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O Investigador Filipe Ribeiro que vai desenvolver nos proximos 3 anos um estudo sobre as especies invasoras no Tejo
Siluros ajudados pela poluição estão a acabar com os peixes nativos do Tejo
Pescadores podem controlar espécies exóticas e ajudarem o rio
Edição de 30.11.2016 | Sociedade

Filipe Ribeiro, um investigador que começou um estudo na região sobre as espécies exóticas no Tejo, diz que no maior rio português existe a maior parte de espécies invasoras introduzidas em Portugal. E estas espécies, com prevalência para o siluro, que atinge dimensões e pesos consideráveis, estão a ser ajudadas pela poluição à qual são mais resistentes do que espécies nativas.

A poluição e a introdução de espécies exóticas, ou invasoras, no rio Tejo é uma pescadinha de rabo na boca. A poluição mata as espécies nativas, ou seja as características do rio, mais vulneráveis. As espécies invasoras, como o siluro, são mais resistentes à poluição e além de, desta forma, prevalecerem ainda como predadoras comem as espécies nativas do rio. Como é o caso do sável, da boga ou dos barbos. Os siluros, peixes originários dos grandes rios da Europa Central, que podem facilmente ultrapassar os dois metros e 40 quilos, ajudados pela poluição, estão a tornar-se os reis do Tejo e a destruir o seu ecossistema, que pode estar em risco a médio ou mesmo curto prazo.
Nos últimos tempos têm sido capturados siluros de dimensões consideráveis no Tejo, sobretudo na área do distrito de Santarém. Esta espécie foi introduzida no final da década de 90 em Espanha e foi descendo o rio naturalmente mas também com muita “ajuda” dos pescadores desportivos, chegando a Portugal há cerca de 10 anos, “estando actualmente em todo o troço principal do Tejo”. Filipe Ribeiro, investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), especialista em biologia de peixes de rio, concretamente em peixes exóticos, conta que na região se passou em poucos anos de três para 80 registos de siluros capturados no Tejo por pescadores, sobretudo nas zonas de Chamusca e Almeirim. Se a situação não for controlada, avisa, “corre-se o risco de as espécies nativas entrarem em extinção”.
A prevalência do siluro, na zona entre Lisboa e Abrantes, está a provocar outras alterações no ecossistema do rio. Refere o investigador, doutorado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que se está a assistir a um fenómeno “estranho” que é a subida de peixes de água salgada, como o robalo, a solha das pedras e a tainhas até ao açude de Abrantes. Esta situação acontece porque os peixes de água doce, nativos do Tejo, já não estão a dominar o ecossistema, ou pelos eventos recorrentes de poluição ou pela falta de caudais ecológicos das barragens a montante, segundo explica Filipe Ribeiro. O investigador refere que numa extensão de cerca de 100 quilómetros de Lisboa para montante já se encontra muito menos peixe nativo do rio Tejo.
Os siluros são predadores natos e chegam a comer aves que capturam nas margens do rio. Estes peixes conseguem saltar da água para apanharem as aves que estão a beber água e é por isso que também lhes chamam as orcas de água doce, porque têm um comportamento idêntico aos das orcas a capturarem as focas. Estas “caças” chegam a assustar pescadores e pessoas que estão nas margens.
Desconhece-se como é que o siluro foi introduzido no Tejo e também ainda não há grande conhecimento dos impactos que esta espécie provoca na região. Mas sabe-se, por exemplo, que os siluros causam alterações na qualidade da água do rio. Os siluros fazem agregações (juntam-se em grandes cardumes) e andam no mesmo espaço às voltas. Imagine-se 40 siluros juntos, o que representa uma massa de uma tonelada, em movimento, provocando alterações na qualidade da água localmente através dos sedimentos do fundo e das suas excreções. Em França, observou-se que os siluros esperam junto das passagens para peixes nos açudes, como o de Abrantes, para comerem as espécies que as utilizam.

Investigação no Tejo nos próximos três anos

Filipe Ribeiro vai estar a fazer um trabalho de investigação no Tejo, a jusante de Belver, para estudar as espécies invasoras. O investigador refere que o Tejo é o habitat onde prevalecem as espécies exóticas, onde já foram detectadas 15 espécies de peixes das 19 que existem em Portugal. “Actualmente chega ao Tejo um peixe exótico a cada dois anos”, explica. Este estudo será o primeiro estudo de base das comunidades de peixes a ser feito neste troço principal do rio e vai permitir conhecer melhor as comunidades dos peixes. No âmbito desta investigação, Filipe Ribeiro pretende implementar uma campanha de sensibilização no âmbito deste projecto que está a desenvolver no Tejo. O investigador já começou a fazer amostragens em alguns pontos do rio na zona de Santarém, com o apoio da Câmara de Santarém, que cedeu um barco. A investigação é financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Além de investigadores do MARE (da Faculdade de Ciências de Lisboa e da Universidade de Évora) tem a participação do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, Empresa de Desenvolvimento de Infrastruturas de Alqueva, Associação Biodiversidade para Todos e de um investigador da Escola Agrária de Santarém.

Joaquim José Gregório e João Nalha com um Siluro de 18,5 kg apanhado no Tejo na Chamusca

Pescadores fazem parte da solução

Os pescadores, sobretudo os desportivos, segundo Filipe Ribeiro, não estão sensibilizados para os impactos das espécies exóticas no Tejo. O investigador reconhece que as entidades fiscalizadoras não têm capacidade e que os pescadores devem ser uma espécie de “fiscais” que evitem a degradação do ecossistema ribeirinho. A primeira regra é que os pescadores que capturem espécies invasoras não as devem devolver ao rio. Situação que é, aliás, proibida por lei. Outra imposição legal é a de não transportar estas espécies invasoras para outras barragens e rios, com tem sido habitual com outras espécies invasoras como é o caso do ablete ou alburno. “Quanto ao siluro, infelizmente esta espécie já ocorre em Espanha em outros rios internacionais como é o Douro e Guadiana. Dever-se-ia ter um plano de monitorização nacional para estas espécies”, sublinha o investigador.
“Gostaria que os pescadores fossem os agentes do controlo do Tejo e matassem todas as espécies invasoras que capturassem. E que sensibilizassem os outros colegas pescadores”, realça Filipe Ribeiro. O investigador ressalva que não é contra a existência de espécies exóticas em Portugal, uma vez que a pesca desportiva é uma actividade importantíssima para a economia local.” Porém a pesca a peixes exóticos deve ser realizada nos sítios certos, desde que não afectem os ecossistemas ou a qualidade de água das barragens para consumo humano”, salienta. Nesse sentido, sublinha, “os pescadores devem ser uns aliados dos rios e dos serviços que a água nos fornece”.
Por exemplo, refere, o achigã é uma espécie predadora mas é importante em termos económicos, só que em muitos rios poderá ser fatal para alguns peixes nativos, enquanto que em barragens o impacto é menor porque não existem tantos peixes nativos. A carpa, que não é predadora, é um peixe que afecta a qualidade da água e não pode estar presente em barragens para consumo humano, “porque acabamos todos nós por pagar mais pelo tratamento da água”. A carpa alimenta-se no fundo, que contém muitos nutrientes, e ao alimentar-se liberta estes nutrientes que ao chegarem à superfície vão “causar blooms de algas diminuindo a qualidade da água”.

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