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O gaibeú que veio trabalhar para a monda de arroz nos campos de Azambuja

O gaibeú que veio trabalhar para a monda de arroz nos campos de Azambuja

Manuel de Almeida começou a trabalhar aos 16 anos e construiu um pequeno império

Aos 16 anos veio das beiras trabalhar na monda de arroz para os campos de Azambuja. Foi um gaibéu – a comunidade que Alves Redol imortalizou na literatura. Enfrentou o trabalho no campo e a prisão da PIDE em Angola por um crime que não cometeu. Manuel de Almeida tem 66 anos e um pequeno império construído a pulso.

Edição de 21.02.2008 | Entrevista
Deixou muito cedo Sátão, distrito de Viseu, para vir trabalhar para o Ribatejo.Aos 11 anos fui trabalhar para o Alentejo. Fazíamos contratos de dez meses. Por volta dos 14 anos, quando me preparava para fazer o terceiro, apareceu uma pessoa a arranjar trabalho para a Duarte Ferreira e Filhos, no Tramagal, na agricultura. Aos 16 anos percebemos que podíamos ganhar mais dinheiro e viemos para Azambuja trabalhar no arroz. Semear arroz, mondar, ceifar…Vinham em grupos?Éramos grupos de homens de 40 e 30 anos e miúdos de 13 e 14. Nós, os miúdos, levávamos a comida. Levantávamo-nos às três da manhã e andávamos ali dez quilómetros a pé se fosse preciso. Um levava o pão, outro o grão, outro o azeite. A refeição era feita num tacho muito grande – eram cerca de 80 pessoas a comer do mesmo. Cada um tinha a sua colher, metia ao tacho e recuava uns passos para comer. Mas os mais novos vinham também para trabalhar…Vinham para trabalhar, mas a nós incumbia-nos levar os alimentos para esse grupo de 80 a 100 pessoas. O encarregado tinha medo de adormecer. Se acordasse às duas da manhã era às duas da manhã que nos chamava. Nós lá íamos pelo meio daqueles sobreiros. Acendíamos uma fogueira e ficávamos à espera que o outro pessoal chegasse. Ao nascer do sol. Que tipo de refeição preparavam?Grão misturado com couve e um bocado de massa. À noite comiam-se migas. Pão fervido com azeite em ponto. O pão de milho fatiado muito miudinho e um pouco de alho. Fazia-se uma roda e o sistema de comer era o mesmo. A herdade alentejana recebia entre duas a três mil pessoas no Verão. Vínhamos de Viseu, Vendas Novas e Pombal até ao Algarve. Também havia ranchos de raparigas, mas normalmente eram separados. No Alentejo éramos ratinhos, galegos, caramelos. Só na lezíria éramos gaibéus. Nunca considerou depreciativa essa designação?Nós sentíamos que ficávamos mais caros ao patrão do que o pessoal da terra. Tinha que nos arranjar local onde ficar, lenha e água. Enquanto que os daqui [Azambuja] iam trabalhar e regressavam a casa. Os de cá, para fazerem um pouco de chantagem com os patrões, na maior força do trabalho, quando era necessário plantar o arroz, recusavam-se a trabalhar aos domingos. A ideia é que o trabalho estivesse atrasado e que o preço da jorna estivesse mais alto. Nós queríamos era ganhar dinheiro e trabalhar horas infinitas. Os locais – “vai lá gaibéu” – tinham-nos raiva porque lhes estávamos a estragar os planos… Se o patrão tivesse o trabalho feito antes, depois já não pagava tanto. Também fazia isto, pelo menos eu, com determinado sentimento. Às vezes dizia-se que os patrões eram ricos. Eu tinha a certeza que não. Os grandes senhores das quintas?Sim. O meu patrão, da família Vidal, foi um homem que alugou as terras para fazer o arroz. No primeiro ano ganharam 500 contos. Mas no segundo e terceiro ano perderam logo dinheiro. Tudo dependia se chovia na ceifa. Tinham que transportar o arroz de um lado para o outro em camiões e o ganho ficava pelo caminho. Já naquela altura eu tinha consciência de que se eles tivessem prejuízo para nós era muito pior. Muitos não compreendiam isso, queriam era ganhar mais. Já tinha essa noção…Sim. O patrão tinha até uma filha que me chamava o ‘Manuel do pai’. Gostavam muito de mim. Um dia o campo encheu aqui em Azambuja e precisaram de gente para cavar vinha em Arruda dos Vinhos. O meu espanto – tinha 16 anos e havia pessoas com 40 – chamou-me lá a casa para ir almoçar. E apresentou-me ao engenheiro como o encarregado. O pessoal foi de comboio até Vila Franca e a mim levaram-me de carro.E como correu?Os colegas de trabalho da minha terra, que eram oito ou dez, quando os preços começaram a subir, ali em Vila Nova da Rainha, na quinta que depois acabei por comprar, quiseram ir para lá receber mais dez escudos por dia. Expliquei-lhes que era injusto porque o patrão dava trabalho de Inverno e Verão. Acabaram por ir embora e o patrão pôs-me a ganhar mais vinte escudos. Porque era pequeno, mas grande no pensar, dizia ele. E ficou lá a trabalhar?Tive que ir para Angola e não me puderam livrar à tropa. Lá me estabeleci até regressar novamente. Quando vim mostrar aos meus filhos onde tinha trabalhado vi este terreno e pensei montar aqui as bombas e o hotel. Trabalhava aqui perto?Ainda estão aqui atrás os armazéns onde dormíamos. Primeiro começámos a trabalhar mesmo junto ao Tejo. Nós é que tínhamos que cozinhar e lavar a roupa. No Tramagal não era assim. Havia o tanque onde as senhoras lavavam a roupa. Eu esperava que elas chegassem e aparecia com a minha roupa. Mandavam-me embora e só para não me terem ali lavavam-me a roupa… (risos)Era mais difícil a vida de gaibéu…Sim, mas os patrões sabiam que podiam contar connosco. Trabalhávamos feriados e domingos. Um dia perguntaram-me se era capaz de semear arroz. Disse que sim. O arrozeiro não acreditou. Mas o patrão entendeu que eu devia experimentar. Punha o saco aberto carregado de arroz ao pescoço, água pelos joelhos, e conforme andava dava um passo e o balanço via correr o arroz. É melhor semear o arroz em água do que outra sementeira em terra seca. Com o balanço da mão vemos o arroz todo na água certinho. A verdade é que o meu nasceu melhor que o do arrozeiro…Aprendeu depressa.Sim. A determinada altura vi aqui qual era o preço do melão. Cinco tostões o quilo. Sabia que na minha terra estava a dois escudos. Comprei uma carrada de melão e aluguei uma camioneta. Vendi-o em três ou quatro dias. Vi o preço da batata lá. Estava a sete e quinhentos a arroba. Aqui a dois escudos e vinte o quilo. No regresso carreguei uma camioneta de duas toneladas de batata para vender aqui. Tinha 18 anos.
O gaibeú que veio trabalhar para a monda de arroz nos campos de Azambuja

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