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Rui Serrano é um arquitecto sem jeito para o desenho

“A arquitectura não está na mão, está na cabeça”, diz o profissional de Tomar

O homem que confessa não ter grande jeito para o desenho tem hoje uma profissão que o obriga a “rabiscar” no papel. E, por muito paradoxal que pareça, Rui Serrano decidiu seguir arquitectura por se ter sentido motivado por um professor de educação visual, quando frequentou o ciclo preparatório.

Edição de 10.01.2007 | Identidade Profissional
“A arquitectura não está na mão, está na cabeça”, diz Rui Serrano, arquitecto de 33 anos, justificando o facto de ter seguido aquela área apesar da confessa falta de jeito para o desenho. Para o arquitecto de Tomar o mais importante é desenhar mentalmente e conseguir pôr essas ideias no papel, mesmo que para o cliente signifiquem apenas uns rabiscos. Que ganham vida quando são passados para o computador e transformados num desenho a três dimensões.Aliás, diz Rui Serrano, ser arquitecto é muito mais que fazer um desenho, é ter capacidade para dialogar com o cliente, primeiro e, depois, servir de fio condutor durante todo o processo. “Sou arquitecto mas acima de tudo tenho de perceber como trabalha o desenhador, saber explicar o que pretendo ao construtor, expor claramente o conceito ao cliente”, diz, adiantando que, em certos aspectos, o arquitecto continua hoje a ser um pedagogo.“Apesar de cada vez mais as pessoas procurarem ajuda especializada quando pretendem construir uma casa, ainda hoje há muitos que recorrem a desenhadores ao invés de arquitectos”, refere Rui Serrano. Por considerarem que os arquitectos “levam couro e cabelo” pela concepção e execução de um projecto. Uma ideia errada, em sua opinião. “Na arquitectura, como em qualquer outra profissão, há quem se pague muito bem e quem se pague até mal”. Segundo Rui Serrano “há quase uma hierarquia de valores”, comandada pelos nomes mais conceituados da praça. “É óbvio que um Siza Vieira ou um Souto Moura, só para citar os mais mediáticos, podem dar-se ao luxo de se pagar melhor”, diz, adiantando no entanto que boa parte dos arquitectos que conhece tem de ter uma segunda actividade remunerada para poder sobreviver condignamente.“A maioria das pessoas continua sem perceber que quando pensa fazer uma casa está a pensar num investimento para toda a vida. E que deve sentir-se bem dentro dela, depois de feita”, afirma o arquitecto, que diz que alguns “preferem pagar mais pelo acessório que pelo essencial”. E exemplifica – “conheço pessoas que deram por uma banheira de hidromassagem quase o mesmo montante que pagariam pelo projecto num arquitecto, mas mandaram fazer o tal projecto num desenhador porque saía mais barato”.“Temos de nos abrir a um mundo em constante mutação”Para Rui Serrano, fazer um projecto – seja de uma residência particular, seja de um equipamento público – o desafio está em conseguir passar a sua ideia para o cliente. “Há quem faça três ou quatro esboços diferenciados para mostrar ao cliente. Eu tenho por hábito só fazer um, apostar tudo num”. Com o projecto à frente, Rui Serrano tem então uma incumbência – fazer ver ao cliente as mais-valias do projecto, mostrar situações concretas, explicar porque recorreu a materiais menos vulgares.O que o arquitecto mais gosta é do cliente que sabe o que quer em termos gerais mas “não leva um desenho no papel, muitas vezes até já feito em esquadria, com as divisões ao milímetros”. A esses, diz, costuma dizer que deviam mandar fazer a casa ao desenhador que os ajudou. Porque à partida são pessoas com ideias pré-concebidas, que querem uma casa à antiga portuguesa, conceito que Rui Serrano diz não existir. “Há casas com pormenores arquitectónicos de traça antiga, mas não uma casa à antiga portuguesa”.Ser arquitecto é sinónimo de inovação e criatividade. É por isso que as ideias que fervilham na cabeça de Rui Serrano são sempre complementadas por imensos livros e revistas da especialidade. “Temos de nos abrir a um mundo em constante mutação”. Não admira que no seu escritório haja pilhas de livros e revistas e fotos, muitas fotos. Quando se lhe pergunta qual foi o projecto que mais gozo lhe deu fazer, Rui Serrano demora a responder. “Obviamente gosto de todos. Ainda hoje, por acaso, passei pelo primeiro que fiz, uma casa particular na freguesia da Serra de Tomar”. A insistência na pergunta leva-o por fim a escolher o “seu” projecto – “talvez o quartel dos bombeiros de Cardigos (Mação), por não se parecer nada com um quartel”.

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