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Um dia no quartel dos Bombeiros Voluntários de Alverca

Um dia no quartel dos Bombeiros Voluntários de Alverca

O MIRANTE assistiu de perto ao ritmo a que anda uma das corporação mais bem equipadas do concelho de Vila Franca de Xira. Na vida de bombeiro a vida e a morte andam de mãos dadas. Tragédias e alegrias fazem parte do dia a dia. E nunca se sabe com o que se pode contar no minuto seguinte.

Edição de 04.10.2017 | Sociedade

Terça-feira, 27 de Setembro, quase nove horas da manhã. Do quartel dos Bombeiros Voluntários de Alverca do Ribatejo (BVA) vai sair uma das viaturas de transporte de doentes para as consultas de fisioterapia e hemodiálise. Quem a conduz, como na maioria das manhãs, é Ludgero Pinho, 26 anos. Sai com o seu sorriso bem-disposto e cortês, mas leva o espírito pesado porque no dia anterior morreu-lhe um doente que acompanhava há algum tempo: “Levei-o à hemodiálise, estivemos a falar de futebol, como sempre, a dizer bem do Benfica e mal do Sporting. Deixei-o em casa e 15 minutos depois ligaram-me a dizer que ele tinha morrido”.
Não é uma estreia para Ludgero nem para grande parte dos colegas nos BVA, porque já todos viram alguém morrer à sua frente, muitas vezes conhecidos, amigos ou mesmo familiares. Num quartel, a vida e a morte andam de mãos dadas e tanto se assiste a acidentes brutais como a nascimentos que enchem de alegria os bombeiros que os assistem. Os dias passam sob o som das sirenes das ambulâncias e muitas vezes acompanhados do calor das chamas, que desta vez só chegaram já passava da hora de almoço, com um incêndio em Arruda dos Vinhos.
Sara Duarte, 22 anos, e Luís Pirão, 51, são destacados para irem ajudar a corporação local. O problema com que se deparam na hora de sair é antigo e não os tem afectado só a eles: o veículo onde têm de ir, um auto-tanque, está nas instalações secundárias dos BVA, uma garagem ao lado do Continente de Alverca. É preciso, por isso, que outro colega, Ricardo Forte, 35 anos, os leve até lá.
Cada minuto conta e com a sirene a tocar bem alto, o carro desliza pelas ruas e abre caminho pelo trânsito. A distância entre o quartel e a garagem denuncia a dificuldade que os bombeiros muitas vezes têm no desempenho das suas funções e a urgência em conseguir um quartel novo ou a expansão do actual para que todas as viaturas e restantes equipamentos estejam o mais próximos possível. Porém, nem Sara nem José estão nervosos. Ir ao encontro das chamas já é natural.
“Toda a gente tem medo do fogo. Quem disser que não tem está a mentir. Mas temos de fazer o que temos de fazer”, defende José Silva. Separam-no de Sara vários anos de experiência e muitas formações – que são contínuas ao longo de toda a carreira, nas mais diversas áreas, do Socorrismo ao Desencarceramento, Suporte Básico de Vida, Combate a Incêndios Florestais ou Urbanos, entre outros – mas sente-se confiante com ela ao seu lado.
Também se sente assim com Sandra Araújo, 27 anos, outra das mais jovens bombeiras dos BVA. Aos três juntaram-se Ricardo e ainda José Silva, 48 anos, um dos mais veteranos da corporação, de manhã no pátio em frente ao quartel, para partilharem a lista dos locais onde tinham combatido, juntos ou em separado, chegando à conclusão de que tinham estado em quase todos os grandes incêndios deste Verão e mostrando que a experiência dos mais velhos e a vontade de aprender dos mais novos se coordenam na perfeição e tornam-nos, mais que colegas, uma família.

É na central de operações que tudo começa
Quem passar pela entrada frontal do quartel depara-se com a central de operações e telecomunicações, que tem de estar sempre ocupada. Há quatro operadores da central, que se revezam em turnos de oito horas. Quem ocupava a cadeira na manhã dessa terça-feira era Inês Forte, 29 anos, esposa de Ricardo. É a ela que cabe atender todas as chamadas, quer as que são feitas logo para o número dos BVA, “o que não devia acontecer”, quer as que são reencaminhadas do 112 ou do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU). “Ninguém sai do quartel sem a ordem de quem está aqui na central. É aqui que tudo começa”, explica Inês.
Ao longo desse dia chegaram 28 chamadas à central, mas apenas seis delas para serviços CODU (emergências médicas, a maioria de doença súbita). Em comparação, o dia anterior foi mais agitado: registaram-se 33 ocorrências, 16 delas do CODU. “E quando chegar o Inverno é verem a cair as chamadas por causa de acidentes na A1 devido à chuva”, revela Inês.
Além das chamadas, também chegam à central pessoas a pé, como aconteceu ao final da manhã. “Está ali uma senhora no cabeleireiro a sentir-se mal. Podem ir ver o que se passa?”, pede a idosa que surge à porta. José Silva e Sara Duarte ainda não tinham saído para o combate ao incêndio em Arruda nessa altura e estavam disponíveis, por isso vão verificar o estado da doente, uma mulher de 68 anos que teve uma quebra de tensão.
Calmamente, Sara explica a O MIRANTE as questões de diagnóstico que estão a ser feitas à doente, que se enganou a dar a indicação e em vez de hipertensão sofria de hipotensão, o que levou os dois bombeiros a aconselharem-na a verificar junto do médico se a dosagem da medicação que ele lhe prescrevia ainda era a adequada. Depois do diagnóstico, levaram-na de ambulância para o Hospital Vila Franca de Xira, uma viagem que se faz quase de olhos fechados porque as viaturas já conhecem o caminho de cor.

Espírito de família
Chega a hora de almoço e juntam-se à mesa da sala de convívio do quartel quase todos os bombeiros que estão livres. Uns cozinham, outros aquecem a comida que trouxeram de casa, com a televisão ligada nas notícias e a conversarem sobre como o dia está a ser calmo e como isso pode mudar a qualquer momento. “Agora a sala está assim com muita gente, mas há vezes em que toca a sirene para dois ou três casos ao mesmo tempo e numa questão de minutos fica vazia e desaparecem as viaturas todas lá de baixo”, explica o bombeiro Tiago Caldeira, 37 anos.
O Verão é, por regra, a altura mais complicada devido aos incêndios florestais, mas as outras estações também trazem dias e noites agitados. Nas camaratas femininas e masculinas o ambiente à noite pode ser de diversão ou de descanso na altura em que soa a sirene e os bombeiros entram em acção, mas na camarata feminina o descanso é mais raro quando Sandra Araújo, 27 anos, bombeira de 2ª, decide animar as colegas com conversas que se prolongam pela madrugada fora.
“Ela não deixa dormir ninguém! Quando as outras aparecem com olheiras no dia seguinte já se sabe quem as causou!”, brinca o bombeiro António Antunes, 38 anos. As picardias são trocadas à mesa, em espírito de família, porque é isso que os colegas se tornam uns para os outros ao fim de tanto tempo a trabalharem juntos.
“Passam mais tempo aqui do que em casa, muitas vezes. Têm cá maridos e mulheres, mas também são amigos uns dos outros. No fundo, agem como uma família”, afirma o chefe Francisco Vicente, 58 anos, que defende que a sua corporação é a melhor equipada “tanto no concelho de Vila Franca de Xira como se calhar em muitos concelhos pelo país fora”: “A prova é que ajudamos qualquer corporação aqui nas redondezas sempre que é preciso e trabalhamos muito bem uns com os outros. Costumo dizer que não somos, enquanto corporação, melhores nem piores que ninguém, somos só diferentes”.

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