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Figuras (fracas) públicas

Edição de 04.04.2007 | Opinião
Na passada semana fui almoçar com uma figura pública a um restaurante onde já almocei outras vezes com outras figuras públicas. O restaurante é grande e está quase sempre bem composto de clientes. Gente da classe média (na nossa região não há classe alta) profissionais liberais, alguns empresários e pessoas que normalmente têm dinheiro para um almoço a rondar os 15 euros.Se eu entrar num restaurante de Santarém, Vila Franca ou Tomar, ninguém me conhece. Passo despercebido que é uma beleza. E não fico admirado. Eu sou uma fraca figura e um simples operário da escrita. Dirijo uma empresa de comunicação social, é verdade, mas não publico escândalos nem vou atrás dos problemas pessoais dos protagonistas das nossas notícias. Logo, estou no lugar certo e tenho, exactamente, a visibilidade que quero para mim e para quem trabalha comigo.O que me espantou no meu companheiro de almoço, e que me fez pegar na caneta ainda na tarde desse dia, foi a postura e o respeito da relação comigo. Para lá e para cá, à entrada e à saída do restaurante, não faltaram salamaleques e pescoços curvados, uma ou outra saudação em voz alta, um levantar de braços e sorrisos de orelha a orelha, tudo na tentativa de agarrar o homem pelo caminho e, com mais ou menos cuspo, lamberem-lhe ali as mãos. Imperturbável, com o passo acertado, sem deixar de ser simpático, o meu companheiro de almoço conseguiu cumprimentar toda a gente (até parece que os abraçou a todos) mas nunca desacertou o seu passo do meu e, assim como entramos, saímos do restaurante a conversar normalmente.Escrever uma crónica sobre a atitude de alguém que é figura pública, que nos convida para almoçar num restaurante no meio de uma cidade, e que depois não nos deixa pendurado, demorando tanto tempo a cumprimentar as pessoas e a limpar a baba dos outros como demorou o tempo do almoço, parece coisa de cronista sem assunto. Mas não é. Conheço muito boa gente, de comendadores a doutores da mula ruça, que já me fizeram isso muitas vezes. E eu, que às vezes até não sou deste mundo, nem quero ser, fico de boca aberta com a falta de educação de certa gente que chega a figura pública mas nunca passará de um esqueleto com uma cabeça cheia de caca mole.JAE

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