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Trocou a barbearia pela casa das bicicletas

Edição de 07.02.2007 | Entrevista
Como é que nasceu o bichinho do ciclismo?O meu pai tinha quatro barbearias, quatro tabernas e uma casa de bicicletas que estava arrendada a um senhor, mesmo ao lado de uma das barbearias. O meu pai queria que aprendesse o ofício de barbeiro, mas eu em vez de entrar na barbearia entrava na casa de bicicletas. Tinha quatro anos e vivia num pátio perto dos Bombeiros de Sacavém.Lá se foi o barbeiro?Pois, foi com pena do meu pai. Ele viu que eu tinha gosto pelas bicicletas e deixou-me ir para lá. O nosso inquilino deixava-me brincar com as bicicletas e com as peças. Fui crescendo e aprendendo com ele a arte. Depois fui para a escola, mas às vezes faltava e escondia a mala, para ele me deixar lá estar.Começou a trabalhar com que idade?Deixei a escola com 10 anos sem ter concluído a quarta classe, derivado à influência das bicicletas. Só fiz a quarta classe depois. Quando comecei a trabalhar o patrão dava-me 10 tostões (meio cêntimo) por dia.Queria era aprender?É verdade, mas um dia cansei-me de mexer só em bicicletas pasteleiras e fui a Moscavide a casa do Júlio Mourão (ciclista conceituado) e pedi-lhe para trabalhar na oficina dele. Era uma casa frequentada por muitos corredores independentes e bons e eu entusiasmei-me e comprei uma bicicleta a prestações.Quanto é que custou essa bicicleta?Não me lembro bem… Foi em 1950 e, salvo erro, custou-me 500 mil reis (2,5 euros), que era muito. Andei uma temporada a pagá-la. Começou a praticar ciclismo nessa altura?Fui corredor amador na equipa do Rio de Janeiro em Lisboa. Foi o meu patrão, o ciclista Júlio Mourão, que me levou para lá. Pratiquei também boxe, mas gostei mais das bicicletas.Optou por ser mecânico porquê?O que eu gostava era de mexer nas bicicletas. Um dia, o corredor João Marcelino, do Benfica, perguntou-me se queria ser o mecânico da equipa na Volta a Portugal. Disse-lhe logo que sim e, sem o meu patrão saber, fomos falar com o director do Benfica à sede do clube. O senhor Idalino Freitas disse-me que já tinha mecânico. Fiquei esmorecido e vim para casa. No dia seguinte o meu patrão soube do sucedido e com o Pedro Plainas levaram-me para o Sporting em 1957. Estive lá até à reforma em 1998.Já era sportinguista?Era do Sporting desde os Cinco Violinos. Adorava ouvir os relatos da bola na rádio. Fez 42 voltas a Portugal em bicicleta. Lembra-se da primeira?Foi em 1957 e fui ganhar quarenta escudos. Foi uma volta com 24 dias de corrida. Foi bom o salário porque nas provas individuais ganhava 2,5 escudos e gastava dois escudos no transporte. Andava com a mala da ferramenta às costas. Era duro, mas eu gostava e queria ser mecânico profissional.Com a chegada do Joaquim Agostinho ao Sporting, em 1968, a sua vida mudou?Foi com ele que passei a estar a tempo inteiro no Sporting. Já tinha feito uma Volta à Espanha em 1963 e foi aí que comecei a andar na alta roda do ciclismo mundial. Depois fiz a Volta à França em 1964 e por aí fora. Ele era um corredor exigente e dava muito trabalho porque arriscava tudo e tinha muitas quedas?O Agostinho caia muito porque começou já tarde e os reflexos não eram como os dos mais jovens. Além disso, o material não estava bem afinado e facilitava as quedas.O Agostinho foi para França e pediu ao patrão, Jean de Gribaldy, que contratasse o seu mecânico. E o Araújo partiu…Foi. O Agostinho aconselhou-se e fui a França falar com o senhor Gribaldy que já me conhecia da Volta a São Paulo de 1968, e acabei por ficar lá. Tomei conta da equipa toda, fui o mecânico principal e comecei a participar nos ensaios das fábricas Mavic e Vitos.Como é que participava no fabrico das bicicletas?Eu conversava com os engenheiros e dava ideias. Todas as peças eram testadas por mim antes de saírem das fábricas para ver se os materiais estavam em condições de serem vendidos. O Joaquim Agostinho tinha um enorme orgulho em mim, dizia a toda a gente que eu era o melhor mecânico do mundo. Ficou célebre a frase do Agostinho: “o Chico Araújo é meio caminho andado”…Ainda tenho aí vários recortes de jornais com essas entrevistas em que ele e outros corredores me elogiaram. Em 1982 e 1983, o jornal L’equipe e a TV France disseram que eu era o melhor mecânico do mundo derivado ao meu palmarés.Ganhou bom dinheiro com o Agostinho?No Sporting ganhava 14 contos e quinhentos (72,5 euros) e fui ganhar 130 contos (650 euros) casa e comer, tudo pago. Ainda me davam 10 por cento dos prémios dos corredores que dava para a minha mulher viver todo o ano lá sem tocar no meu dinheiro. Devo tudo isto ao meu grande amigo Joaquim Agostinho. Como é que investiu esse dinheiro?Olhe comprei um terreno aqui em Arcena (Alverca) e construí esta moradia. Se não fosse o ciclismo em França não tinha uma casa assim. Se tivesse ficado no Sporting não teria conseguido realizar este sonho e ter uma reforma mais calma.Acabou por regressar ao Sporting em 1984 com o Joaquim Agostinho?Ele quis vir embora e eu não podia abandonar a pessoa que me tinha ajudado e que era um grande amigo. Se ficasse lá teria ganho muito mais dinheiro, mas não podia ficar. Vim para o Sporting ganhar 70 contos, menos de metade do que ganhava em França e, mesmo assim, era um grande ordenado.

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