no chão e um parque de merendas reduzido a destroços alimentam um receio crescente: o de que a tempestade de Inverno dê lugar a um Verão de fogo. “Isto é pólvora. É o que temos aqui e, se não fizermos uma intervenção rápida, vamos passar da tempestade de vento para o fogo. A mata está toda no chão e isto é pólvora”, alerta o presidente da junta, Acácio Pereira, de 52 anos.
O autarca teme que, sem uma limpeza célere das áreas florestais, o risco de incêndio aumente drasticamente nos meses quentes. Para já, não estão definidos os meios de apoio à intervenção. Não se sabe se haverá reforço de bombeiros ou militares no terreno, pelo que a junta admite avançar com a mobilização da população para enfrentar o problema. Também o emblemático Parque de Merendas, espaço de convívio junto à ribeira, ficou totalmente destruído. Choupos, pinheiros e eucaliptos não resistiram à força do vento e arrastaram consigo infraestruturas, parque infantil e bar de apoio. Os moradores vão arregaçar as mangas para iniciar a limpeza do espaço, muito procurado no Verão por habitantes das freguesias vizinhas e por peregrinos a caminho do Santuário de Fátima. “Queremos dar vida a isto outra vez. Ficou destruído e vai ter de ser reconstruído”, sublinha o presidente.
Ao nível da energia eléctrica, a situação está “a 90%”, mas persistem riscos. “Há muitos cabos no chão. É um perigo para as crianças e para todos”, critica Acácio Pereira, apontando falhas na resposta da E-Redes. O cemitério também sofreu danos significativos, com lápides derrubadas e campas afectadas. Os custos da recuperação terão de ser suportados pelas famílias. Apesar das adversidades, a escola primária e o infantário já retomaram a actividade.

Os trabalhos de recuperação das casas destruídas pelo mau tempo prosseguem na freguesia - foto DR

Emigrantes regressam a Casal dos Bernardos para reconstruir o que a tempestade levou

Na aldeia de Casal dos Bernardos, no concelho de Ourém, são os emigrantes que, aos poucos, vão regressando para recuperar o que o mau tempo levou. Metade das casas da aldeia pertence a famílias emigradas, sobretudo em França. Nas últimas semanas, muitos atravessaram centenas de quilómetros para avaliar prejuízos, limpar terrenos e tentar devolver alguma normalidade às habitações que servem de refúgio nas férias.
Foi o que fez Fernando Dias Bastos, 52 anos, nascido em Tours e funcionário público em Paris. Mal soube da violência da tempestade, fez-se à estrada. “Não tínhamos notícias certas sobre o estado da casa”, conta. O anexo da família ficou “partido a meio” e parte do telhado da casa principal, construída no final dos anos 60, não resistiu à força do vento. Agora, o trabalho faz-se devagar. “Vamos limpando o mato e arrumando o que ficou. Não sei como vai ser este Verão ou o próximo. Pode ser perigoso por causa dos fogos”, admite, preocupado com a vegetação caída e o risco acrescido nos meses quentes.
Ao seu lado, a mãe, Luísa Mendes de Bastos, 81 anos, também ela emigrante em França desde os anos 70, supervisiona uma pequena queimada no jardim. “Ando aqui a queimar uns restos de lixo. Depois vêm uns homens tirar o que resta do anexo e os barrotes partidos”, explica, num cenário onde ainda se acumulam loiça partida, tijolos soltos e velhos utensílios espalhados pelo chão. Na rua, os sinais da tempestade permanecem visíveis. Postes de cimento e ferro quebrados, cabos de média e baixa tensão tombados. A electricidade já foi restabelecida, mas as telecomunicações continuam instáveis, num retrato de fragilidade que inquieta quem aqui tem raízes.
Apesar da destruição, há espaço para reconstruir memórias. No jardim, Fernando ergue uma pequena casa de madeira para os filhos brincarem nas próximas férias de Verão. “Para não sentirem a tragédia”, diz. As paredes já estão montadas, falta pregar o telhado. Um gesto simples, mas carregado de simbolismo: reconstruir para que as crianças encontrem, na aldeia dos avós, um lugar de alegria. As telhas novas para a casa principal custaram um euro cada, duas semanas depois da tempestade. Comprou cinquenta. As velhas, do barracão destruído, serão oferecidas “a quem precisar”.
Em Casal dos Bernardos, a recuperação faz-se à força de braços. Entre França e Portugal, estes emigrantes continuam a provar que, mesmo à distância, a terra nunca deixa de ser casa.

Há idosos a viver sem condições em Casal dos Bernardos

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