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O grupo etnográfico que persegue a história

O grupo etnográfico que persegue a história

Rancho Folclórico da Casa do Povo de Vialonga busca o rigor da tradição na música e na dança

Nasceu em 1982 como um rancho infantil e tornou-se no mais emblemático da freguesia já com crianças e adultos. O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Vialonga vai actuar nas festas da vila e aspira a integrar a Federação do Folclore Português.

Edição de 12.08.2009 | Sociedade
“Não gosto de folclore nem de ver festivais de folclore, mas gosto de etnografia”. As palavras são de António Carreiro, coordenador do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Vialonga, um dos mais emblemáticos da freguesia, e já foram proferidas numa reunião do grupo. O responsável, 42 anos, filho de um dos dirigentes da Casa do Povo de Vialonga, representa o ponto de viragem na história do rancho, que deixou a uniformidade dos trajes dos campinos e ceifeiras, para recriar com rigor as tradições das gentes da terra que o acolhe. O resultado é a ambição de integrar a Federação do Folclore Português. “É preciso garantir a verdade das modas e das coreografias. Fizemos recolhas desde o final dos anos 80 junto de pessoas nascidas em Vialonga sobre as suas tradições e costumes, mas queremos fixar em pauta e em registo audiovisual todas as músicas”, conta António Carreiro a O MIRANTE. O projecto, que dura há vários anos, avançará “quando houver condições”, mas nasceu de um trabalho anterior que levou, em 2002, à reformulação dos trajes e organização do grupo. “Um rancho que se limite a dançar não tem valor, tem de conseguir transmitir aos mais novos o que os nossos avós faziam, defende o responsável. Foi com a intenção de criar quadros etnográficos e aumentar o rigor histórico das actuações que o rancho se lançou na pesquisa documental. António Carreiro, a convite do pai, João Carreiro, dirigente da Casa do Povo, pesquisou as raízes vialonguenses e acabou por idealizar a recriar a época entre 1886 e 1900. A ideia foi abraçada por pequenos e graúdos, que trabalhavam juntos há vários anos. Na família do coordenador pai e mãe participavam no rancho. O irmão já lá dançara também. “O rancho começou por ser só infantil quando nasceu, em 1982. Em 2002, alguns dos membros da formação original já tinham saído mas tinha chegado mais, até de grupos vizinhos, e passámos a ter dois”, relata António Carreiro. O rancho infantil, de cerca de 10 jovens, mantém-se. Com os adultos o total de tocadores e bailadores ascende às quatro dezenas. Em palco o cuidado centra-se nos rituais de antigamente. “Procuramos teatralizar, recriar um baile e as situações sociais para que servia. Quando o rapaz se tenta aproximar da rapariga, a tentativa de a beijar, pedir uma dança e aceitar. E também situações do quotidiano como a apanha da cebola”, explica. Nos quadros etnográficos que apresenta no festival de folclore que organiza, o rancho já apresentou três ciclos temáticos – pão, vinho e cebola. Defensor de que o folclore é para quem gosta, relata como os membros do rancho ficam satisfeitos quando, de entre os mais velhos entre assistência aos espectáculos, alguém diz: “Era mesmo assim que fazíamos nessa época”. O trabalho de recriação inclui a recolha de objectos e a criação de réplicas, que enchem a sala etnográfica do grupo. “Gostávamos de organizar isto e criar aqui um pólo museológico para que as crianças o visitassem”, conta, apontando para uma sala repleta de alfaias agrícolas e objectos do quotidiano. Sobre a identidade da freguesia que representa, António Carreiro defende a fluidez nas tradições ribatejana e saloia. “As pessoas que fundaram o rancho são da zona de Coruche e daí saiu parte da tradição ribatejana. Mas na época que retratamos, as quintas e as hortas dominavam Vialonga, que já pertenceu a Lisboa, freguesias da Graça e Santa Maria dos Olivais, e durante um ano a Loures”. Das freguesias do concelho de Vila Franca de Xira Vialonga é a mais próxima da tradição saloia e por isso um “parente pobre” do concelho”. Nas actuações os vialonguenses usam trajes ribatejanos e saloios e aquando dos convites para actuar em terras longínquas são apresentados como um rancho ribatejano. Na sua mente são algo dos dois. “Antigamente, o famoso queijo de Arcena, também se zazia em Santa Eulália (freguesia de Vialonga) e o vinho de Bucelas também era extraído das uvas das encostas no Monte Serves. Vialonga não soube puxar a brasa à sua sardinha”. O rancho da casa do povo sabe e sobrevive.
O grupo etnográfico que persegue a história

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