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Se não fossem os autarcas o PS já não existia em Salvaterra

Se não fossem os autarcas o PS já não existia em Salvaterra

Presidente da câmara, Hélder Esménio, filia-se no partido de costas voltadas para o líder

Edição de 09.11.2016 | Entrevista

Por esta primeira parte da entrevista ao presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, percebe-se que Hélder Esménio não pode ver o líder concelhio do partido nem pintado. O autarca, que esteve quatro anos na oposição e está há três na presidência, diz pela primeira vez publicamente o que o separa de Nuno Mário Antão. Antecedendo a segunda parte da entrevista mais centrada no trabalho autárquico e nos projectos, a publicar na próxima edição, o presidente salienta que a concelhia não é capaz de mobilizar os socialistas e tem feito mais oposição que os partidos da oposição. Eleito como independente, Esménio filiou-se este ano. Será para tomar conta do PS de Salvaterra de Magos?

Deve ser um autarca especial para ser a secretária-geral adjunta do PS a comunicar a sua recandidatura pelo partido, pelo qual foi eleito como independente. É um orgulho para um presidente de câmara, que foi candidato independente em 2009 e que em 2013 ganha as eleições, que a nacional e a distrital do partido o convidem e reconheçam nele o mérito para voltar a ser candidato. No congresso foi decidido que os presidentes em funções serão candidatos às autárquicas de 2017 e esta será uma situação que decorre dessa decisão.
Mas o normal é ser a estrutura local a fazer esse papel. Temos uma concelhia do PS que não tem tido actividade política. Tanto quanto vou tentando perceber também não reúne. Quando temos uma liderança do PS de Salvaterra de Magos que, dias antes do anúncio da minha recandidatura, diz que este presidente nunca foi nem é o presidente que escolheria, se calhar isto pode ajudar a explicar a opção feita pela nacional e pela distrital do partido.
Sendo eleito pelo PS não tem qualquer contacto com o partido a nível local? Como a concelhia não reúne está tudo dito. Tenho contacto com toda a gente do PS. Separo a liderança da concelhia, de Nuno Mário Antão, dos autarcas eleitos pelo PS, e não a confundo com o órgão que é a concelhia e cujas posições ninguém conhece porque nunca reuniu.
Os militantes estão divorciados do partido? Não gostaria de pessoalizar as questões, até porque nada me move pessoalmente contra Nuno Mário Antão. Quando um concelho consegue levar quase três centenas de pessoas a participar nas primárias para a eleição de António José Seguro ou António Costa, isso diz muito da alma socialista que o concelho tem. Mas a concelhia do partido não conseguiu capitalizar este movimento e participação e não fosse o trabalho autárquico, o PS em Salvaterra de Magos era inexistente.
Quer dizer que autarcas eleitos como independentes fazem mais pelo partido? Os militantes participam da vida autárquica do concelho, o problema é a estrutura que, por incapacidade, não tem sido capaz de reunir em torno dela os socialistas. Também é verdade que eu e o presidente da concelhia não temos uma relação pessoal forte. Mas existe um conjunto de militantes e filiados do PS importantes, com valor, com mérito. Tenho contactos, relações de trabalho excelentes, cordiais, empenhadas de motivação com o presidente da assembleia municipal (Francisco Madelino), que é um distinto militante do PS local.
O que esperava da concelhia do partido? Este presidente de câmara foi vereador na oposição durante quatro anos, desenvolveu trabalho com as suas equipas, para a câmara, assembleia e freguesias, que permitiu ao PS chegar ao poder em 2013. Era expectável que tivesse já convencido o líder local do partido, de que é uma pessoa empenhada, que trabalha, que é congregador e que não trabalha para o PS mas para o concelho.
Quanto mais se caminha mais os presidentes da câmara e do partido se afastam. O trabalho que temos vindo a fazer é muito positivo, estamos no terreno todos os dias, junto das pessoas e das colectividades, estamos a fazer obra em todo o concelho. Era expectável que Nuno Mário Antão reconhecesse isto, o problema é que existe uma posição pessoal do líder socialista que não é coincidente com a minha, nem na maneira de olhar a política nem na maneira de estar no poder local. Há de facto um virar de costas.
O distanciamento agravou-se com o caso do ex-vice-presidente da câmara, a quem não devolveu as funções quando este regressou após o período em que suspendeu mandato? O facto de o ex-vice sair por motivos pessoais e empresariais e depois querer regressar evidenciou esta divisão, ou este afastamento, que existe.
Tem mais oposição do partido pelo qual foi eleito do que dos outros partidos? Não confundo Nuno Mário Antão com o PS, nem sequer com o PS de Salvaterra de Magos. É um destacado militante, com um histórico de trabalho autárquico e também não pode ser diabolizado. Há é muita falta de jeito e de visão política para dizer publicamente o que diz em vez de debater os assuntos internamente.
Quer dizer que o líder socialista fala demais? Ter um líder de um partido a dar uma entrevista a um ano das eleições a dizer que o presidente da câmara não é o seu candidato, não sei como se pode qualificar. Quero apenas acreditar que foi falta de jeito.
O ex-vice foi imposto pelo PS e foi por isso que entrou em divergências com ele? Sempre escolhi as equipas para a câmara. Honra seja feita ao PS, no seu todo, que permitiu ao candidato fazer a sua equipa. Não tinha nenhuma reserva em relação ao número dois, João Oliveira, nas eleições de 2013. Mas a vida coloca-nos situações em que as pessoas nem sempre conseguem ter a melhor relação possível.
Foi por causa das divergências que decidiu não lhe devolver a vice-presidência? Quando ele pede para regressar, seis meses depois, eu não tinha como explicar às pessoas, nem a mim próprio, querendo ser o mais justo e coerente, que tinha tido um autarca, que trabalhava ao meu lado, que tinha escolhido ir tratar da vida pessoal, preterindo o exercício das funções públicas para as quais tinha sido eleito. É uma questão de postura.
O que desgastou essa relação? A maneira de olhar para o trabalho autárquico não coincidiam, havia empenhamentos diferentes, formas diferentes de estar na vida, além de muito ruído em termos de relações pessoais que depois minam outras relações pessoais. Não temos a mesma visão nem o mesmo empenhamento na gestão da coisa pública.

Disponível para tomar conta do partido

Já se filiou no PS? Pedi a minha filiação no partido este ano e já tenho o cartão. É o partido com o qual me identifico, numa franja que pensa de forma social-democrata. Nos últimos anos o PSD tem feito uma política de liberalismo e menos de social-democracia. Continuo a ter o mesmo ideário político que tinha aos 18 anos.
Agora que é militante está em condições de assumir a liderança do partido no concelho. Para já sou filiado porque ser militante em Salvaterra de Magos neste momento não é fácil. Todos os filiados são potenciais líderes do PS. Enquanto presidente de câmara não tenho a intenção de assumir essas funções mas se as circunstâncias o exigirem, em nome do trabalho autárquico, se isso for útil, então estou disponível, apesar de preferir ser o presidente de câmara o mais aglutinador possível.
Quer dizer que só avança para a liderança do partido se a sua liderança na câmara estiver em causa? Há militantes em número suficiente, agora, para podermos ter outras soluções de liderança no PS de Salvaterra de Magos.

Não há terras que são filhas e outras que são enteadas

Foi técnico do município. Sente que existe também alguma oposição interna na câmara? O facto de ser funcionário e de voltar a ser quando deixar as funções de presidente é uma mais-valia. Porque permite-me conhecer a estrutura por dentro, as potencialidades e limitações e tem a vantagem de conhecer os colaboradores da câmara. O que poupou tempo e permitiu começar logo a trabalhar e a fazer obra.
Conhecendo a estrutura qual foi a estratégia para a colocar a trabalhar ao seu estilo? Foram criadas pequenas equipas de trabalho que foram colocadas no terreno a fazer obras. Antes as obras eram feitas ao ritmo dos apoios comunitários, por empresas, mas quando cheguei à câmara não havia fundos europeus. Nos três primeiros anos do mandato tinha de mostrar às pessoas que, mesmo sem dinheiro da União Europeia, era possível fazer coisas. Assim, mostrei também que todas as localidades, todos os lugares do concelho são meus filhos e que não há enteados.
Foi fácil criar essas equipas e motivá-las? Temos uma liderança que procura motivar, que tira o melhor que as pessoas têm para dar. As correcções que fizemos na liderança do pessoal e na estratégia resultaram em pleno e julgo que a maior parte da população reconhece, mesmo que não vote em mim ou no PS, que criámos uma dinâmica diferente.
Como é que se sentia como funcionário de uma câmara do Bloco de Esquerda? Por uma questão de elegância prefiro não viver no passado. Na vida cada um faz o melhor que pode. A gestão do Bloco de Esquerda foi apreciada ao longo dos anos. Agora gostaria de governar de forma diferente e não ter que estar sempre a dizer mal de quem me antecedeu. Prefiro fazer e não dizer mal, olhar para o presente e pensar no futuro.
Já esqueceu a polémica sobre o pedido de demissão do responsável da Protecção Civil Municipal, a quem acusou de fugir às responsabilidades? Essa é uma questão que não foi bem tratada por quem esteve antes de mim na gestão da câmara. Indicou-se alguém que tinha formação na área dos recursos humanos para dirigir a protecção civil, sem despachos, alegadamente verbalmente. Ele disse que não queria continuar nas funções de uma maneira que não foi muito feliz mas todos temos os nossos momentos maus. Neste momento está na divisão de recursos humanos.
O município vai continuar sem responsável da protecção civil? Criámos um lugar no quadro e vamos dotá-lo de forma correcta e conforme a lei e não por indicação verbal, como anteriormente. O presidente da câmara vai assumindo essas funções.

Se não fossem os autarcas o PS já não existia em Salvaterra

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