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Busto do responsável pela criação do concelho do Entroncamento em frente à câmara

Busto do responsável pela criação do concelho do Entroncamento em frente à câmara

Homenagem a José Duarte Coelho nos cinquenta anos do final da sua carreira política

Primeiro conseguiu a criação da freguesia do Entroncamento. A seguir fez com que fosse elevada a concelho. Não aceitou ser o primeiro presidente da câmara e diz-se que “morreu esquecido por quem muito ajudou”.

Um busto de José Duarte Coelho, responsável pela criação da freguesia do Entroncamento e pela sua elevação a concelho, foi inaugurado em frente ao edifício da câmara municipal na tarde de sábado. A homenagem, contestada pelo Bloco de Esquerda (ver caixa), acontece na altura em que passam cinquenta anos sobre o final da carreira política do homenageado. “A figura de José Duarte Coelho é incontornável no que diz respeito à história do Entroncamento”, recordou o actual presidente do executivo municipal, Jaime Ramos (PSD), momentos depois de a escultura ter sido destapada por um elemento dos Bombeiros Voluntários do Entroncamento (organização fundada pelo homenageado) e uma criança do grupo 84 dos Escoteiros de Portugal, de que José Duarte Coelho foi presidente. O autarca afirmou que o homenageado foi também responsável pela afirmação do concelho na região “graças à liderança que soube imprimir, bem como à sua habilidade negocial, importantíssima para o apoio que recebeu para dotar a localidade com equipamentos fundamentais (…)”.A jornalista Ana Geraldes que apresentou uma exposição sobre José Duarte Coelho que pode ser vista até 25 de Setembro no átrio do edifício dos passos do concelho, chamou-lhe “herói local”. “Atraiu comerciantes com feiras e mercados. Criou um mercado diário. Fez estradas, passeios, jardins, bairros residenciais modelares e escolas. Conseguiu um hospital. Esteve na fundação dos bombeiros, escuteiros. Não se limitou a sonhar. Deitou mãos à obra”.“Antes de morrer no hospital do Entroncamento, um grande amigo disse-lhe que se ele deixassem levá-lo para Lisboa, tinha a certeza que duraria mais alguns dias. Que poderia ficar curado. Mas ele disse que queria morrer no Entroncamento. E ele não tinha nascido no Entroncamento. Nasceu na Ribeira de Santarém”, contou Ana Geraldes.O Entroncamento passou a ser freguesia a 25 de Agosto de 1926 e em 24 de Novembro de 1945 foi promovida a concelho. Jaime Ramos lembrou que quando da criação do concelho, José Duarte Coelho não aceitou ser presidente, indicando para o cargo Jacinto Marques Agostinho. Só com o afastamento do primeiro presidente, devido a doença, é que José Duarte Coelho ocupou o cargo, tendo tomado posse a 15 de Novembro de 1947 e mantendo-se em funções durante 12 anos. A homenagem foi, segundo o presidente da câmara, uma forma de fazer justiça a um homem que “faleceu em 15 de Janeiro de 1976 abandonado e esquecido por muitos daqueles que ajudou e por quem lutou”.PCP fala em “arte de branquear o fascismo” Já próximo do fecho desta edição, na tarde de dia 8, terça-feira, recebemos um comunicado da concelhia do PCP do Entroncamento, que considera a inauguração do busto de José Duarte Coelho “mais uma peça na ‘arte’ de branquear o fascismo”, inserida noutras iniciativas como o programa televisivo “Grandes Portugueses” e afirma que “o sector mais reaccionário e saudosista do PSD local, como principal promotor dessa iniciativa, não tem legitimidade democrática para a levar por diante”.Bloco de Esquerda contra homenagem A colocação do busto de José Duarte Coelho em frente ao edifício sede da câmara do Entroncamento, foi criticada pelo Bloco de Esquerda. Primeiro através de um comunicado, emitido na véspera do acto e mais tarde através de uma declaração lida pelo vereador Carlos Matias na reunião do executivo de segunda-feira, dia 7. Aquele partido considera que se está a homenagear um “servidor da ditadura”.O BE diz que José Duarte Coelho “foi um homem de mão do regime fascista, um presidente de Câmara nomeado pelo Ministro do Interior, num país em que não havia eleições livres” e acusa-o de ter alinhado claramente “pelos que perseguiam os que então lutavam pela democracia”. A seguir ao 25 de Abril de 1974 o Entroncamento não registou muitos casos de alteração da toponímia associada a nomes do antigo regime. O viaduto sobre a linha de caminho-de-ferro, por exemplo, manteve o nome Eugénio Dias Poitout (último presidente da câmara antes da revolução), o largo fronteiro à câmara, onde agora foi colocado o busto, continuou a ter o nome de José Duarte Coelho e no salão nobre dos paços do concelho mantiveram-se nas paredes duas placas de mármore de grandes dimensões onde é prestada homenagem a dezenas de pessoas ligadas ao anterior regime, que contribuíram para a criação do concelho. Numa dessas placas são mencionados, entre outros, o Tenente-Coronel Júlio Botelho Moniz, Ilustre Ministro do Interior (citado no comunicado do BE), bem como o Governador Civil de Santarém da altura, Tenente-Coronel José Maria Rebelo Valente de Carvalho.Em Dezembro de 2003, a decisão de colocar, no salão nobre, as fotografias de todos os ex-presidentes da câmara, foi contestada pelo então vereador da CDU, António Ferreira mas o vereador do Bloco de Esquerda na altura, Henrique Leal, não se associou ao protesto. Embora tenha lamentado não sido consultado, disse considerar possível “preservar a memória contextualizando-a em relação à época” e que para ele a memória da história não tinha que ser necessariamente partidarizada.Agora a Comissão Coordenadora do Bloco de Esquerda do Entroncamento defende que “a suposta objectividade histórica do argumento de que ‘apenas’ se tratará de homenagear o fundador do concelho não passa de um manto diáfano que mal esconde uma operação de lavagem da ditadura que José Duarte Coelho dedicadamente serviu”.
Busto do responsável pela criação do concelho do Entroncamento em frente à câmara

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