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Desperdício
Choca-me profundamente o nível de consciência de um coletivo que se deixa ir atrás de um folclore consumista, escandalosamente agressivo, e que se esquece do essencial.
Edição de 07.12.2016 | Opinião

Se há uma só palavra que caracteriza o nosso tempo e modo de vida é, sem dúvida, desperdício. É certo que é no desperdício que somos verdadeiramente eficazes. Mal usamos tudo o que tocamos: alimentos, energia, água e até o tempo. Vivíamos perto do local de trabalho, íamos almoçar a casa e agora é o que sabemos. Lembro-me de a minha mãe estar algumas vezes sem ferro de passar a roupa porque o aparelho tinha ido arranjar ao eletricista, que por acaso até vivia por cima. Parece um mundo de ficção, mas não foi assim há tanto tempo. Entretanto, fazem-nos crer que os recursos são infinitos e gratuitos. Os limões chegam-nos do Chile e as reservas de petróleo são inesgotáveis. É mais fácil acreditar no Pai Natal.
Por estes dias querem-nos vender tudo. As campanhas comerciais assumem uma dimensão sem paralelo e tudo o que não nos interessa passa para o estatuto inverso. Os preços dizem-se irrecusáveis e compramos o que não precisamos. Somos alegremente enganados e sentimo-nos felizes. Os centros comerciais são atrativos únicos de grande satisfação para pequenos e graúdos.
Confesso-vos que apesar de cristão e de valorizar a família desejo que este tempo de natal, que é tudo menos Natal, passe rapidamente. Choca-me profundamente o nível de consciência de um coletivo que se deixa ir atrás de um folclore consumista, escandalosamente agressivo, e que se esquece do essencial. As pistas de gelo que se ostentam em muitos concelhos, que nada têm a ver com o nosso clima e tradição, retratam bem este modelo pateta de festejar a época a natalícia.
Procura-se agora teoricamente atingir um objetivo que há muito pouco tempo se praticava nas nossas terras: “lixo zero”. Nada se desperdiçava, o porco e as galinhas ajudavam. Agora, para compensar, há uma associação, dita Zero, que supostamente nos defende das agressões ambientais. Associação Zero, fundada porque as comadres se zangaram numa outra, que nos entra pela casa dentro como arauto das grandes causas ambientais – os mesmos de sempre, com várias camisolas, a gritar “aos costumes disse nada”. Zero a fazer muito lixo.
Como nada muda, se não mudarmos nós tudo isto se vai mantendo como se fosse possível e aceitável que uma minoria, muito minoria, delapide um bem comum (recursos naturais essenciais à vida) como se nada fosse. A grande verdade é que a dívida dos países do norte relativamente aos do sul é cada vez mais absurdamente enorme e insustentável, embora nos digam o contrário. Só falta saber por onde vai quebrar e quando?
Carlos A Cupeto
Universidade de Évora

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