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Márcio Simplício é o recuperador físico na equipa técnica de Jorge Jesus

Márcio Simplício é o recuperador físico na equipa técnica de Jorge Jesus

Aos 30 anos o almeirinense é recuperador físico dos jogadores do Benfica

A simplicidade com que fala da sua carreira ao serviço do mais alto escalão do futebol nacional contrasta com a ambição que o fez chegar à equipa técnica comandada pelo treinador Jorge Jesus. Márcio Simplício, é natural de Almeirim e é considerado como um dos melhores recuperadores físicos em Portugal. Mas não quer estar ligado ao futebol para sempre, a sua ambição passa por conseguir juntar dinheiro para montar, na zona, uma clínica de recuperação física aberta a toda a gente. Fernando Vacas de Jesus

Edição de 02.12.2009 | Entrevista
É ainda um jovem em idade de poder jogar futebol ou praticar outra modalidade, como é que é já um treinador credenciado?Joguei futebol nos clubes aqui da zona. Comecei no São Roque, um clube que já não existe. Mas nunca fui um grande jogador. E a minha vida cedo mudou para Lisboa, onde os estudos me absorviam o tempo quase todo. A modalidade onde efectivamente andei mais tempo foi o taekwondo.Então como é que aparece como treinador no futebol?Nunca tirei curso de treinador de futebol. A minha área foi sempre a educação física. Formei-me em educação física em Lisboa, depois fui para Espanha fazer um mestrado na Real Federação Espanhola e no Instituto Nacional de Educação Física em Barcelona, onde tirei duas especializações, uma em preparação física e outra em recuperação física. Em Portugal o mestrado em recuperação física não existe. Nessa altura já sonhava ou pensava em fazer carreira no futebol ao mais alto nível?Não. A minha chegada ao futebol até começou muito por baixo e de uma forma engraçada. Fui dar aulas para o Algarve e até há cinco anos atrás, não sabia bem o que queria fazer. O ensino não me satisfazia. Queria estar no desporto a outro nível, mas não sabia bem como e de que forma.Como é que acabou essa indecisão?Um dia recebi um convite para jogar futebol no Boliqueime. Uns dias mais tarde, o meu irmão, que também joga futebol interrogou-me porque é que eu não ia para preparador físico, e logo comecei a ajudar o clube nessa área. As coisas correram bem começámos a ter bons resultados e a partir daí comecei a traçar metas. E prometi a mim mesmo que dentro de dois anos ia estar na segunda liga.As coisas afinal correram ainda melhor do que as metas traçadas?É verdade. Em Janeiro fui contratado pelo Ferreiras, que já era da primeira divisão distrital, e fomos campeões e o clube subiu à terceira divisão nacional. As coisas estavam a andar mais depressa do que eu pensava, num ano subi dois degraus. Nessa altura era treinador ou somente preparador físico?Nunca fui treinador de futebol. Não tenho curso de treinador nem quero ser treinador. De qualquer modo o ensino nunca foi uma opção muito apreciada?Não. Penso que cada macaco no seu galho, se posso ser um bom preparador ou um bom recuperador físico, porque é que hei-de ser um mau treinador ou um mau professor. No mundo do futebol só conheço um caso de sucesso de um preparador físico que deu num bom treinador, foi o do brasileiro Carlos Alberto Parreira, no resto só conheço falhanços. E em Portugal temos muitos casos desses. O Jorge Castelo, o Carlos Azenha e o José Gomes, são exemplos claros de que podemos ser bons na nossa área, e úteis ao futebol.Uma equipa técnica dos clubes de topo do futebol nacional são muito ecléticas, têm que ter pessoas especializadas em várias áreas?Sim. E em relação a mim os treinadores de futebol com quem trabalhei, trabalho e virei a trabalhar no futuro, sabem logo à partida que não tenho qualquer pretensão de vir a ser treinador. Quero sim ser cada vez melhor na área da recuperação física. Nunca irei estar à espera que ele saia para ficar com o seu lugar.Não passou do Ferreiras para a equipa técnica de Jorge Jesus?Não. Tive uma passagem pelo Silves, na segunda divisão nacional e depois fui convidado pelo mister Florys, para ir para o Olhanense onde trabalhei com o Diamantino e o Jaime Magalhães. Em três anos passei da segunda distrital à Liga de Honra. Foi o seu trabalho no Olhanense que deu nas vistas e o levou a ser convidado por Jorge Jesus?Em parte sim. No Olhanense conheci aquele que, para mim, é o melhor fisioterapeuta português, o Fernando Belo e fiquei muito amigo dele e em conversas com ele nunca escondi a minha ambição de ser profissional de futebol na área da recuperação física. O Fernando Belo é muito amigo de Jorge Jesus. Na altura em que estava para sair do Olhanense - Jorge Costa levou com ele um preparador físico -. Calhou que nessa altura Jorge Jesus, que estava para ir para o Braga, telefonou ao Fernando Belo para lhe arranjar uma pessoa para o sector da recuperação, e ele indicou o meu nome.Foi assim tão fácil?Não foi assim tão fácil. Tivemos muitas reuniões, fui convidado a apresentar um projecto. Fui posto à prova e finalmente chegámos a acordo e fui com o Jorge Jesus para o Sporting de Braga. Foi aí que começou efectivamente a minha carreira de recuperador físico.Deixou o ensino para ir para Braga?Sim. Deixei tudo para ir para Braga. Foi uma decisão difícil mas que felizmente tudo tem corrido muito bem. O êxito de Jorge Jesus no Braga foi também nosso. Ele é uma pessoa de uma simplicidade fantástica, é exigente, sabe ler em todas as áreas, discute em todas as áreas, mas também em termos de afinidade é de uma dedicação extraordinária e faz questão de dividir os seus êxitos com os elementos da sua equipa técnica.Qual é efectivamente a sua missão no interior da equipa técnica?Faço a ligação entre o posto médico e o trabalho de campo. Ninguém entra para a equipa se não estiver a cem por cento. Depois faço a recuperação pós treino e pós jogo. É um trabalho muito específico e temos que saber a forma de trabalhar com cada jogador.Teve que estudar e trabalhar ainda mais do que fazia até então?Sim. A responsabilidade era muito maior. No Sporting de Braga existe uma organização de grande categoria. Atrevo-me a dizer que o Braga só perde para os grandes em números de massa associativa. No resto é igual ou até melhor do que alguns deles. As pessoas esquecem-se que na época de 2008/2009 o Braga venceu uma taça europeia, a Taça Intertoto, ombreando com grandes equipas do futebol europeu. Foi uma mudança radical na sua vida?Estava habituado a mudanças. Mas a ida para Braga foi a que mais me custou até hoje. Tive que deixar tudo para trás, a família e os amigos. Mas tudo se superou com os êxitos alcançados.Já conhecia o Jorge Jesus?Não, conheci-o na altura do convite. Mas acabei por conhecer um grande homem em todas as áreas. Jorge Jesus é um grande amigo. É exigente e sabe reconhecer quem trabalha com ele. É capaz de gestos de humanidade excepcionais, é capaz de dar a mão a quem precisa quando as outras pessoas olham para o lado ao passarem. Faz tudo pela família. Não é nada como as pessoas a vêm. É muito humilde.O salto para o BenficaQuando surgiu o convite do Benfica, Jorge Jesus falou logo convosco?Jorge Jesus subiu a pulso, não teve a ajuda de ninguém. Eu e os restantes elementos da equipa técnica, lutamos todos os dias para o ajudar e ele retribui-nos com a sua confiança. Quando surgiu a hipótese de ir para o Benfica colocou sempre a sua equipa técnica em destaque. Não o surpreendeu o convite de um clube de tão grande dimensão?Não me surpreendeu. Jorge Jesus é um grande treinador em qualquer parte do mundo. Está uns passos à frente de quase todos os treinadores portugueses. Merecia uma oportunidade destas há muito tempo. Tenho a certeza de que vai fazer um grande trabalho no Benfica e acredito que dentro de alguns anos vai estar a trabalhar no estrangeiro, numa grande equipa.O que o surpreendeu mais nesta mudança?Não tive uma grande surpresa. O Braga tem uma organização ao nível dos grandes. Apenas a exposição mediática no Benfica é maior. Mas aí é o Jorge Jesus que dá a cara, nós trabalhamos na sombra. Daí que a mudança não tenha sido muito grande ou difícil. Até porque voltei para mais perto da família. Almeirim, o futebol distrital e as ambições futurasAlmeirim é o seu refúgio fora do futebol?Sou almeirinense de gema. Gosto muito da cidade. Tenho aqui os meus amigos e a minha família. Não abdico de continuar a viver em Almeirim. E gosto de passar despercebido.É por querer passar despercebido que o seu trabalho ainda não foi reconhecido em Almeirim?Talvez sim. Sinto-me um pouco decepcionado por nunca ter tido uma palavra de algum responsável pelo desporto no concelho. Acima de tudo porque o ano passado ajudei a ganhar uma prova europeia no futebol sénior. Os meus amigos e as pessoas de Almeirim que acompanham o futebol conhecem o meu trabalho.Já teve algum contacto com clubes do distrito?Já me ofereci desinteressadamente aos clubes de Almeirim para colaborar desinteressadamente em tudo o que estiver dentro da minha área. Neste momento colaboro com clubes onde trabalham amigos meus, na área do futsal e já tive um jogador do Fazendense que foi a Braga para ver um problema que tinha num joelho. Não me escondo nem critico pelo prazer de dizer mal. Penso que os clubes podiam aproveitar melhor a minha disponibilidade. Costuma acompanhar o futebol no distrito de Santarém?De certo modo sim. Às vezes vou ver o União de Almeirim.Como vê o momento mau que o futebol vive no distrito?Se calhar vou levantar alguma polémica, mas tenho que dizer o que sinto. Digo sempre o que penso, e a minha visão do futebol distrital é que está estragado. Vejo com tristeza o estado em que está o União de Almeirim e outros clubes do distrito. O futebol do distrito de Santarém bateu no fundo.Na sua opinião de quem é a culpa dessa situação?É dos dirigentes. Não posso aceitar que um treinador do futebol juvenil não receba uma compensação pelo seu trabalho. Não aceito que um clube que não tem receitas suficientes para fazer face às despesas normais vá contratar jogadores e treinadores fora da terra a pagar balúrdios. Como é que resolvia esse problema?Resolvia com planeamento, trabalhando forte na formação e jogando apenas com quem quer representar o clube. Quem não paga o primeiro mês ao plantel, já nunca mais vai ter hipóteses de pagar. Um clube que não tenha hipóteses de estar na divisão principal não deve ter vergonha de vir para a segunda. Mas os jogadores também querem é ganhar sempre o mais possível?Também aí tenho uma ideia diferente. Penso que os jogadores antes de irem para qualquer clube pelo dinheiro, deviam primeiro saber se esse clube tem ou não um bom posto médico. E também verificar se o clube que lhes oferece mundos e fundos, nas épocas anteriores cumpriu com o prometido. Se não cumpriu nunca deviam assinar. Se assinam também são culpados pelo futebol ter chegado ao que chegou no distrito de Santarém.Não há jogadores e treinadores a mais, em Portugal e no distrito?Há. Mas a culpa é dos regulamentos em Portugal. Sei que no estrangeiro um treinador que rescinde com um clube e recebe tudo o que tinha para receber, já não pode voltar a treinar nessa época. Aqui não, saem de um clube e vão para outro sem problemas, recebendo assim de um lado e do outro, tapando a entrada de novos treinadores.A nível distrital penso que há menos qualidade do que quantidade.Atingiu o patamar mais alto no futebol nacional, qual é agora a sua ambição?É claro que é ver a minha equipa campeã nacional. Mas a minha principal ambição não se esgota no futebol nacional. Gostava de ter uma experiência no estrangeiro. E gostava de um dia ter condições para montar uma clínica de recuperação física aqui em Almeirim.
Márcio Simplício é o recuperador físico na equipa técnica de Jorge Jesus

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