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Paixão pelos relógios deu em negócio

Modesto Teixeira é relojoeiro na Ourivesaria Gordo, em Coruche

Foi um infausto acontecimento que levou Modesto Teixeira a estabelecer-se em Coruche. Um tio, ourives naquela vila, foi assaltado e morto nas proximidades de Vila Franca. Com o irmão herdou o negócio e passou a trabalhar como relojoeiro por conta própria.

Edição de 23.04.2008 | Identidade Profissional
Modesto Teixeira incide a luz de um candeeiro no seu balcão de trabalho, na Ourivesaria Gordo, em Coruche. Abre a caixa de um relógio de pulso com navalha e com a pinça retira o coração da máquina. Ao lado estão mais três ou quatro relógios à espera de serem reparados, como carros na oficina. Tem sido assim a vida de Modesto Teixeira desde os 12 anos. Sempre a mexer em relógios. Depois de cumprir o antigo segundo ano no liceu de Mira, no distrito de Coimbra, saiu com 12 anos e foi para aprendiz de relojoeiro. Numa zona onde não faltavam fábricas e empresas dedicadas ao sector da ourivesaria e relojoaria, viu a oportunidade como uma saída profissional.Mas o futuro também foi influenciado por um episódio passado na escola. “Na altura havia um rapaz que gostava de pegar na minha bicicleta e atirá-la para dentro de um charco. Avisei-o que se fizesse aquilo novamente estava feito comigo e ele deu-me logo um soco directo. Na resposta peguei num tijolo do chão e atirei-lhe à cabeça. Paguei o que devia na secretaria e saí da escola”, recorda agora com um sorriso Modesto Teixeira.Durante ano e meio frequentou um curso de relojoaria, aprendeu a montar e desmontar peças, formação pela qual pagou então cinco contos. Apenas com 12 anos trabalhou numa linha de montagem de relógios em Mira, a ganhar 1.200 escudos. Deu o salto para uma ourivesaria da Covilhã para auferir três contos e quinhentos. Mas o caminho para a serra era tortuoso e apostou numa ida para o Bombarral para ganhar seis contos e quinhentos, onde ficou até aos 18 anos.Cumpriu dois anos de serviço militar pela Marinha em Vila Franca e chegou a ser embarcadiço. A mudança para Coruche aconteceu por razões negativas. O tio de Modesto Teixeira, ourives da vila, costumava ir fazer negócio para Vila Franca de Xira e numa ocasião foi roubado e assassinado na zona do campo. Os sobrinhos, Modesto e Liberto, foram chamados para tomar conta do negócio na Ourivesaria Gordo, na rua de Santarém, em pleno centro histórico da vila de Coruche. Sempre ligado ao mundo da ourivesaria e da relojoaria, Modesto Teixeira confessa que nunca pensou noutro futuro profissional a partir do momento em que começou a trabalhar com relógios. Mecânicos, electrónicos, digitais, de quartzo, de parede e de coluna, a acompanhar as modas e os novos modelos. “Em 1972 apareceram os relógios electrónicos mas não há nada como os mecânicos em termos de reparação e durabilidade. Os de quartzo trabalham por impulsos enquanto os electrónicos em corrente contínua. Também houve a tendência pelos digitais que apareceram já com memória e outras novidades”, descreve o profissional. O relojoeiro considera também que em matéria de relógios não há como os japoneses, apesar da fama e requinte dos suíços. São as melhores “máquinas” em matéria de qualidade de fabrico e durabilidade, assegura. Se na loja sobressaem as vitrinas e balcões com diversos artigos em ouro e prata, a área de trabalho de Modesto Teixeira é mais recatada, detrás de um pequeno balcão com abertura para a loja. Uma luz florescente branca ilumina o metro de balcão, enquanto um foco de 75 watts de luz azul, para não prejudicar a vista e a 15 centímetros de distância, incide sobre o objecto no qual trabalha. Há desandadores para desapertar as peças, oleadores, pinças de cabelo para segurar delicadamente as minúsculas e sensíveis partes do relógio. Um aparelho pode contar até 300 peças. Uma vez um senhor apareceu na loja com um Patek Philip de bolso, marca de renome, que não tinha uma parte, o chamado balanço completo. “Ele tinha percorrido o país e Espanha a tentar arranjá-lo e eu despachei aquilo em dez minutos com o balanço de um relógio que tinha daqueles normais. Custou quatro contos e quinhentos e o homem saiu satisfeito”, recorda.Se pelas mãos de Modesto Teixeira já passaram milhares de relógios, no pulso direito tem andado um Citizen nos últimos dez anos. Um aparelho com sistema eco-drive que permite funcionar sem pilha com recurso à luz e que acumula energia para trabalhar na escuridão. “Tenho uns 15 relógios pessoais, quase todos oferecidos por viajantes das diferentes marcas, mas não me desligo deste. Mas podia ter mais se quisesse”, conta Modesto Teixeira.Em mais de 30 anos de negócio, Modesto Teixeira e o irmão passaram por um episódio que não esquecem no final de tarde de 16 de Janeiro passado. Dois homens entraram na loja com pés de cabra e atingiram Liberto com golpes da cabeça. Modesto recorreu a uma arma para os afugentar. Não levaram nada mas ficaram as marcas. “Tivemos três assaltos nesta casa e nunca levaram muitos valores. Mas se levassem cá estaríamos para trabalhar e compensar o prejuízo”, diz o relojoeiro, que, com 53 anos, faz planos de continuar a dedicar-se à actividade de que sempre gostou. O negócio dos relógios continua a ter procura mas não tanta como há anos. Modesto Teixeira aproveitou para tirar um curso de soldadura e reforço de peças de ouro que sempre rende mais. Mas mantém a preferência por trabalhar com os aparelhos que fazem “tic-tac”. Ou melhor, faziam…

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