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A menina que sonhava trabalhar na prisão

Edição de 10.01.2007 | Entrevista
Alguma vez pensou trabalhar numa prisão?Sim, fazia muitas vezes o percurso Bombarral-Lisboa. Lembro-me de passar aqui e pensar: ‘Hei-de trabalhar aqui’. Tinha muita curiosidade.Viveu sempre no Bombarral…Nasci em Lisboa, mas cresci no Bombarral. Estudei lá até ao 9º ano e fui um ano para as Caldas da Rainha. A minha mãe, que era professora do segundo ciclo de biologia, foi dar aulas para Torres Vedras e lá fiz o 11º e 12º. Depois parti para Lisboa e licenciei-me em política social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Ao fim de dois anos de iniciar o curso estava muito ansiosa para me casar. Tinha tido um namoro de alguns anos, tínhamos crescido juntos… Acabei o curso já com a minha filha Francisca. Como conseguiu?Com determinação e força de vontade. Costumo dizer que o que distingue o possível do impossível é a vontade humana. Nessa base há muita coisa que julgamos impossível e que acabamos por fazer.Os seus pais reagiram bem à profissão que escolheu?O pai é o mais preocupado. Volta e meia conto-lhe qualquer coisa e ele diz: ‘coitada’. Ficam um pouco apreensivos porque sabem que vivo tudo intensamente. E o marido não receia?Dá-me um apoio muito forte. Nas situações complicadas ficamos mais frágeis. Não somos super homens ou mulheres. Neste momento é importante ter alguém que diga ‘faz o melhor que puderes’. A família não se importa de ter a mãe presa no trabalho?Eles estão habituados a isso. Comecei a trabalhar nos serviços prisionais em 1996. Cresceram neste ambiente. Às vezes pedem que a mãe se afaste e deixe o serviço à porta de casa. Mas também percebem que precisam de dar apoio. Passei das Caldas, onde tinha 180 reclusos, para Alcoentre, com 600. A alteração foi grande e a minha filha do meio dizia: ‘A minha mãe precisa de muito miminhos’. É duro. São preocupações diárias e às vezes não conseguimos dizer vem aí o fim-de-semana e não há mais nada… Leva os problemas para casa?Abstrair-me é difícil, mas tenho a sorte de ter uma família que me dá um suporte muito bom. O marido e três filhos. Uma de 22 anos que está a acabar o curso de engenharia biomédica, uma de 18 no curso de arquitectura de design de moda e um rapaz de 17 anos no 11º. É uma vida muito preenchida.Vem muito cá ao fim de semana?No período de adaptação era mais complicado. Agora já estamos cá há dois anos e as pessoas já perceberam quais são os objectivos e os princípios da direcção. Mas ouvir o toque do telemóvel é dramático… A prisão não fecha…São 24 horas. E ao fim de semana também.Já lhe aconteceu ter que vir à prisão à noite?Sim, às três da manhã. Em situação de evasão.Mas a sua presença adianta?Sim, os serviços estão a trabalhar e precisam de algum incentivo. Podia chegar só às sete ou oito da manhã ou mais tarde para tratar do expediente, mas a obrigação do director é estar nos momentos em que as pessoas precisam mais.Nunca lhe passa pela cabeça que os reclusos possam procurar a sua casa?Não! Isso nunca me passa pela cabeça. E no dia a dia?Não tenho medo. Quem está fora do sistema é que imagina uma cadeia com outras características. Trabalho no sistema há muitos anos e não tenho esses receios. Se calhar pelo relacionamento com os reclusos não me parece que haja motivos para represálias.

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