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A minha loja é uma casa de lamentações

A minha loja é uma casa de lamentações

Uma conversa com Francisco Leonor, o antiquário de Almeirim, o homem que imitava Salazar
Edição de 20.12.2006 | Entrevista
Francisco Leonor faz parte de um grupo de homens mais antigos com quem, ao longo dos últimos 30 anos, venho actualizando a cultura geral e a sabedoria de vida. Esta entrevista estava no meu pensamento há muitos anos. Sempre achei que era uma missão difícil por isso fui adiando o trabalho A nossa relação é de velhos conhecidos. Tudo o que sei da sua vida é informação roubada nas alturas em que parava por Almeirim e o visitava para actualizar as novidades ou, simplesmente, para saber o preço de uma tela ou de um móvel antigo.A vida vai-nos afastando dos caminhos de sempre. Agora que vou menos ao seu reduto saber das novidades ou ouvir as histórias de vida, resolvi finalmente deitar mãos à obra. Esta não é uma entrevista com um homem de letras ou da política. Também não é verdadeiramente uma conversa com um homem de negócios como Francisco Leonor é verdadeiramente. O leitor julgará se valeu a pena tanto papel gasto. Por mim acho que sim. Não ficamos a saber o segredo da sua careca mas sempre ficam registadas outras curiosidades da vida de um homem de 84 anos que é, talvez, a enciclopédia viva mais antiga da cidade da sopa da pedra.Quem conhece a forma como Francisco Leonor negoceia uma obra de arte, ou uma propriedade, ou um móvel do século XVII, não imagina que a sua vida de trabalho começou aos 12 anos como tipógrafo numa oficina de Rio Maior. E que era tão frágil de saúde que o médico pediu à sua mãe que o tirasse de uma cave húmida onde trabalhava sem horário e com ordenado que incluía o direito à alimentação.Só aos 19 anos, depois de passar pelas minas de Linhite de Rio Maior, é que o seu padrinho, a pedido da sua mãe, o empregou num escritório em Almeirim onde trabalhou cerca de trinta anos no negócio dos vinhos. Até ao dia em que o seu padrinho morreu e iniciou uma vida comercial por conta própria que, mais tarde, o lançou no negócio dos móveis.“As pessoas hoje têm menos respeito pelo seu semelhante. Ainda há dias, ao atravessar numa passadeira, um ciclista gritava comigo: despacha-te ó velho, ou ainda te passo a ferro. Outro exemplo: Como sou eu que faço a limpeza da minha loja, um dia destes estava a limpar o pó do vidro de uma das janelas que dá para a rua e um jovem gritou-me do outro lado. Então, ó querida, hoje estás de serviço!Francisco Leonor nasceu em Almeirim em 1922 e teve cinco irmãos. O pai morreu quando tinha um mês, por isso, assim que terminou a escola teve que arranjar emprego para ajudar no sustento da casa.Como é que um escriturário durante 30 anos se torna um antiquário de prestígio e homem de negócios ? Francisco Leonor responde com um encolher de ombros. “Nem eu esperava isso da vida. Mas não escondo que o facto de em 1958 já ter amealhado 200 contos no banco tenha contribuído para o êxito que procurei nesta vida profissional.” Dos vários recuerdos que foi mostrando ao longo da entrevista vimos uma caderneta de depósitos à ordem do Banco Lisboa e Açores, com um saldo, até 1958, de mais de duzentos contos. “Eu sabia cuidar de mim”, diz, com aquele ar sereno e sério que sempre lhe conheci. Dos vários recuerdos que foi desencantar a várias gavetas, vimos que aos 17 anos já figurava na ficha técnica de um jornal, e que há bem pouco tempo publicou, no jornal da terra, um poema. “Uma das coisas que impressiona o meu afilhado Paulo é eu abrir uma gaveta e encontrar aquilo que procuro”. Quem quiser encontrar nesta confissão alguma ponta de vaidade em Francisco Leonor desengane-se. Falar de si e das suas qualidades não é para Francisco Leonor. Como tenho o privilégio de o conhecer há trinta anos reparei que fez o trabalho de casa para dar aos jornalistas matéria de interesse para esta entrevista. É que, apesar dos seus 84 anos, apesar de ser, talvez, a maior enciclopédia viva do concelho de Almeirim, Francisco Leonor nunca tinha dado uma entrevista na sua vida.Desengane-se quem pensa que esta conversa podia derivar para as grandes histórias de negócios, para as grandes aventuras que se escondem por detrás dos grandes negócios com uma peça de arte, um móvel do século XVII, um relógio de prata ou de ouro, um Cristo em marfim do século XVIII, os segredos na compra e na venda de uma propriedade. Francisco Leonor tem a postura dos grandes homens que regra geral levam para a campa os seus maiores segredos. Não foi por acaso que um vizinho aconselhou a sua mãe, quando ele tinha 17 anos, a fazê-lo padre. A ideia não foi em frente por causa das dificuldades económicas. Mas Francisco Leonor não hesita quando lhe perguntamos a meio da entrevista. Não foi para padre mas a sua vida é um pouco como a vida de um padre? “Pode ser. Não enjeito essa conclusão. A minha vida tem regras, posturas, muitas convicções e práticas que são normas na vida de um padre”. Sentado numa cadeira de pé alto, de costas para uma parede, com o movimento da rua e da porta do estabelecimento a ver-se por um espelho, esta conversa com Francisco Leonor durou duas horas mas percorreu um tempo que dura há quase um século.A gente passa ali na rua e mesmo que o senhor esteja numa ilha do fim do mundo, a sensação que temos é que está sempre aqui dentro, a pôr a conversa em dia ou a actualizar as notícias da caserna. Como um padre dentro de um igreja. Não acha que a sua vocação sempre foi realmente a de ser padre ? Talvez. Mas naquela altura, quando propuseram isso à minha mãe, era mais para que eu pudesse ter, no futuro, recursos para poder ajudar mais a família. No fundo queriam que eu fosse advogado e pudesse ter uma vida mais desafogada do que tínhamos naquela altura. A ida para o seminário era para fugir à pobreza.A vida obrigou-o a mudar muito. Sente que noutras épocas foi um homem completamente diferente do que é hoje ? Parece-me que não. Sempre me conheci assim. Tenho um presente muito coerente com o passado. Eu acho que isto nasce já com as pessoas. É genético.Porque razão nunca constituiu uma família tradicional?Isso foi mais por ter feito uma assistência muito grande à minha mãe. E como ela ficou cega piorou ainda mais as coisas. Ainda assim correspondi-me com meia dúzia de raparigas mas ninguém me quis. Elas lá sabem porquê. No fundo, elas também sabiam que se casassem comigo iam ter trabalho porque a sogra iria viver connosco e isso implicava trabalho dobrado.Quer dizer que o facto de nunca ter casado ou vivido com uma mulher não foi por falta de pretendentes nem por ter medo do sexo oposto? Foi mais pela minha dedicação à minha mãe que viveu até aos 93 anos. Reconheço também que não havia grande entusiasmo da minha parte. Tive sempre um certo receio que não conseguisse corresponder às expectativas que se geram num casamento. Não posso é dizer que não procurei. Não aconteceu e isso devia estar escrito na minha vida logo que eu nasci. Ao sentir-me responsável pela bem estar da minha mãe tomei uma opção de vida. É claro que todas as mulheres, ao saberem que eu tinha aquele encargo, devem ter pensado duas vezes antes de se interessarem por mim. No fundo elas sabiam que ao casarem comigo casavam também com a minha mãe.A sua escola é a da vida, todos sabemos isso, mas houve algum autor que o ajudou a orientar o seu espírito ao longo da sua vida ?Era um autor que escrevia sobre negócios que se chamava MARDEN – aprendi muito com os seus livros. Li quase tudo o que havia dele traduzido em portuguêsHá algum segredo para se chegar aos 84 anos com a vitalidade e o espírito que ainda tem hoje que parece ser sempre mais arguto e esclarecido? Em novo não tive uma vida muito regrada, porque sempre gostei de me deitar tarde (ainda hoje gosto) e a partir de certa altura comecei a levar uma vida muito mais agitada porque era chamado para muitas festas. Na altura fazia muito bem o papel de imitador de algumas figuras públicas como era o caso de Oliveira Salazar. Era o animador de serviço das festas cá da terra. Por isso, às vezes chegava muito tarde a casa. A partir dos 30 anos comecei a ter uma vida mais regrada. Ainda hoje não fumo, não perco noites exageradamente, e faço uma alimentação saudável. Evito carne de porco, por exemplo, e todo o tipo de comida que não é saudável.Uma das razoes para se viver muitos anos é levar uma vida regrada ?A outra razão é ter também uma vida espiritualmente serena, embora neste capítulo existam sempre contrariedades. Ninguém vive sem aborrecimentos. Mas temos que ter sempre presente que os outros sofrem sempre mais do que nós. Esta vida dos negócios de móveis antigos permite-lhe alguns relacionamentos privilegiados. Isso é tão compensador como o próprio negócio ou não é tanto assim ? Esta vida proporciona um relacionamento muito grande com pessoas com uma formação acima da média e com uma cultura que muitas vezes me surpreende. É no mínino reconfortante a pessoa sentir, em qualquer parte que se encontre com essas pessoas, uma certa atenção e amizade. Posso dizer que cada cliente que tive é um amigo. Não tenho inimigos entre as pessoas que me procuram ou procuraram para negociar.Mas os clientes vêm aqui para serem “enganados”. Isso é dos livros ?Aqui não. Dantes dizia sempre ao meu cliente, principalmente às senhoras, quando notava alguma hesitação na compra de uma peça: o cliente aqui nunca perde. Quando tiver aborrecido com a peça devolve que eu devolvo também o dinheiro que pagou. Agora é um pouco diferente. Isto está muito mau. Já não se vende quase nada.Essa história também é dos livros. Isto quando está mau para uns está bom para outros. Ou dito de outra maneira: para um comerciante o negócio nunca está bom. Ele quer sempre mais e mais. Já o meu patrão dizia isso. Isto está sempre mau. Penso que é uma característica dos portugueses andarem sempre a queixar-se, a fazerem ouvir as suas lamúrias. Mas temos que ser realistas: agora a crise é mais séria do que das outras vezes. De verdade eu não me posso queixar muito porque soube ser formiga nos melhores tempos. E aguento a crise com mais facilidade que muitos outros que têm a mesma actividade. Formiga é favor. As formigas amealham apenas para comer e o senhor fez fortuna. Hoje é um homem rico. Não sou um homem rico. Sou remediado.O trabalho para si continua a ser um vício. Como a religião na vida dos padres. Tem consciência que, por mais desgraças que lhe aconteçam na vida, o senhor jamais conseguirá gastar o dinheiro que ganhou até hoje? Mesmo que viva até aos 100 anos?Dentro deste ritmo não tenho medo. Mas é preciso saber que as operações nos hospitais hoje em dia são muito caras. Tenho um amigo que pagou recentemente dez mil euros por uma cirurgia à vista. Quando me dizem que tenho algum património, respondo que é verdade mas que não é para vender, é para deixar aos meus sobrinhos. São eles os meus filhos que nunca tive. Ser um homem rico e muito conhecido tem as suas desvantagens. Segundo sei muita gente procura-o para lhe pedir dinheiro emprestado. Como é que consegue fugir de tantas solicitações ? Eu não fujo. Procuro é ajudar. A minha casa, posso dizer, é um muro de lamentações. Vem aqui muita gente, quase todos os dias, e já tenho emprestado dinheiro. Algum até com grande risco como já aconteceu muitas vezes. Lembro apenas um caso que foi o da conhecida Tonicha quando ela abriu um restaurante em Almeirim. Mas é raro o dia que não vêm aqui pedir-me ajuda. E eu tento ajudar sempre que posso.Há muitos que ficam a dever para sempre ?Quando empresto pouco dinheiro, para não ter preocupações com o recebimento, mentalizo-me logo que não vou receber. Quando é muito, procuro ter alguns cuidados, tenho que arranjar uma habilidade para me poder defender desses casos mais complicados. Há muita gente que, não tendo como saldar uma divida em dinheiro, paga com o corpoComigo não. Nunca fui para a cama com uma mulher para cobrar uma dívida. Mas já emprestou dinheiro debaixo de uma certa confiança conquistada com a malícia a que o sexo, ou a vontade de ter sexo, se presta ?Também nunca aconteceu.É difícil enganá-lo ou fazê-lo cair no conto do vigário?Não é muito difícil porque estou quase sempre bem intencionado. Mas reconheço também que sou um homem que tem muitas precauções. Quando diz que a sua casa é um muro de lamentações quer dizer também que é um local de confissões? Sim, também. As pessoas não vêm só pedir dinheiro. Vêm também pedir conselhos e, ás vezes, orientações para os negócios e a vida familiar. Ainda hoje me telefonou um advogado a pedir conselhos por causa de um leilão que vai acontecer em breve.Acha que tem jeito e intuição suficiente para ser um bom conselheiro tanto de negócios como de assuntos familiares ? Penso que sim. Tenho alguma prática da vida que me dá essa segurança e esse saber. Noutros casos é pura intuição. Acho que isto já nasceu comigo.Quando imitava o Salazar nesses serões com amigos tinha consciência do que ele era como governante ? Não, não tinha essa consciência. E escrevi muitas vezes ao Salazar a pedir ajuda para os outros. E muitas das exposições que lhe fiz foram atendidas. Segundo sei continua a escrever às varias instituições, ou pessoas com poder de decisão, quando alguém lhe pede ajuda ou precisa de fazer ouvir a sua vozMantenho essa tradição de escrever. E contínuo a faze-lo à mão. Um dia destes escrevi ao presidente do Benfica a pedir-lhe para se recandidatar e não deixar cair as acusações sobre o processo do apito dourado. E já cá tenho a resposta ( mostrou uma carta assinado por Luís Filipe Vieira que lhe agradece a comunicação e a confiança demonstrada).Imagino que a instituição que mais cartas recebe é a câmara de Almeirim. Também porque os seus interesses estão quase todos neste concelho.Pode ser. Mas nunca tive benefícios da Câmara de Almeirim. Aliás, tudo o que pedi à Câmara para mim teve quase sempre resposta negativa. No entanto defendo e sou adepto do presidente Sousa Gomes porque reconheço que ele desenvolveu muito a cidade. Está a exagerar?Não estou não. Não me lembro de nenhum assunto que tenha ido tratar com o presidente que tenha sido bem sucedido. O que significa que não é por ter boas relações com a Câmara que vejo os meus projectos facilitados.O senhor é a pessoa mais bem informada sobre o que passa no concelho. As novidades caiem todas aqui antes de chegarem aos jornais ou à boca do povo ?Não digo que seja a pessoa mais bem informada de Almeirim mas muito informado isso sou. Pode dizer-se que aos 84 anos ainda tem uma saúde de ferro ?Não é verdade. Há muitos anos que tenho um pulmão “avariado” . É um daqueles problemas que me impede de viajar, por exemplo, para ir ver uma corrida de toiros a Espanha que eu gostava muito. O problema do pulmão foi uma constipação mal curada e também porque antigamente passávamos fome. Éramos mal alimentados pois as dificuldades eram muitas. Não conheço muito da sua actividade em prol da cidade e das colectividades ?Fui director da Banda Marcial de Almeirim durante seis anos. Foi uma experiência que marcou a minha vida. Todas as pessoas deveriam passar, pelo menos uma vez, por colectividades porque ali aprende-se um bocadinho a governar e a conhecer as dificuldades que existem. Sempre o imaginei um homem que é capaz de guardar o papel mais insignificante… Quando era novo tinha a mania de coleccionar recortes com notícias e acontecimentos. Sou fiel ao provérbio “guarda o que não presta que um dia hás-de precisar”. Tenho um armário cheio de lembranças e papéis que fui guardando ao longo dos anos. Uma vez disse-me que não tinha inimigos. Como é que um homem que vive tanto tempo e faz tantos amigos não se engana de vez em quando? Talvez tenha um ou dois inimigos por causa de ignorância e de serem pessoas mal formadas. Nunca senti que tenha feito mal a alguém. Sinto-me bem com a minha consciência. Sou daquelas pessoas que acorda sempre tranquilo. Procuro esquecer os meus inimigos. Por vezes o problema é eles não me darem tréguas. Os inimigos que tenho foi por querer fazer bem. O problema é que fui mal compreendido. Num caso tive mesmo que recorrer ao tribunal e ganhei como ganho todos os casos onde me meto. Posso dizer que nunca perdi uma questão em tribunal.Fale-nos muito da sua terra em poucas palavras.Almeirim está a transformar-se para pior. O dinheiro é um dos grandes factores para haver tanta intriga e inveja. Nalguns aspectos a liberdade que o 25 de Abril permitiu foi mal aproveitada. Essa história de imitar o Salazar nunca lhe trouxe problemas?E podiam ter sido bem graves. Com a ajuda de um retransmissor imitei o Salazar a falar ao país. E a partida foi de tal modo bem organizada que isso ouviu-se no rádio do Clube Agrícola de Almeirim. Pediram-me para o imitar a dizer que ia haver outra guerra mundial. Deu um burburinho enorme e algumas pessoas foram logo para casa. No outro dia o assunto foi muito falado e chegou ao conhecimento dum deputado da região. Como não gostaram da brincadeira e, além disso, soube-se que tinha sido eu o imitador, quiseram chamar-me à responsabilidade. Entretanto, alguns amigos intercederam por mim junto do deputado, dizendo que era coisa de rapaziada nova, e safei-me da história.Há pelo menos um episódio na sua vida que o marcou para sempre, antes do 25 de Abril, relacionado com o tempo da ditadura em que o país viveuFiz parte da comissão concelhia de apoio à candidatura do General Humberto Delgado e sofri as consequências disso. Fui interrogado pela PIDE. Só não me chegaram a prender porque tive quem me defendesse muito bem. Cheguei a estar deitado, de noite, e sentir carros a pararem à porta da minha casa. E pensava muitas vezes: desta é que é para me levarem. Mas acho que nunca fui preso porque eu tinha um grande amigo que por sua vez era grande amigo de Henrique Seixas, guarda-costas do Américo Tomás.
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