
Quando o “rancho do marceneiro” animava o Carnaval
Vale de Cavalos, fonte viva de folclore
Há meio século os ranchos folclóricos não estavam organizados como actualmente. Nem dançavam o que se dança agora. Faziam-se e desfaziam-se de acordo com a necessidade de animar determinado acontecimento. Um cortejo de oferendas, uma inauguração, uma festa de Carnaval.
“Alarguem! Alarguem!” dizia o ensaiador. E os pares que dançavam alargaram a roda. Mas a experiência era pouca e ao fim de algum tempo já andavam perdidos. Homens a dançar com homens e mulheres com mulheres. Estávamos em 1950. Vale de Cavalos, concelho da Chamusca. Ensaiava o primeiro rancho folclórico da freguesia. Na época os ranchos eram criados para determinadas ocasiões e acabavam logo a seguir. Aquele destinava-se a animar um cortejo de oferendas na praça de touros da Chamusca. Quem conta a história é Manuel Cardador. Habitante de Vale de Cavalos, bairrista até à medula. “No cortejo iam vários ranchos. O nosso era o que tinha melhor apresentação”, diz a sorrir.No ano seguinte organizou-se outro rancho para a inauguração da Sociedade Recreativa Valcavalense (SRV). Dançou apenas uma marcha. Na altura foi cantado o hino da SRV, da autoria do doutor Bastos da Silveira, o médico da aldeia. Hoje já não se canta o hino da colectividade e os ranchos não dançam marchas. Essas ficam para os santos populares. Agora é o tempo do fadango de varapau, verde gaios reinadios, viras batidos e passados, fadinhos e fadilhos. Mas as sementes dos actuais ranchos foram lançadas naqueles tempos. A cultura popular e o gosto pela dança foi passando de geração em geração.Há quem tenha memória de outras iniciativas populares. O rancho folclórico carnavalesco, mais conhecido pelo “rancho do marceneiro” foi organizado, para participar num carnaval na Chamusca.Os ensaios eram feitos num celeiro e numa garagem. Doze pares. Os rapazes trajavam camisa branca e calças azuis. As raparigas, de lenço na cabeça, levavam blusa branca, saia de castorina encarnada, meia branca e tamanquinha.Em 1954 nasceu o segundo rancho da Sociedade Recreativa Valcavalense. Tinha como ensaiador o médico da aldeia, o doutor Bastos da Silveira. O tal autor do hino. Sentada na cozinha de sua casa, Silvina Cardador, uma das dançarinas da altura, diz que não se recorda se as danças e músicas resultavam de recolhas feitas na Freguesia ou se eram importadas de outras regiões. O rancho durou até os dançarinos se casarem. “Antigamente nada era como agora. As pessoas eram criticadas se continuassem a dançar depois de casarem”, conta. Ana Lúcia Sousa

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