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“Sou um profundo admirador de Salazar, foi um político honesto”

Edição de 27.06.2007 | Entrevista
O senhor é muito rigoroso na forma de vestir. Continua a usar a calça justa e alta, a camisa apertada até acima, o botim e o chapéu…Começou por ser uma necessidade quando fui trabalhar com o meu pai e montava muito a cavalo. O meu pai não consentia que andasse sem cobertura na cabeça e sem a camisa apertada até ao último botão. Lembro-me de um dia, com um calor imenso, entrar no escritório e o meu pai me ter pedido desculpa por ter a gravata desapertada e o botão de cima aberto.Foi o seu pai que lhe legou os valores de respeito pelo próximo que preserva?O meu pai foi um grande mestre sempre me disse que todas as pessoas eram merecedoras do nosso respeito. Tinha uma enorme consideração por todos, ricos e pobres. Eu tento transmitir isso aos meus filhos e netos porque o respeito pelo próximo é muito importante. E o próximo pequeno merece mais respeito que o próximo grande porque o grande ricaço raramente respeita o próximo.O dinheiro não dá tudo?Repare que não há famílias ricas felizes. O senhor não vê a Rainha de Inglaterra, o Champalimaud, os Espírito Santo, …não são felizes.A felicidade não se compra?Não. O dinheiro é um extraordinário companheiro mas é um péssimo conselheiro. Um tipo muito rico torna-se egoísta e só olha para a barriga dele. Tem uma auto-defesa permanente com medo de perder alguma coisa. Não conheço nenhum rico que seja feliz.Ninguém é feliz sem olhar para o próximo?Nós temos que pensar nos outros. Temos de olhar pelos velhos, pelas crianças, pelos doentes. As pessoas esquecem muito o semelhante.Aos 75 anos, o senhor considera-se um homem feliz?Tive a felicidade de ter uma família extraordinária com uma mulher com quem casei há 51 anos e que agradeço imenso a Deus ter encontrado na vida. Tenho sete filhos e netos de quem gosto muito e Deus deu-me a possibilidade de ajudar os outros ao longo de toda a vida.Sente-se um homem actual?Assisto com tristeza ao desaparecimento da minha época. Não sou do Século XX, sou do Século XIX e tive uma educação religiosa, moral e política que não tem nada a ver com os dias de hoje. Choca-me abrir um jornal e ver a forma como se colocam as pessoas no ridículo. Hoje não há liberdade, há libertinagem. Insultam-se as pessoas de qualquer maneira. Destrói-se o ego de cada um duma forma acintosa, miserável e vergonhosa.Tem no seu escritório um retrato de Salazar…Pode escrever que sou um Salazarista convicto. O Presidente Salazar visitou o meu pai nesta casa e falámos várias vezes. Sou um grande admirador porque ele foi o político mais honesto que conheci. Preocupava-se com os mais desfavorecidos. Morreu pobre. Na única conta que geria não havia dinheiro para pagar a conta do hospital. Os políticos de hoje ficam ricos rapidamente e muitos não são sérios e honestos. Sofre com o estado do mundo?Choca-me a falta de humanidade para perceber a dor do próximo. Há uma frase que me impressiona: “O problema é dele.”. Já me têm dito porque é que me estou a importar com este ou aquele problema de outra pessoa. Está ligado a Misericórdia de Vila Franca há muitos anos…Estou lá há 44 anos e todos os dias sinto a dificuldade de encontrar quem queira servir o próximo de uma forma desinteressada. Cada vez há mais pessoas a precisarem da ajuda da Misericórdia e nós temos muita dificuldade.Porque é que não é o Provedor da Misericórdia, sendo um dos irmãos mais dedicado e com maior notabilidade?Se calhar…porque não tenho tempo e aquela casa necessita de um Provedor com uma liberdade total. Estive 55 anos à frente da Quinta da Foz e não conseguia chegar a todo o lado. Todos os dias trabalho para a Misericórdia, ainda hoje estive numa reunião importante por causa de uma propriedade que uma irmã nos ofereceu. Em Vila Franca diz-se que o senhor é que manda na Misericórdia…Isso faz-me rir…Costuma-se dizer que o bom julgador a si se julga. Deus deu-me características que me permitem pensar que várias cabeças pensam melhor que só uma e na Misericórdia somos várias cabeças a pensar e a decidir.A Misericórdia de Vila Franca é rica?Há misericórdias riquíssimas, a de Vila Franca não é. Tem algumas propriedades. Herdou agora uma doada pela senhora Maria da Conceição Ramalho de Salvaterra de Magos. É dona de dois terrenos e do imóvel onde está e da Praça de Toiros. Mas não é uma instituição rica. Manter aquela casa custa muito dinheiro. Cada idoso custa quase mil euros por mês e sem luxo. Não é com luxo, mas também não é com lixo. Comem quatro vezes ao dia e têm o conforto que merecem.Os fornecimentos de alimentos rodam por vários comerciantes de Vila Franca. É também uma forma de ajudar o comércio local?Completamente. Não se fazia isso. Havia um fornecedor único para a carne e para o peixe e começaram a surgir queixas da maioral real da cozinha. A distribuição dos fornecedores foi uma ideia do nosso tesoureiro Roque Silva.Câmara pode gerira praça de toirosComo aficionado não sente tristeza da Praça de Toiros Palha Blanco não ter a força que já teve?A maior parte dos que dizem mal da festa em Vila Franca e da praça não vão lá e depois vão a outras corridas. A câmara oferece bilhetes e as pessoas não vão. O empresário tem feito boas corridas, com muitíssimos bons cartéis, mas não está a conseguir. O problema é geral. Há uma grande oferta de toiros na televisão e os aficionados não vão à praça. A Câmara manifestou interesse em ficar com a praça, mas diz que a Misericórdia não abre mão?A Misericórdia entrega a exploração da praça em hasta pública. Se a câmara quiser pode concorrer e, se der tanto como o empresário, pode ficar com a gestão da praça. Não nos obriguem a nós a gerir a praça. Temos muitos velhinhos e muitas pessoas para ajudar e não temo tempo para gerir a praça. Concorda com a cobertura e transformação num espaço multi-usos?Não gosto de ver corridas de toiros em praças cobertas. O ambiente é sombrio, triste e não resulta. A praça de Vila Franca é muito incómoda e para ficar com cadeiras fica com dois mil lugares. Como é que se rentabiliza uma praça com dois mil lugares. E depois uma praça de toiros para ter circo, teatro ou música. Não aceito. Nunca questionaram a forma como se veste?Ainda recentemente um médico me disse que tinha uma forma muito tradicionalista de vestir. Já não vou mudar porque sinto-me mal de outra maneira.Quem é que lhe faz as vestes? O meu alfaiate morreu. Era o Horta. Depois foram as discípulas. Mais tarde foi uma senhora extraordinária de Benavente que também morreu e agora é uma senhora de Alenquer que me faz esse favor. Ainda monta a cavalo?Já não monto porque não me sinto bem, mas ainda guardo as esporas…

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