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Um correeiro rendido à arte chocalheira

Um correeiro rendido à arte chocalheira

Artur Silva é correeiro e há cinco anos materializou o seu gosto pelos chocalhos com a fabricação desses artigos na sua oficina em Ereira, concelho do Cartaxo, graças à parceria com um artesão alentejano. Desde que a arte chocalheira foi classificada como património mundial que a procura é maior.

Edição de 09.11.2016 | Sociedade

Artur Silva, 47 anos, é filho e neto de correeiros e há anos que desejava que alguém ensinasse ao seu empregado, Bruno Varanda, a arte dos chocalhos para complementar o seu trabalho como correeiro. “Sempre tive uma paixão pelos chocalhos, falei com todos os chocalheiros que conhecia no país e disse-lhes que o punha a trabalhar durante um ano à borla para eles enquanto eu pagava o ordenado mas nenhum quis”, conta.
Em 2011 conseguiu abrir a oficina na Ereira (Cartaxo) para os chocalhos com Feliciano Sim Sim. O alentejano de 34 anos vem de uma família de chocalheiros e trabalhava em Alcáçovas (Viana do Alentejo) depois de “chatear-se” com os ex-patrões. Pediu emprego a Artur e assim nasceu uma oficina de correaria e chocalhos. “Eu não sei fazer chocalhos, só sei vendê-los. Não tenho tempo para aprender porque faço a gestão da oficina, mas ajudo o Feliciano e o Bruno, embora não os saiba fazer de princípio ao fim”, revela Artur.
Depois da classificação dos chocalhos como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Dezembro último, Artur sentiu uma maior divulgação e procura desses objectos mas não vê nenhum apoio ou subsídio a quem aposta nesses artigos que, na sua opinião, continuam a ser melhores que a tecnologia GPS. “O som tranquiliza os animais e os pastores continuam a preferir os chocalhos para localizar o gado. No norte os pastores mais novos continuam a utilizar muito os chocalhos”, assegura.
Os chocalhos A. Sim Sim chegam aos pastores através de revendedores, a chocalheiros que já não fabricam devido à idade e a clientes particulares que os usam para cães, gatos, porta-chaves ou decoração. “Nunca tivemos dificuldade em vender chocalhos mas agora a procura é maior. Os chocalhos têm uma boa imagem apesar de ainda funcionar muito pelo boca a boca”, afirma Artur.

“O fim das touradas leva ao fim de uma raça”
Os pais de Artur são da Benedita, concelho de Alcobaça, que há cerca de 55 anos vieram viver para a Ereira. Aos 18 anos o seu pai morreu ficando com o negócio apesar de ter nove irmãos. Todos sabem um pouco do ofício de correeiro mas actualmente só um deles é que partilha a mesma profissão, também na Ereira. “Ele trabalha mais para os cavalos e para a equitação, enquanto eu deixei um pouco essa área e dedico-me aos animais domésticos e de caça”, explica.
Na oficina faz trelas, coleira, açaimes, bancos para caçadores ou cintos e hoje gere também a parte dos chocalhos com Feliciano Sim Sim. Os produtos são escoados para todo o país. As peles, na sua maioria, são compradas em Alcanena, mas também em Guimarães ou Felgueiras, as fivelas no Porto e as ferragens e campainhas em Braga. “Compramos as peles em bruto e depois tentamos tirar o maior partido delas porque são muito caras”, conta Artur que trabalha em série com cerca de 30 máquinas para cortar, furar, vincar, desbastar ou pintar.
Na correeria Artur dedica muitas horas ao ofício ou a desdobrar-se com os chocalhos e tem dois empregados que o ajudam com as peles. A concorrência com as importações da China ou Índia fez com que tivesse desistido do trabalho para cavalos porque acaba por não conseguir competir com os preços. Mas a competição também se estende no ramo dos animais domésticos. “Nas lojas dos chineses há imitações de pele, em nylon ou plástico, e com pouca qualidade, e depois temos ainda as fábricas de coleiras como na Benedita”, afirma Artur que diz existirem uma dezena de correeiros em Portugal.
Apesar de não saber montar a cavalo já teve um poldro que era para ser ensinado a montar, mas a falta de tempo levou-o a outra pessoa. “Não sou um aficionado mas ainda gosto de ver touradas porque se não existissem a arte do correeiro desaparecia ainda mais depressa”, afirma. “Só ficavam as fábricas e acabava-se com uma espécie de touro. E depois os protectores dos animais se calhar vão criá-los nos apartamentos deles”, acrescenta com ironia.
Com dois filhos, de 13 e 19 anos, Artur mostra-se descrente quanto ao seu futuro: “Eles só querem Internet mas a fome e o frio vai pô-los ao caminho. Mas eu sou o culpado, não os incentivo e o que eu tive a menos têm hoje eles a mais - é uma geração diferente” desabafa.

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