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Salientar a identidade de cada povo

António Nabais prepara exposições há quase duas décadas

O museólogo António Nabais prepara uma exposição histórica sobre o concelho do Cartaxo. O tema vai girar à volta do homem do campo, do cavalo e do touro. Dezoito anos depois, o “pai” do Museu Rural e do Vinho voltou ao espaço para reestruturar a exposição e encontrar novas formas de comunicação.

Edição de 28.01.2004 | Identidade Profissional
O homem do campo, o cavalo e o touro. São estas as figuras que estarão em destaque no núcleo da exposição histórica sobre o concelho do Cartaxo que o museólogo António Nabais, 56 anos, está a preparar no Museu Rural e do Vinho. Objectos ligados à lavoura e artefactos do campino são algumas das peças que irão integrar a colecção do museu. A inauguração está marcada para Maio, altura em que o museu comemora 18 anos. O museólogo, profissional há quase duas décadas, passa grande parte do seu tempo na sua residência da Póvoa da Isenta, em Santarém. Já conhece bem a exposição do Cartaxo e quase trata “por tu” os objectos. Foi o especialista que esteve responsável pela concepção do museu etnográfico. Dezoito anos depois o museólogo voltou ao espaço para reestruturar a exposição e encontrar novas formas de comunicação. Para conhecer a realidade local efectuou reuniões com as pessoas ligadas à histórias das várias freguesias. “Pensámos fazer um museu voltado para a história do concelho uma vez que havia muitos objectos ligados ao cavalo, ao touro e à vida agrícola”. O especialista já conhece a maior parte dos objectos que irão integrar o núcleo da exposição, mas está a preparar um guião diferente. “Os comerciantes também mudam o figurino das lojas para atrair o comprador. Aqui também mudamos a imagem dos museus para que o visitante se sinta atraído”. António Nabais defende que o museu não é um espaço estático e imutável. “Os museus devem reformular-se para que se actualizem em termos de comunicação”. Depois da elaboração do estudo e do guião passa-se para a fase do projecto expositivo, que fica a cargo de um arquitecto de interiores. A criação de uma exposição envolve também um especialista de iluminação. Para o museólogo a fase mais aliciante do trabalho é a da investigação e concepção da exposição. “É a parte mais criativa. Mas também é interessante dialogar com o projectista”. O mais difícil na profissão é por vezes o diálogo entre os museólogos e os arquitectos. “É difícil pegar num museu quando o espaço já está feito sem ter obedecido a um programa”. Quando está a criar um programa para uma exposição pensa em atingir todos os públicos. “A comunicação tem que ser acessível a toda a gente. Enquanto que uma biblioteca tem que ser para quem sabe ler o museu tem que ser para todos. Toda a gente é capaz de ler através da imagem ou do objecto”. Nas exposições em que intervém, o texto surge apenas como auxiliar. Pretende comunicar sobretudo através do objecto. Utiliza frases que transmitam mensagens e ajudem a interpretar a exposição. Assim como o texto, também não exagera no audiovisual. Para tornar um museu mais atraente procura que não tenha objectos a mais ou a menos. “É importante que seja um espaço onde as pessoas se sintam bem”. Acredita que a falta de público nos museus se deve à pouca divulgação, mas também porque há a ideia de que os museus existem só para os turistas. O museu de arte sacra e etnologia, em Fátima, o eco-museu do Seixal, o museu da Guarda e algumas exposições temáticas nos Pavilhões da Expo 98 fazem parte do seu currículo. O ex-professor de história interessou-se pela museologia em 1979, quando pesquisava para a disciplina de Estudos Sociais e descobriu que os museus não tinham informação sobre a história local. O profissional, que é também presidente da Associação Portuguesa de Museologia, é um dos grandes defensores da equiparação da profissão à de investigador. O museólogo é o responsável pelo Museu Etnográfico da Nazaré, dependente do Instituto Português de Museus do Ministério da Cultura, mas continua a apoiar a criação de museus nos tempos livres. Ao final do dia e aos fins de semana, arranja algum tempo disponível para trabalhar nos museus. Mas é no trabalho de casa que ocupa a maior parte das horas de investigação. “O museu tem muito trabalho que não se vê”. A criação de um museu pode levar vários meses, ou anos, como aconteceu no Cartaxo. Depois de ver os objectos e os conteúdos, o museólogo tem necessidade de amadurecer a ideia do museu na sua cabeça. “Não quero fazer dois museus iguais. O nosso trabalho é salientar as diferenças - a identidade de cada povo”. Ana Santiago

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