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As “doentes” da bola

As “doentes” da bola

Adeptas fanáticas que chamam nomes ao árbitro e até invadem o campo
Edição de 28.01.2004 | O poder local aqui tão perto
Há uns anos atrás a mãe de um jogador da equipa de Montalvo, então a militar no campeonato do Inatel, irrompeu pelo campo dentro depois de um jogador da equipa adversária ter feito falta sobre o seu filho. De pau na mão, a mulher só não conseguiu os seus intentos - bater a quem magoou o filho - porque “esbarrou” nos guardas da GNR. Esta história, verídica, é bem elucidativa de como a população feminina de Montalvo vê e vive os jogos de futebol. “As mulheres aqui são piores que os homens”, dizem na aldeia. E as próprias confirmam - “Daqui ninguém vai sem resposta”. Todos os anos, em Junho, Montalvo organiza um torneio de Futsal no âmbito do qual há um dia em que há jogos a decorrer durante 24 horas. E seja às nove da manhã, às quatro da tarde ou às três da madrugada, a assistência é composta em grande parte por mulheres. Há até quem leve farnel, umas sandes, uns sumos, só para não perder pitada. Fernanda Morais é mulher de um ex-árbitro de futebol e mãe de Bruno Morais, avançado dos Dragões de Alferrarede, a disputar a segunda divisão distrital de Santarém. E é o que se chama uma “doente” da bola. Na altura das 24 horas de futsal, Fernanda Morais é capaz de se levantar de madrugada só para ver o seu filho jogar. Como ela própria diz, gostar da bola é já uma herança de família. “Em casa éramos dez filhos e todos eram ferrenhos pela bola e até a minha mãe ia ver todos os jogos”. Quando a equipa de Montalvo jogava no Inatel - o futebol de onze acabou há meia dúzia de anos na aldeia - Fernanda não falhava uma partida e, como ela própria diz, “vibrava” com o jogo. “Graças a Deus o meu filho nunca se magoou a sério. Mas se eu visse algum jogador a maltratá-lo não sei do que era capaz”. Ainda hoje, em qualquer local onde vão ver a bola não passam despercebidas Gritam, barafustam, chamam nomes aos árbitros e nunca deixam alguém ir sem resposta. Por causa disso, Fernanda ia andando à bofetada com uma adepta de um clube rival. “Um jogador arreou no meu filho e ele deu-lhe o troco, mas a mulher desse jogador quis levantar-se para bater no meu e eu disse-lhe que tinha de passar primeiro por mim”. Asneiras não dizem, mas não se coíbem de enviar alguns mimos aos árbitros e adversários - de “filho da mãe” a “carneiro”, os adjectivos são muitos e variados. Glória gosta mais de mandar “bocas” aos atributos físicos - “Digo-lhes que têm que ir para a praia bronzear as pernas, chamo-lhes carecas e outras coisas do género”. Para não perder a cabeça, Glória prefere agora ficar dentro do automóvel enquanto o marido arbitra jogos do Inatel. “Porque se o ofenderem sou capaz de fazer o mesmo”. Mas não se pense que vibram apenas com o futebol local. Fernanda e Glória são adeptas de clubes rivais, respectivamente Benfica e Sporting, pelos quais torcem com o mesmo fervor. Glória nunca foi ao Estádio de Alvalade “por medo de levar pancada”, mas Fernanda já foi à nova “Catedral” da Luz e lá, como em Montalvo, diz o que lhe vem à cabeça contra o árbitro ou a equipa adversária. Nestes anos todos de futebol há um episódio que Fernanda não esquece. Foi em Agosto de 1998, dois anos antes de João Pinto sair do Benfica, quando levou os maiores apertões e apalpões da sua vida... para conseguir alguns autógrafos.
As “doentes” da bola

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