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A última taberna de Vialonga

A última taberna de Vialonga

O casal Faneca dirige taberna e mercearia onde o vinho e os petiscos ditam as horas

“Casa de convívio” com mais de 120 anos ainda recebe apreciadores do vinho a copo. Uma viagem à Vialonga de outros tempos.

Edição de 12.08.2009 | Sociedade
Às oito da manhã já se trabalha na taberna do Ti’Anselmo. O estabelecimento, que carrega nas paredes mais de 120 anos de história, é uma das casas comerciais mais antigas da freguesia de Vialonga e recebe logo pela manhã aqueles que não passam sem a aguardente ou vinho para o “mata-bicho”. O fado soa na rádio enquanto ao longo da manhã se vão juntando velhos conhecidos de copos e conversas. No balcão de pedra, com base em madeira, os clientes vão pousando os copos de tinto e petiscando pastéis de bacalhau e tortilha. “Esta é uma casa de convívio”, conta Glória Faneca, 65 anos, proprietária. “Aqui os clientes sentem-se mais à vontade. Mas os velhotes vão morrendo e os jovens já não querem aparecer”, conta. A ascensão dos cafés e das grandes superfícies tirou à taberna e à mercearia, logo ao lado, parte do movimento. Os bonés com as insígnias de clubes de futebol pendurados num cordão deixam perceber um dos temas de conversa mais comuns. À direita de quem entra, fica pendurado um quadro com a foto de Tiago da Silva Serrano, marido da primeira proprietária da taberna, Ti’Quites. “A casa nem é do meu tempo. Era de uma parente do meu marido. Eu estou aqui há 42 anos”, conta Glória Faneca. Enquanto Glória tomava conta da taberna e da mercearia, o marido Anselmo Faneca, 70 anos, trabalhava nos transportes de longo curso. “Quando me reformei, aos 65 anos, vim para aqui fazer companhia à minha esposa”. A vida na taberna passa com a calma de quem já viveu muito. “Vai-se entretendo o pessoal e conversando”, conta Anselmo. Saudades, para muitos dos visitantes e para o casal, surgem quando se fala no vinho a copo retirado da pipa. Os barris partiram muito recentemente por obrigações impostas pelas novas leis e pela ASAE. Mas a nostalgia permanece. “Com os barris, o vinho vendia-se melhor, era mais tradicional e não tão filtrado. Mais puro. Este nunca será tão bom”, garante Glória. Agora, os clientes continuam a ir buscar vinho de garrafa vazia na mão, mas o néctar sai de sacos prateados introduzidos em caixas de papelão. Dos tempos antigos Glória recorda tardes e noites acaloradas. “Quando os clientes chegavam do trabalho e começavam a beber quatro ou cinco copos, às vezes ficavam mais para lá do que para cá. Era um algazarra. Mas agora têm cuidado, e se forem conduzir, ainda mais”.Com o tempo o espaço foi sendo preenchido com novos produtos, tal como a mercearia. Os aperitivos fritos acompanham os petisco e as guloseimas de antigamente. Mas à hora de almoço, ao fim-de-semana, as entremeadas na brasa e as sardinhas são assadas religiosamente. A inovação também chegou às bebidas alcoólicas, mas a casa do Ti’Anselmo tem um cunho de tradição. Há cerca de doze anos, um cliente, Abel, pediu para ir acrescentando ingredientes a um copo de ginja. O “cai-bem”, feito de ginjinha, gasosa, sumo e casca de limão, nasceu ali passou a ser bebida da casa, para quem “tem a caldeira quente” ou “não gosta muito de beber vinho”, conta Glória. Nos dias de calor, “sai muito bem”, diz Anselmo. Com a chegada da hora do almoço o sol já ilumina a maior parte da taberna. Os clientes pensam em partir rumo a casa, voltando ao final do dia ou ao anoitecer. Se for noite de jogo de futebol a casa só fecha quando a bola deixar de girar no relvado. Caso contrário, às dez da noite, já todos descansam. “Já trabalhei muito. Os novos agora que trabalhem até tarde”, graceja Glória.
A última taberna de Vialonga

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