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Mexer em comida e em dinheiro

Edição de 14.08.2006 | O Mirante dos Leitores
A menina do café acaba de fazer o troco a um cliente e logo a seguir pega no meu pão-de-leite para abrir ao meio e mete-lhe uma fatia de fiambre dentro. Ainda não trinquei o pequeno-almoço e já sinto o sabor das moedas e das mãos por lavar. Talvez para atenuar o travo a metal e a notas de euro ela usa a faca que usou antes para cortar ao meio uma bola de Berlim. Fiambre açucarado é o que me vai sair na rifa.No café ao lado a cena é a mesma. Na pastelaria perto do emprego repete-se a cena. Nas cidades, vilas e aldeias onde costumo parar para lanchar idem aspas, aspas. Penso que há uma lei que não permite que os empregados que mexem em dinheiro preparem alimentos ao mesmo tempo. Há de certeza uma lei. Este País é o país das leis e não poderia faltar uma assim. Era indesculpável. Seja como for a mim não me interessa saber se há ou não há lei. O que eu queria mesmo era higiene. E isto não tem a ver com leis. Tem a ver com educação. Bom senso. Profissionalismo. Coisas que existem em quantidades muito reduzidas.Fazer leis é fácil. Educar um povo é que é difícil. Li uma vez um provérbio chinês que dizia qualquer coisa como isto: “Se os teus planos vão até um ano, faz uma seara. Se vão até cem anos, planta uma árvore. Se vão até mil anos, educa um povo”. Infelizmente em Portugal os planos daqueles que elegemos para governar resumem-se ao tempo de uma legislatura. Há cafés onde me é possível tomar o pequeno-almoço sem sentir nojo. Felizmente. E há algumas coisas que funcionam. Mas são tão poucas. Tão raras. As excepções que confirmam a regra do “deixa andar”. E que não fique a ideia que eu culpo os políticos. Nós somos todos culpados. Há dias assisti a uma cena exemplar num super-mercado. Uma senhora estava a ser mal atendida na secção do peixe e protestou os seus direitos. A empregada ficou “de trombas” – perdoem-me a expressão mas é a que melhor retrata a cara dela – e os outros clientes de trombas ficaram. Apesar da senhora ter carradas de razão saíram todos em defesa da empregada. E por uma simples razão: a reclamação estava a atrasar o atendimento. É por estas e por outras que eu em vez de reclamar nunca mais ponho os pés nos cafés onde corro o risco de comer uma sandes de euro e receber o troco em bocados de queijo. Mas confesso que o preço a pagar é elevado. Há dias em que não tomo o pequeno-almoço.Maria do Carmo Bonnet

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