uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante
“Irrita-me ir a um concerto e ver gente ao telemóvel sem desfrutar do momento”

“Irrita-me ir a um concerto e ver gente ao telemóvel sem desfrutar do momento”

Marta Rosa, 26 anos, artista, Alverca do Ribatejo. Marta Isabel Rosa é um rosto conhecido na cidade de Alverca.

Edição de 10.08.2017 | Três Dimensões

Formada na área musical, é no fado que mais tem dado nas vistas e já tem um segundo disco a caminho. Sempre que actua em Alverca arrasta centenas de pessoas para a aplaudir. Diz quem a conhece que é o próximo grande talento nacional do fado mas Marta não se deixa deslumbrar. Cada dia é vivido ao máximo e a um passo de cada vez. No último mês foi distinguida com o galardão de mérito da cidade de Alverca.

Acho que fadista não é a palavra que melhor me define. Pode ser arrogância mas hoje em dia qualquer pessoa é fadista. Para mim, cantar fado é uma forma de vida. Também dou aulas de música e já fiz ópera e algum teatro, escrevo e tento compor. Apesar de já cantar há década e meia, na realidade ainda estou numa fase muito inicial da minha carreira. Sinto que ainda muitas portas se poderão abrir.

Viver em Alverca é estar num cantinho de céu. Estou perto de Vila Franca de Xira e de Lisboa, que é onde passo a maior parte do tempo. Sou uma insatisfeita perfeccionista e uma pessoa desassossegada. Como diria António Variações, só estou bem onde não estou. Isso tem coisas boas e más, a boa é que é uma maneira de ser que me obriga a nunca ficar confortável muito tempo no mesmo sítio. Se começo a sentir que estou demasiado acomodada a algo começo a sentir um bichinho para fazer outra coisa, por muito bem que as coisas estejam a correr.

Fado que é fado ouve-se à noite numa rua escura. O fado tem uma tristeza, melancolia e nostalgia intrínseca que devemos assumir. Ouve-se mais fado hoje em dia. Gostava que saísse ainda este ano o meu segundo disco. Os meus pais têm sido o meu maior apoio. Não acredito no destino, e isso é algo anti-fadista de se dizer, mas se acreditasse diria que o destino é o culpado por ter seguido a via musical. Sou muito teimosa, a partir do momento em que quero uma coisa, de uma maneira ou de outra, furo para o conseguir. Às vezes é uma virtude, outras vezes um defeito.

Não sou capaz de ter um trabalho de escritório das nove às cinco. Adoro o que faço e acredito que o trabalho é o essencial para singrar profissionalmente. A sorte e o talento são um por cento. Podia ter ido para arquitectura ou design, passou-me pela cabeça ir para história da arte e escultura. Gosto muito de ser criativa. Ainda hoje pego numa tela ou um bocado de barro e faço algo.

Sou uma pessoa noctívaga. É difícil apanharem-me acordada de manhã às horas de gente normal, com uma rotina normal e a almoçar e jantar às horas certas. Prefiro a noite em termos criativos, sinto-me mais activa.

O galardão do dia da cidade de Alverca foi uma surpresa e um orgulho. A primeira coisa que pensei foi porque motivo o recebi. Na realidade ainda não fiz nada de especial. Vivo no meu mundo e confesso que não tenho noção que há gente que segue o meu trabalho e espera pela próxima música. Não sou uma diva. Tenho medo de me deslumbrar. As pessoas vendem muitas ideias de grandeza. Todos nós temos o nosso ego para lidar mas é importante não ir além do que somos. O segredo está no equilíbrio.

Vende-se hoje a ideia de que os artistas têm uma vida glamorosa mas na realidade é uma vida sofrida. Esta é uma profissão instável, sazonal e insegura. Uma pessoa que queira viver disto e pagar contas, sem ser só sobreviver, não é fácil. É assustador pensar que no fim do mês pode não haver rendimento.

Gosto de dormir e viajar, não vejo muita televisão mas leio bastante. A última coisa que li de princípio ao fim foi “Este livro que vos deixo”, do António Aleixo. De resto tenho muitos livros de consulta, sobretudo sobre fado.

Irrita-me ver pessoas ao telemóvel num concerto em vez de desfrutarem o momento. Ou a tirarem fotografias, a fazer vídeos ou directos nas redes sociais. Depois a sensação que guardaram desse concerto é o que viram pelo telefone. Não o viveram.

Vivemos num período em que as pessoas querem tudo rapidamente. Somos a sociedade do imediato, comprar agora e querer outra coisa nova no mês seguinte. Sem parar para pensar. Por outro lado, as pessoas procuram hoje mais a felicidade. Ambicionam mais do que uma profissão para sempre ou mais do que um objectivo estagnado de vida. Tenho pavor dessa normalidade. As pessoas hoje têm menos medo de mudarem a sua vida.

Oiço bastante música e adoro ópera. Tenho discos de vinil e CD’s em casa. Além de música clássica tenho também nas estantes Buarque, Tom Jobim, Elis Regina, Camané, Beatriz da Conceição, Sérgio Godinho, Ricardo Ribeiro ou Fausto.

“Irrita-me ir a um concerto e ver gente ao telemóvel sem desfrutar do momento”

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...