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Vila Franca de Xira deu “um passo gigantesco” em termos industriais

Vila Franca de Xira deu “um passo gigantesco” em termos industriais

Manuel Tarré, presidente da Gelpeixe e da Associação da Indústria Alimentar pelo Frio

O concelho de Vila Franca de Xira é exemplo da visão estratégica em termos industriais. Quem o diz é o presidente da Associação da Indústria Alimentar pelo Frio, Manuel Tarré. O empresário de Loures dirige a Gelpeixe, distinguida como a melhor PME para se trabalhar. Começou de mãos dadas com o pai e o irmão em 1977 quando ainda não distingia um “carapau de uma sardinha”.

Edição de 09.07.2009 | Entrevista
O presidente da Associação da Indústria Alimentar pelo Frio, Manuel Tarré, que é também empresário da Gelpeixe, considera que o concelho de Vila Franca de Xira deu nos últimos anos “um passo gigantesco” ao permitir a instalação de indústrias no concelho. “Houve alguém que teve uma visão estratégica para o concelho e alocou terrenos à indústria levando a que uma boa parte dos empresários de Lisboa e não só vissem como expansão normal dos seus negócios o concelho de Vila Franca de Xira”, afirma Manuel Tarré que recorda que a autarquia incentivou na altura os empresários a investir no território.Mesmo a logística, que é criticada por alguns por ser uma área que não cria muita riqueza, é na opinião do industrial uma boa aposta. “Não creio que os centros de distribuição possam ser enquadrados nesse tipo de argumentação. Tomara que continuem a existir empresários nesta área e gerar postos de trabalho”. A empresa, sediada no concelho vizinho de Loures, foi distinguida em 2009 como a melhor empresa PME para trabalhar em Portugal, de acordo com o estudo “Melhores Empresas para Trabalhar”, promovido pela revista Exame e pela Heidrick & Struggles. “Bom senso” é a receita seguida pelo empresário que em 1977 fundou a empresa de “mãos dadas” com o pai e o irmão. “Nunca tivemos a veleidade de ser a melhor empresa em nenhum aspecto. É para nós uma responsabilidade grande, mas não mudamos a nossa política”, admite reconhecendo no entanto que a empresa paga prémios aos trabalhadores, aposta em seguros de saúde e em complementos de reforma e tem um acordo com uma farmácia que entrega os medicamentos na empresa a custos mais reduzidos.O empresário tem alguns colaboradores que residem no concelho de Vila Franca de Xira, mas a estratégia da empresa vai para os residentes no concelho de Loures. “É uma questão de facilitar a vida às pessoas. Se tiver um colaborador de Cascais ou Mafra quando aqui chega já leva uma hora de transportes e depois tem outro tanto para chegar a casa. É mais sensato nós vivermos perto do local de trabalho”. A ligação à terra implica algumas obrigações até sociais, mas abre uma porta que facilita contactos com os poderes instalados. Manuel Tarré admite que nem todas as empresas estão em condições de proporcionar este tipo de vantagens aos trabalhadores, mas considera que é importante promover o bem estar social. O empresário é um defensor de equilíbrios. “Quando ouvimos falar os sindicatos dá a ideia de que os patrões têm todas as obrigações e os trabalhadores só têm que receber. Há afirmações que pecam por completa falta de senso”. A empresa é solidária para com os colaboradores, mas também exige. Os trabalhadores têm objectivos para cumprir. “Não correspondem à imagem que é passada por alguns funcionários públicos de passar o dia a pouco fazer ou a complicar a vida aos demais”.A fórmula do sucesso – que tem sido prática da Gelpeixe onde trabalham 150 pessoas – passa por partilhar as preocupações com os trabalhadores e encontrar as soluções. “Nós próprios somos empregados da empresa e recebemos determinado valor pelo nosso trabalho. Uma boa parte do dinheiro que ganhamos, que é a maior parte, é investido em máquinas e no crescimento da firma”. A estratégia passa por “dar um abraço” e um prémio quando alguém merece, mas também “meter na rua no dia em que não se portam bem”. O resultado da estratégia é a motivação. Os colaboradores recebem em função do que fazem e do que está acordado entre as duas partes e além disso têm pacote de condições além daquilo que é expectável. “Não têm razão para andarem mal dispostos. Como certos maridos que fazem tudo à mulher e mesmo assim ela continua a andar mal disposta”, remata com humor.O Tejo é uma mais valia que a região “não está a aproveitar da melhor forma”A região do Ribatejo não potencia os recursos naturais de que dispõe, como o rio. “O Tejo é uma mais valia que a região não está a aproveitar da melhor forma”, diz Manuel Tarré. “Não sei se por não haver empresários capazes de investir nessa área ou se por bloqueio do plano director municipal que não deixa fazer nada na zona ribeirinha por questões de segurança. São sempre argumentações válidas, mas bloqueadoras das zonas”.A organização mais regular de passeios de barco na zona de Vila Franca de Xira, por exemplo, seria uma forma de promover o turismo da região. “No Douro o indivíduo vai lá e vê. É um sítio agradável”. O Ribatejo, tal como o Alentejo, tem potencial, boa gastronomia, mas precisa de ânimo. Mais do que espaços é necessário ter à frente gente com dinâmica. O turismo em Portugal deve ser orientado, como tem vindo a ser feito nos últimos anos, para coisas não necessariamente caras, mas elegantes. “Não se trata apenas de receber uma chave e ouvir: ‘O seu quarto é o número 114’. É necessário outro acolhimento, a partilha de uma história e de um conforto. Tenho notado neste Portugal que às vezes atravesso que são as pessoas é que fazem a diferença. Deveria haver melhor formação turística. Mas este é um problema de cultura nacional”, analisa.O Rio Tejo não é um fornecedor de peixe para a indústria dos congelados, mas para arestauração tradicional. Os pescadores típicos, adianta, são no entanto determinantes pelo pitoresco da relação entre o consumidor. “Os tradicionais pescadores são sempre queridos por todos nós, mas atravessam momentos difíceis porque não há o peixe que existia antigamente”. Empresário de sucesso e pai de três filhosManuel Tarré entrou no mundo dos negócios em 1977 quando ainda não distinguia “um carapau de uma sardinha”. A empresa Gelpeixe - que fundou de “mãos dadas” com o pai e o irmão e que emprega 150 pessoas - foi considerada este ano como a melhor PME para se trabalhar em Portugal, de acordo com um estudo promovido pela revista Exame e pela Heidrick & Struggles. A empresa nasceu em Loures – tal como os três fundadores - e por lá vai permanecer. É formado pelo Iscal (Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa), mas considera que a gestão, tal como é ensinada nas escolas, está demasiado baseada em fórmulas matemáticas. “Não se forma um gestor. É-se líder por natureza. Respeita-se e faz-se respeitar. Resulta da educação que tivemos, dos princípios qe da nossa própria genética”. Os empresários de sucesso, acredita, têm que ter arte e engenho, mas que ter sobretudo “um pouco de sorte”. O dia do empresário começa por volta das 6h30. Uma boa parte dos negócios da empresa passa pelas suas mãos. Diferenciar o horário permite-lhe entrar em contacto com outros países antes de chegar à empresa, entre as 9h00 e as 10h00.A África do Sul é o seu país de eleição. É para lá que irá em Agosto para um safari com os filhos. Três dias chegam-lhe para retemperar forças. Um mês de férias está fora de questão. Ou mesmo uma semana na praia. “Continuo a achar que estar de férias não é um estado de direito completo”, confessa.Cumpriu seis anos de tropa já no pós 25 de Abril. “Vim de lá formatado para não fazer nada. Quando peguei nesta empresa durante três ou quatro meses foi muito difícil conseguir mentalizar-me que tinha que trabalhar a sério”. Gosta de coisas em construção e é incapaz de ter a mente a zero. “Não desligo. O corpo às vezes precisa de descansar, mas não tenho prazer em estar num sítio sem fazer nada”.Tem pouca facilidade em deixar de controlar tudo. “Só se pode deixar nas mãos dos outros aquilo aquilo que não é importante. A grande diferença entre um gestor e um colaborador, nos seus extremos, é que um indivíduo executando bem a sua tarefa no final do mês vai contar com o seu ordenado na conta. Alguém que esteja deste lado vai contar com esse dinheiro, mas tem que gerar riqueza para pagar os ordenados a todos”O empresário tem 57 anos, três filhos – uma rapariga de 28 anos e dois rapazes de 18 e 13 – e uma relação conturbada com o sexo feminino. “Existe uma lógica de homens e uma lógica de mulheres. Acertar o passo entre uns e outros não é fácil”, diz com humor. É um pai presente que não abdica de tomar o pequeno almoço com os filhos.“Já me chamaram chato, mas não dispenso os abraços de início de dia quando estão comigo”. Quando fez 50 anos um amigo artista ofereceu-lhe uma obra que tem no escritório. É um pintor com uma modelo nu à sua frente que acaba por desenhar uma figura sem cabeça. “O que aconteceu ao pintor da obra de arte foi que tentou pintar com alguma lógica”, ironiza. Uma boa parte do seu prazer diário passa por estar frente à secretária, dentro de quatro paredes da Gelpeixe. “Se não tivesse esta possibilidade não seria o homem feliz que normalmente sou”.Apreciador de touradas e sardinhas assadasGosta de ver uma corrida de toiros e de comer sardinhas assadas, como qualquer português que se preze. “Mas as “touradas” que tenho para gerir na empresa libertam-me pouco tempo para a incomodidade de me deslocar a outros sítios para ver futebol, touradas ou outros espectáculos”, diz Manuel Tarré. É na televisão que vê os espectáculos de tauromaquia quando não pode assistir aos espectáculos no Campo Pequeno, em Lisboa. Os tempos de crise, defende o empresário, obrigam a um empenho que consome grande parte das energias a quem tem uma firma para manter de pé. A crise afectou as empresas transversalmente. “Afortunadamente estamos numa área da alimentação. E ainda se vai tendo o hábito de comer todos os dias”. Sai da empresa, como outros empresários, depois de não ter já mais nada para dar. “Quando saímos é mesmo para descansar. Não está em causa ir comprar o bilhete. Chega-se a uma altura em que nem queremos ouvir os nomes dos jogadores ou dos toureiros”.
Vila Franca de Xira deu “um passo gigantesco” em termos industriais

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