uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
A motorista que transporta dezenas de crianças diariamente

A motorista que transporta dezenas de crianças diariamente

Desde criança que Anabela Santos tem paixão por motas e carros

A motorista do Instituto Conde Sobral adora o que faz e não trocava esta profissão por outra. Confessa que os laços construídos com as crianças são enormes.

Edição de 26.11.2008 | Identidade Profissional
Anabela Santos, 40 anos, entra pontualmente às oito da manhã na carrinha do Instituto Conde Sobral e faz o percurso habitual pelas ruas de Almeirim e Fazendas de Almeirim. Já lá vão 14 anos. O objectivo é trazer as crianças que não têm quem as transporte até ao edifício do jardim-de-infância que frequentam em Almeirim. São duas viagens de manhã e três ao final do dia. Cada viagem transporta 18 crianças devidamente acomodadas em carrinhos ou bancos com cintos de segurança, consoante a idade.Durante 12 anos as crianças eram transportadas numa carrinha de nove lugares. Sete crianças de cada vez supervisionadas por duas funcionárias. Como Anabela era a única funcionária do Conde Sobral que possuía carta de pesados de mercadorias e adorava conduzir pediu para ser motorista. Pedido aceite pela direcção. Com o passar do tempo, os responsáveis do instituto aperceberam-se que era necessário adquirirem um transporte maior para fazer face ao aumento de crianças que necessitavam de transporte.Há cerca de um ano e meio foi comprada uma viatura maior - com capacidade máxima para 18 crianças - que só começou a funcionar em Setembro passado. Para conduzir a nova viatura do instituto seria necessário possuir a carta de pesados de passageiros. Foi nessa altura que Anabela Santos resolveu concluir um projecto que andava adiado há mais de uma década.Desde criança que a funcionária do Instituto Conde Sobral tem paixão por motas e carros. Confessa que quanto maior for a viatura mais gozo lhe dá conduzir. “Não gosto de carros pequenos”, confidencia. Aos 18 anos tirou a carta de condução de ligeiros. Mas antes já conduzia carros e motorizadas com frequência. Desde os 12 anos que anda de mota. E nunca teve medo de ser apanhada. “Quando o meu namorado andava na tropa eu é que o ia levar de mota até à estação ferroviária para ele apanhar o comboio. E nunca fui apanhada sem carta”, recorda entre risos.O facto de ter começado a trabalhar com o pai, dono de uma suinicultura que fazia transportes com frequência, levou-a a obter a carta de pesados de mercadorias. Aproveitou e tirou ainda a carta de motociclos. Entretanto casou e ficou grávida. A sua vida mudou e decidiu procurar um emprego diferente. Encontrou-o no Instituto Conde Sobral. Começou por trabalhar como auxiliar. Ajudava na cozinha e onde fosse preciso. Mas, confessa que, não gostava muito do que fazia. “Como se costuma dizer, galinha de campo não gosta de capoeira e eu não gostava de estar fechada”, conta a O MIRANTE.Quando a instituição começou a fazer transporte de crianças Anabela Santos tornou-se a motorista oficial. Garante que foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido. A mãe diz-lhe com frequência que nasceu para homem uma vez que detesta os trabalhos atribuídos às mulheres. “Passar a ferro, limpar o pó, cozinhar não é para mim. Na carrinha faço quilómetros, vejo paisagens diferentes, converso com as pessoas. Sou muito mais feliz assim”, diz.Apesar de achar que já não existem profissões destinadas a homens e mulheres, Anabela tem consciência que esta ainda é considerada uma profissão masculina. Ideias preconcebidas que a motorista tenta derrubar. Mas nem sempre consegue. “Sinto que ainda olham de lado quando percebem que é uma mulher que vai a conduzir a carrinha. Alguns homens fazem comentários ou gozam mas finjo que não oiço e ignoro. Até porque levo crianças comigo”, diz.Anabela Santos garante não existirem diferenças na condução de veículos de maiores dimensões. “Deve-se ter maior atenção às distâncias e ao facto de transportarmos crianças connosco. Deve-se conduzir com prudência e não ter o pé pesado”, refere.A motorista adora o que faz e não trocava esta profissão por outra. Confessa que os laços construídos com as crianças são enormes. E é com emoção que os vê deixarem a Instituição e partirem rumo a novos desafios. “Não há nada mais reconfortante do que vermos que as primeiras palavras que as crianças dizem é o nosso nome. E quando eles já são adolescentes e passo por eles e me tratam por “tia Bela” e ficam a conversar comigo. É o melhor do mundo”, confessa, acrescentando que alguns dos “seus meninos” já frequentam a universidade.
A motorista que transporta dezenas de crianças diariamente

Mais Notícias

    A carregar...