José Guilherme Paradiz: morreu um dos pioneiros das rádios e televisões piratas
Fundador da Rádio Pernes, José Guilherme Paradiz esteve na vanguarda do movimento das rádios piratas que abriu caminho à legalização das rádios locais por todo o país.
Morreu no sábado, 28 de Fevereiro, José Guilherme Paradiz, um homem que, a partir de Pernes, sua terra natal, esteve na origem e na vanguarda do movimento das rádios e televisões piratas, tendo começado ainda no tempo da ditadura. Em 1980 criou a Rádio Pernes, uma imagem de marca do concelho de Santarém que esteve no ar durante quase quatro décadas.
Em entrevista publicada em O MIRANTE, em Agosto de 2009, contámos que José Guilherme Paradiz passou a vida a desafiar as autoridades porque não se conformava com os monopólios. Fez emissões piratas de televisão e de rádio. Teve processos em tribunal. Teve a PIDE à sua procura, andou fugido e para se livrar de ser preso ofereceu-se como voluntário para os pára-quedistas. O serviço militar em Angola, durante a guerra colonial, acabou por lhe permitir conhecer alguns dos grandes nomes da rádio.
Quando passou à disponibilidade foi trabalhar para a emissora católica em Luanda, onde trabalhavam nomes como Alice Cruz, Rui Romano, Emídio Rangel, Jorge Perestrelo. Regressou a Portugal em Julho de 1974, pouco depois da revolução. Foi trabalhar para a Rádio Renascença, depois dedicou-se à venda de electrodomésticos em Pernes e foi nessa altura que começou a pensar em criar um canal independente de televisão que enfrentasse o monopólio dos dois canais do Estado. Criou um emissor de televisão a cores quando a RTP ainda emitia a preto e branco e chegou a transmitir desafios de futebol em directo e apontamentos do Festival Nacional de Gastronomia.
Os jornais nacionais fizeram notícia disso dizendo que já existia o terceiro canal e que a RTP tinha perdido o monopólio. Voltou a ter problemas com as autoridades. Um dia estava a transmitir a festa de final de ano lectivo na Escola C+S de Pernes e entram nas instalações uma série de agentes da Polícia Judiciária, com um enorme aparato, para lhe apreenderem o equipamento. Contou que os agentes acharam tanta piada que o deixaram transmitir o resto e depois levaram-lhe os equipamentos todos excepto um vídeo. O processo andou seis anos no tribunal.
É depois disso que avança para uma rádio pirata, a Rádio Pernes. José Guilherme Paradiz não se sentia realizado só a vender electrodomésticos e a arranjar rádios e televisões. Fez então um emissor de FM (frequência modulada). Foi o pioneiro das emissões piratas em FM. Depois é que apareceram a Rádio Antena Livre de Abrantes e mais uma série delas. A primeira transmissão em directo foi no dia 1 de Maio de 1980 no Largo do Rossio, em Pernes, da actuação de um conjunto musical que estava a actuar no local. A partir daí nunca mais parou até finais de 1988, retomando no início de 1989. Teve que suspender as emissões durante uns meses, pois era condição para poder obter o alvará para poder emitir cumprindo os imperativos legais. E assim continuou até se reformar, na primeira década deste século.

