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Tinha música dentro de si e por mais voltas que desse era sempre a música a traçar-lhe o destino

Tinha música dentro de si e por mais voltas que desse era sempre a música a traçar-lhe o destino

António de Sousa quer ser cada vez mais o Luís Linhares da Filarmónica Fraude

António Corvêlo de Sousa, o professor de música, coordenador da Casa-Museu Lopes Graça, director artístico do Coro Canto Firme, director pedagógico da mesma colectividade e membro do Centro de Estudos Musicais da Universidade Nova de Lisboa, quer ser, cada vez mais o Luís Linhares da “Filarmónica Fraude” que retoma o percurso interrompido há 40 anos.

Edição de 09.06.2009 | Entrevista
No final dos anos 50 chegou a Tomar com a família um menino de 5 anos chamado António Luís Linhares Corvêlo de Sousa. Vinha do campo. De Leomil, concelho de Moimenta da Beira. Falava “achim” e ainda por cima gaguejava. Hoje o menino é professor de música, coordenador da Casa-Museu Lopes Graça, director artístico do Coro Canto Firme, director pedagógico da mesma colectividade e membro do Centro de Estudos Musicais da Universidade Nova de Lisboa.A música está-lhes nos genes. A avó açoreana, Luísa Linhares, que ele não conheceu, tocava piano. A mãe também. E foi nas teclas do piano da avó que tinha sido trazido de Angra do Heroísmo para a casa de Tomar que o menino começou a martelar para vencer a sua timidez. “De repente descobriu-se que eu, sem saber nada de música, tinha grande prazer em sentar-me ao piano a fingir que sabia tocar. Era um sossego porque enquanto ouviam o piano sabiam que eu não estava a fazer disparates. O meu pai, para sossego da sua cabeça, resolveu que já que eu tocava, ao menos que tocasse alguma coisa de jeito e arranjou-me uma professora de piano onde andei até aos meus treze anos”. O menino cresceu e começou a ter amigos e outros interesses. “Sentia-me aqui muito bem. Muito livre. Andava na rua a fazer todas as maldades que as crianças faziam. O Convento de Cristo era uma espécie de recreio. A gente ía para lá em bandos. Havia um seminário com campo de futebol. Saltava-se o muro ou abria-se uma porta e todo o espaço era nosso. Andávamos por onde queríamos”, conta.António de Sousa começou a faltar às aulas de piano. “A malta achava que aquilo de aprender música era meio amaricado”, explica. A sorte dele foi haver um conjunto na cidade, os Inkas, a precisar de um teclista. “Quando começámos a tocar noutros lados mudámos de nome para Filarmónica Fraude. Foi nessa altura que senti vontade de voltar às aulas de piano”. Mudou o nome do conjunto e mudou o nome do músico. “Adoptei Luís Linhares, os meus nomes do meio. Uma homenagem à minha avó materna de que já falei”.António de Sousa é irmão mais novo do actual presidente da câmara, Corvêlo de Sousa. O pai era advogado. A mãe dava aulas de religião e moral no Colégio Nuno Álvares. A família morava na Praça da República, no centro da cidade. “Nunca tive problemas em casa. O meu pai aguentava todas as minhas decisões. Aos 15 anos fui para Inglaterra para um campo de trabalho no Verão. Os amigos do meu pai chateavam-lhe a cabeça. Ele não se importava. No colégio não eram tão liberais. Um dia, farto de me chatearem para cortar o cabelo, rapei-o por completo. O director considerou aquilo uma insubordinação. Expulsou-me verbalmente de manhã e readmitiu-me à tarde depois de o meu pai ter ido falar com ele. Já nessa altura me considerava um Beatleano (fã dos Beatles). Ainda hoje sou”.No último ano do liceu chumbou. “O meu pai disse que me ía pôr a trabalhar. Eu negociei com ele. Já que tinha que trabalhar ao menos que fosse numa coisa que eu gostasse. Como na altura a Filarmónica Fraude estava em andamento, foi esse o meu primeiro emprego. E também tocava noutros lados. Em bares, em orquestras com outros músicos, no Casino Estoril, onde calhava”.“A pouco e pouco fui acabando o antigo 7º ano do liceu. Em 1971 fui para a tropa. Fui para Leiria como corneteiro mas nunca toquei corneta. A 13 de Maio de 1972 sou mobilizado para Moçambique. Quando lá cheguei fui para o mato, para uma zona próxima da barragem de Cabora Bassa. Aí sim, tive que ser corneteiro e foi uma barraca. Logo no primeiro dia, na altura de tocar a alvorada enganei-me e toquei o recolher. Levei um raspanete do comandante”.Ficou pouco tempo no mato. Um dia foi requisitado pelo comando de Nampula para ir tocar piano numa recepção ao Ministro da Defesa da África do Sul, Pick Botha. Foi e nunca mais regressou à companhia. “Esqueceram-se de mim e eu fui ficando. Tocava no bar onde costumavam ir os brigadeiros e generais. Na altura acho que era uma espécie de soldado Shveik, fazia tudo para me ir safando da melhor maneira”.A conversa decorre no gabinete de António de Sousa na Associação Canto Firme. Na altura de fazer as fotografias O MIRANTE desafia-o para uma pequena brincadeira. Em vez de se sentar ao piano, fingir que toca clarinete. Uma pequena fraude do compositor de serviço da Filarmónica Fraude. António de Sousa veste a pele de Luís Linhares e acede com um ar de menino travesso no rosto. Depois da tropa António de Sousa fez o conservatório em Coimbra ao mesmo tempo que o curso de História. Venceu a música mais uma vez. Foi professor. É professor. Quer ser cada vez mais livre para fazer o que lhe der na real gana. Para ser mais Luís Linhares do que António de Sousa.
Tinha música dentro de si e por mais voltas que desse era sempre a música a traçar-lhe o destino

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