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“O Joaquim Agostinho começou comigo e morreu comigo”

“O Joaquim Agostinho começou comigo e morreu comigo”

Francisco Araújo foi o melhor mecânico do mundo

Francisco Araújo, 72 anos, viveu a glória e a tragédia ao lado de Joaquim Agostinho. O melhor mecânico do mundo esteve com o ciclista na Vuelta, no Tour e na Volta a Portugal em Bicicleta e ajudou-o a subir para a bicicleta após a queda fatal em 30 de Abril de 1984 em Quarteira. Dez dias depois, estava na Volta à Colômbia, quando recebeu a notícia da morte do seu menino de ouro. “Era um rapaz extraordinário que foi mais reconhecido no estrangeiro que em Portugal”, revela numa partilha de emoções com os leitores de O MIRANTE.

Edição de 07.02.2007 | Entrevista
Francisco Araújo estava com Joaquim Agostinho na fatídica corrida que o matou na Volta ao Algarve. Recorde-nos esse momento de perda.O Joaquim Agostinho não queria ir à Volta ao Algarve porque tinha muitos problemas para resolver para a equipa, mas foi pressionado e acabou por vestir a camisola. O acidente aconteceu no dia 30 de Abril de 1984 com a meta à vista e devido a dois cães que atravessaram o pelotão. Ele caiu com outro ciclista, mas o outro levantou-se e foi para a meta e ganhou a etapa na Quarteira.O senhor ia atrás e ainda ajudou Agostinho a montar a bicicleta?O Agostinho deu muitas quedas e nunca me pediu para o levantar. Levantava-se sozinho e subia para a bicicleta. Ele era um valentão. Naquele dia disse-me com uma voz rouca: “Araújo mete-me em cima da bicicleta”. O José Amaro e o Benjamim Carvalho (ciclistas do Sporting) ajudaram-no a chegar à meta. Tinha a camisola amarela vestida.Apercebeu-se da gravidade das lesões?Quando cheguei à meta disse ao Manuel Graça (treinador) que o Agostinho não estava bem. Tinha a voz rouca e a cabeça caía-lhe para a frente. Fomos para a pensão e parecia que estava a melhorar. Ao fim de uma hora sentiu-se mal e foi para o Hospital de Loulé, depois foi para Faro e, como não havia especialista em Neurocirurgia, veio de ambulância para Lisboa para o Hospital da CUF. Esteve 10 dias em coma e faleceu a 10 de Maio.Foi uma grande perda para si?Sabe, o Agostinho começou comigo e morreu comigo. Eu soube da notícia na Colômbia onde estava a acompanhar a equipa. Foi muito duro, foi um grande desgosto. Eu não queria ir para acompanhar o Agostinho, mas o director disse-me que tínhamos um contrato assinado e não podíamos faltar. Como é que descreve a personalidade do Agostinho?Era uma pessoa bondosa, capaz de se prejudicar para ajudar os outros mesmo na competição. Várias vezes deixou de ganhar corridas para ajudar outros corredores. Recordo-me de uma vez que não ganhou porque recusou ultrapassar o Raimond Poulidor e no fim disse-me que teve pena do colega. Qual era o seu maior defeito?Era um homem muito teimoso. Foi talvez por isso que acabou por morrer. Recusou até à última ir para o hospital. Era difícil salvar-se, mas se fosse mais cedo, não sei…O Agostinho foi mais reconhecido no estrangeiro que em Portugal?Ele onde passava era um herói. As pessoas gostavam muito dele. Foi um fenómeno, um dos melhores desportistas de sempre. Mas podia ter ido mais longe?Ele não era egoísta. Podia ter ganho, pelo menos, duas voltas a França e não ganhou porque não arriscou. Era capaz de estar a disputar uma corrida e ir buscar água para os adversários. Lembro-me que um dia o Eddy Merckx estava aflito e pediu-lhe ajuda. Quando chegou à meta, o Agostinho disse-me que tinha ganho 20 contos e eu não acreditei porque ele não tinha ganho nenhum prémio. Tinha sido o Merckx que lhe tinha dado como compensação.
“O Joaquim Agostinho começou comigo e morreu comigo”

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