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Dentistas estão de regresso aos centros de saúde da região

Dentistas estão de regresso aos centros de saúde da região

Um serviço público que está a funcionar todos os dias úteis em cinco centros de saúde. Há mais de trinta anos, pelo menos, que não se viam dentistas nos cuidados primários. Agora estão de regresso num projecto-piloto que começou por se dirigir a doentes crónicos e que já está alargado a todos os inscritos dos centros de saúde. Não é só uma questão de proporcionar mais um serviço, é uma forma, para alguns a única, de garantir uma melhor saúde oral.

Edição de 02.11.2017 | Sociedade

Ana Sofia Monteiro, com um sorriso Pepsodent, parafraseando o anúncio famoso dos anos 80, podia ser o rosto de uma campanha de regresso dos médicos dentistas aos centros de saúde. Ela é o rosto de modernidade, cerca de três décadas depois deste serviço ter desaparecido das unidades públicas. É jovem, com 25 anos, em início de carreira, e é do mesmo concelho onde trata dos dentes aos utentes do Centro de Saúde de Salvaterra de Magos mas também dos concelhos vizinhos. A médica dentista vem à porta que dá para um corredor silencioso àquela hora. São 16h30 de sexta-feira, 27 de Outubro. Com ar simpático e voz serena manda entrar Ana Rita Jesus, a última utente do dia, que vai fazer uma destartarização.
A utente é da Fajarda, concelho de Coruche, e finaliza nesse dia uma série de tratamentos, que iniciou há cerca de seis meses. Ana Sofia Monteiro só está a trabalhar no projecto-piloto de Cuidados de Saúde Oral nos Cuidados de Saúde Primários, que começou em 13 de Setembro de 2016, desde Junho deste ano, substituindo a dentista que inaugurou o serviço em Salvaterra de Magos, uma das três unidades públicas de saúde da Lezíria do Tejo que estão a disponibilizar tratamentos dentários aos utentes da região. As outras são as de Cartaxo e Rio Maior. O projecto está ainda a funcionar em Azambuja e Fátima (Ourém).
A iniciativa começou por dirigir-se apenas a pessoas com doenças crónicas, como diabéticos ou doentes oncológicos. Ana Rita Jesus estava a ser tratada a um cancro quando teve conhecimento do projecto. Falou com o seu médico de família, que a encaminhou para Salvaterra de Magos. Nessa altura já o Ministério da Saúde tinha decidido alargar o serviço a todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde. “Comecei bem e dei-me bem, pelo que tenho continuado. O serviço é muito bom”, elogia a utente que já fez extrações de alguns dentes e reconstrução de outros. Agora, depois da destartarização, só vai ter de voltar a ser vista pela dentista daqui por seis meses. “Se tiver algum problema entretanto avise”, sugere Ana Sofia Monteiro.
No consultório dentário, com muita luz natural e equipamento moderno e bem cuidado, a jovem médica tem um computador com os ficheiros dos seus utentes, que já vai em uma centena de pessoas. Alguns “nunca tinham estado num dentista e outros já não iam há vinte anos ou mais”, explica Ana Sofia Monteiro, que vive a quinze quilómetros do centro de saúde, na vila de Glória do Ribatejo. “No início apareciam muitas pessoas com idade mais avançada mas ultimamente têm aparecido utentes mais jovens, alguns com 20 anos”, conta a médica, enquanto vai polindo minuciosamente os dentes da utente. Uma boca cuidada é importante na saúde em geral. A boca é a porta de entrada e de acumulação de bactérias que, no caso de existir uma inflamação nas gengivas, por exemplo, podem chegar à corrente sanguínea e causar danos no sistema imunitário.
Ana Sofia Monteiro sente o peso da responsabilidade de contribuir para que algumas pessoas possam ter um sorriso mais branco. À pergunta sobre se está a gostar do trabalho, responde com um brilho nos olhos de satisfação por ter esta oportunidade de progredir na carreira, perto de casa, com as pessoas da sua terra e contribuindo para o desenvolvimento de um serviço público de medicina dentária. Nas consultas em Salvaterra já apareceram situações de lesões suspeitas, que podem estar associadas a cancro oral. Estes casos são encaminhados através do Projeto de Intervenção Precoce do Cancro Oral (PIPCO), com um cheque dentista.
A médica dentista tem o apoio de Noémia Moreira, de 63 anos, que trocou Lisboa pela vida mais calma de Marinhais. Era auxiliar de medicina dentária num consultório privado em Lisboa e agora está também a ajudar ao regresso da medicina dentária aos centros de saúde. Quem está isento não paga e quem não está paga apenas a taxa moderadora normal de uma consulta. Esta era “uma necessidade da população que estava em falta no Serviço Nacional de Saúde, refere Ana Sofia Monteiro, que ao ar de espanto de algumas pessoas pelo facto de ter cara de miúda não precisa dizer nada. Basta mostrar os dentes brancos no sorriso descontraído para transmitir confiança.

Previsto alargamento

Na área da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) realizaram-se 19.505 consultas de saúde oral aos utentes no primeiro ano de atividade do Projeto-Piloto dos Cuidados de Saúde Oral nos Cuidados de Saúde Primários. Este organismo prevê que durante o segundo ano de atividade prevê-se o alargamento do projeto a mais doze centros de saúde da ARSLVT.

Catorze consultas diárias

O acesso aos serviços de medicina dentária nos centros de saúde de Salvaterra de Magos, Cartaxo e Rio Maior é feito através da referenciação do médico de família, que marca a primeira consulta. Os médicos dentistas que abraçaram este projecto-piloto trabalham todos os dias durante 40 horas semanais. A média de consultas previstas é de catorze por dia. Fernando Silva, coordenador do projecto de saúde oral do Agrupamento de Centros de Saúde da Lezíria realça a boa adesão das pessoas a este serviço, que serve toda a área do agrupamento. Em todo o país iniciaram-se as consultas com médicos dentistas em treze unidades de saúde. Fernando Silva perspectiva que os bons resultados que têm sido obtidos vão permitir alargar o projecto a outras localidades.

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