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Avivar a memória da guerra tabu

Edição de 10.09.2009 | O Mirante dos Leitores
Na década de 60 do século passado, o destino dos jovens do nosso país, quando na idade de cumprir o serviço militar, era serem mobilizados para a guerra colonial. Assim aconteceu comigo. Fui mobilizado para a Guiné em 1969. Fui de rendição individual, o mesmo é dizer que fui render um jovem soldado que sucumbiu em combate.Muitos dos que viveram esta guerra têm carregado consigo, durante estes anos, o resultado de determinados traumas. Em vários momentos senti vontade de intervir e opinar sobre a guerra colonial, mas tenho de confessar que mesmo sentindo esse desejo como ex-combatente, nunca me foi fácil abordar essa temática, até porque, em meu entender, o pouco que se debateu sobre ela raramente foi às questões de fundo. A discussão foi sempre ineficaz e insuficiente. Isso levou à falta de uma melhor consciencialização do país sobre a guerra colonial. Daí termos hoje entre os sem-abrigo um número significativo de ex-combatentes. O problema só não é mais grave porque muitos, infelizmente, já faleceram. Quando comparados com outros povos europeus, é habitual colocar os portugueses como os que mais sofrem com os sintomas de depressão e é por vezes costume associá-los a vários factores, nomeadamente de ordem política, económica, social e cultural. No entanto, é pouco referido o facto de termos vivido, num determinado período da nossa história, uma guerra colonial. Não me considero a pessoa mais indicada para abordar um tema desta índole, tão delicado e de tamanha importância. Não obstante, como ex-combatente, julgo ter algum conhecimento de causa. Se o faço, é nessa qualidade e como testemunho de um cidadão preocupado por constatar que, nos tempos que correm, isso é cada vez mais um tabu para os responsáveis políticos.Continuam a ser notórias as dificuldades encontradas pelos sucessivos governos para melhoria e pagamento do miserabilíssimo subsídio anual aos ex-combatentes. E seria mau se, por motivos economicistas, déssemos o dossier da guerra colonial por encerrado.Francisco Ferreira Martins

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