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Ensinar a cor sem parar de aprender a pintar

Teresa Domingos estimula os alunos a ter formação em pintura

Professora de educação visual, tinha horror às matemáticas e jeito para o desenho enquanto aluna. A artista gosta mais de pintar paisagens e retratos mas realiza quadros abstractos para descontrair nos intervalos entre obras.

Edição de 04.06.2009 | Sociedade
Ao chegar à sala onde Teresa Domingos pinta, dois cavaletes permanecem lado a lado. À esquerda, uma imagem e Nossa Senhora e Jesus Cristo ainda bebé - uma pietá – por acabar; à direita, uma imagem abstracta em que os vermelhos os azuis e os amarelos assumem a forma de um turbilhão. “Se me canso a meio de uma tela figurativa, tenho de pintar um abstracto e só depois volto a retomar a primeira”, explica Teresa Domingos. A pintora vilafranquense, 52 anos, olha para as duas vertentes mais diversas da pintura como complementares. Professora de educação visual no ensino básico, a docente olha para a pintura como uma arte a ser explorada em todas as suas vertentes. “A minha grande paixão é explorar a cor em vários materiais”, conta Teresa Domingos. Parte do espólio da pintora está patente na galeria do restaurante “Império do Sentidos”, no Bairro Alto, em Lisboa. As telas, que hoje dominam os seus tempos livres, chegaram a ser substituídas pela pintura de tecidos, frascos e tapeçaria, ao longo das várias fases da sua formação. “Nasci com muito jeito para desenhar e na escola, em vez de fazer contas, a matemática, punha-me a fazer desenhos e era castigada”, relata a artista. O apoio de uma professora, no 5.º e 6.º anos, levaram-na a concorrer em cursos de desenho, arrancando alguns prémios. O talento para as artes levou mesmo a que, ainda no ensino básico, uma professora lhe garantisse uma nota positiva a matemática “para não lhe estragar o futuro”, quando a mesma docente, na disciplina de desenho, lhe atribuía a classificação máxima. A recomendação de uma formação na escola António Arroio surgiu por diversas vezes, mas a proibição familiar de deixar partir a menina “ainda muito nova” para Lisboa adiou o percurso. Foi já depois de terminar o ensino secundário que Teresa Domingos se inscreveu naquele estabelecimento de ensino, com os olhos postos na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. “Com as mudanças de legislação, os cursos da António Arroio deixaram de dar entrada directa e por isso teria de esperar até aos 25 anos, para fazer um exame ad-hoc. Como ainda não tinha essa idade, fui fazendo vários cursos técnicos de decoração, pagos por mim”, refere Teresa Domingos. Os trabalhos de uma colega, que fizera o exame e entrar na faculdade, restritos à pintura para tela, também não a entusiasmavam. “Queria aprender mais”, garante. A entrada de Teresa Domingos no mundo do trabalho começou pelas artes. No tempo da escola António Arroio, em plena década de 80 e em conjunto com uma colega, pintava em materiais que vendia para as lojas. “Era conforme a moda. A certa altura, eram os frascos pintados. Depois, era a pintura em macramé”, conta. O entusiasmo pelas artes plásticas levou-a também à docência. A entrada no mundo escolar deu-se num infantário da Quinta do Bulhão, Vila Franca de Xira, com aulas de artes plásticas para crianças entre os três e os seis anos de idade. Teresa Domingos chegou também a ensinar jovens com trissomia 21, no mesmo local. “São alunos muito espertos e criativos, que se expressam bem através das artes”, sublinha a pintora. Teresa Domingos chegou a acumular três empregos e foi evoluindo na carreira docente. A vilafranquense deu aulas nos concelhos de Benavente e Alenquer, antes de se fixar num externato em Arruda dos Vinhos, onde lecciona Educação Visual e Tecnológica. “Gosto mais da parte de educação visual. È aquela que me dá mais gozo, mas combinamos as duas vertentes nos trabalhos que os alunos apresentam”, explica. A professora encaminhou já vários alunos para aulas de pintura, na freguesia onde lecciona, e vai expor em breve na escola de pintura onde eles recebem ensinamentos. A formação de Teresa Domingos enquanto artista não parou no tempo. A passagem profissional por Alenquer levou-a frequentar vários cursos com o pintor João Mário. “Fez-me crescer na parte figurativa. Ensinou-me a utilizar a espátula nos quadros a óleo, a fazer, e a compor um quadro inteiro sem recorrer aos pincéis”, recorda a pintora. “Tinha imensa vontade aprender aquela técnica e passei a utilizá-la muitas vezes”, nota. Dos quadros que pinta, Teresa Domingos vende só uma parte. “Separo-me com maior facilidade dos abstractos. Fazer um quadro figurativo dá muito mais trabalho e custa mais ficar sem ele”, confessa. A pintura não é, hoje, um projecto de vida mas a artista reconhece nela uma tentação. “Já dou aulas há muitos anos e, se um dia pudesse, não me importava de me dedicar à pintura a tempo inteiro”. A importância dos detalhes Uma imagem do antigo forcado “Cabaço”, conhecido por pegar o touro de costas, é um dos quadros que aguarda no atelier de Teresa Domingos a entrega ao seu futuro dono. A tela, feita a partir de uma fotografia a preto e branco, mostra uma cena que para a artista reflecte e importância dos detalhes da pintura de imagens reais. “A tourada é como uma dança, e tem uma estética muito própria, embora tenha cada vez mais pena dos touros”, confessa. A tela mostra os pormenores da pega e nem a representação do pó de areia poeira fica ausente do quadro. A confiança na pintura de pormenores depende, para Teresa Domingos, da paciência e preserverança do artista. O desafio mais marcante encontrou-no num dos cursos de pintura que realizou com o pintor alenquerense João Mário. “Naquele ano, a proposta passava por levarmos fotografias de pessoas para pintar. Fiz uma tela muito grande, mas chegando ao momento de pintar o sorriso, reconheci que não sabia pintar dentes. “Deixe uma faixa em branco, sugeriram-me. Mas concentrei-me e consegui pintar cada um até ficarem perfeitos. Só cada detalhe daqueles demora tanto tempo a pintar como um quadro abstracto”, sublinha.O sonho comanda o abstractoA pintura abstracta tem, para Teresa Domingos, uma atracção pouco comum nos artistas figurativos. “São telas onde não há regras, e me posso permitir apreciar aquilo que vai saindo. Se no dia seguinte, me levanto e não gosto, posso aumentar a mancha de cor, introduzir outros tons ou pintar por cima”, explica. A artista conta que chegou a sonhar com imagens absctactas, levantando-se com elas na sua mente, pintando-as de imediato. O espaço de fronteira entre a pintura figurativa e a abstracta tem, para Teresa Domingos, um significado reduzido. “Cheguei e pintar uma tela cuja mancha fazia lembrar um bando de pássaros. Pouco depois, resolvi unir as manchas com um traço pouco definido e nasceu um emaranhado de pássaros figurativo”

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