Edição de 2010.08.12 1ª página Festas de Nossa Senhora do Castelo A menina de Lisboa que chocou Coruc ...
A menina de Lisboa que chocou Coruche nos anos setenta
Luísa Portugal foi directora do centro de saúde, deputada, autarca e agora gere o ACES da Lezíria II
Chegou a Coruche em 1979 e não foi bem recebida apesar de ser casada com um filho da terra. Lisboeta, imagem típica dos anos sessenta com cabelo pela cintura, Luísa Portugal foi motivo de falatório. Impôs-se pelo trabalho. Foi directora do centro de saúde, foi deputada e agora dirige o Agrupamento de Centros de Saúde da Lezíria II, que engloba os Centros de Saúde de Chamusca, Alpiarça, Almeirim, Coruche, Benavente e Salvaterra de Magos e onde trabalham 400 pessoas. Passou de doutora a gestora e diz que gosta.
Neste momento é gestora, não é médica. Em vez de medicina devia ter um curso de gestão.E tenho. Fiz medicina, fiz a especialidade em saúde pública que já dá algumas competências em termos de gestão de saúde e de organização de serviços e depois fiz um curso de gestão no Instituto Nacional de Administração e fiz um curso de gestão na Lusófona, dirigido especificamente para os serviços de saúde. Se soubesse o que sabe hoje, provavelmente tinha ido logo para gestão em vez de tirar medicina.Acho que estas coisas têm um “timing” em termos profissionais. Acho que me fizeram muito bem os primeiros anos em que fiz medicina directa; fez-me muito bem uma fase a seguir em que olhei a medicina pelo lado da política. E estou preparada neste momento para fazer a gestão. Acho que estou bem assim. Os médicos queixam-se que têm muito do seu tempo ocupado com tarefas burocráticas. Concordo, mas já não é tanto. Agora, como sabe as pessoas para irem para o ginásio ou para a piscina assumem a responsabilidade. Já não precisam do papel. Por outro lado os serviços estão informatizados. Avançou-se muito. Há médicos que são chamados à atenção por receitarem muito. Muito e muito caro. Estou a falar mais no muito. Há médicos em meios onde a população é idosa que são confrontados com a quantidade de medicamentos que prescrevem. São pressionados para não receitar. Nem sempre é assim. É preciso ver com que finalidade é que fazemos isso. A maioria dos médicos não sabe aquilo que prescreve ao fim de um mês e portanto tem que se lhe dar esta informação. O médico sabe que o que passou era o que tinha que passar. Ou não é assim?Não sei. Nós temos que ver isto tudo em termos de comparação dos colegas uns com os outros e eu dou-lhes esta informação para eles próprios se compararem com os outros. Médicos com o mesmo perfil de doentes, com mesmo número de utentes, com mesmo número de consulta… há uns que gastam ao serviço nacional de saúde três vezes mais que outros. Há qualquer coisa que não está certa. Os profissionais de saúde estão desmotivados por circunstâncias várias. Por serem menos; por estarem sobrecarregados de trabalho; porque a população descarrega neles as queixas que têm contra o Serviço Nacional de Saúde. Tal como a nossa população em termos gerais está muito envelhecida, acontece o mesmo com a população médica. A minha média etária no agrupamento ultrapassa os 50 anos. Isto quer dizer que não estou a ter gerações novas para renovar. Neste momento diz-se que há uma reforma em curso e há de facto. Mas os colegas que cá estão já ouviram tantas vezes dizer isso que a coisa já começa a ser mais complicada. Depois a grande escassez de médicos faz com que lhes seja pedido um acréscimo de trabalho, não tenho dúvida. Muitos estão a optar por se reformarem. Alguns acham que é o melhor para eles. Tenho esse problema no agrupamento. Tenho 5 médicos com pedido de reforma sendo que no ano passado se reformaram 2. E não consigo substituí-los porque os mais novos não ficam. Qualquer dia os centros de saúde estão a funcionar apenas com recurso a empresas de prestação de serviços.Já tenho alguns locais em que isso me acontece. Estou preocupada com mais um ou dois locais em que vou ter problemas a breve trecho se as pessoas se reformarem. Um deles é Salvaterra de Magos. Percebe-se que ao nível da saúde a parte economicista acaba por ter muito mais influência nas decisões do que a parte social e humana. Não é bem assim. Mas nós em Portugal temos a ideia de que a saúde não se paga. Não é verdade. A saúde paga-se e muito.Há 20 anos houve um surto de construção de instalações que agora estão fechadas.Mas veja que não havia nada. Há 30 anos quando eu vim para Coruche não havia nem médicos nem equipamentos. Havia uns serviços médico-sociais que eram numa garagem onde se faziam consultas da caixa. Havia um hospital da Misericórdia que funcionava mais como lar porque as pessoas que lá estavam já eram todas acamadas e muito idosas. E não havia mais nada. As coisas são dinâmicas. Quando fui directora do Centro de Saúde de Coruche fiz alguma força para abrir uma extensão na Branca e só não abriu porque não tive médico para lá pôr. Na altura a terra tinha 1.500 utentes e neste momento tem 800. A questão é esta. Coruche era uma terra muito fechadaComo foi a sua vinda para Coruche?Em Coruche fiz política sempre através da medicina. O meu lema era privilegiar os mais necessitados, organizar os serviços de forma a dar-lhes resposta, ter sempre um pé na gestão e um pé na prestação directa. Foi um choque muito grande vir de uma cidade e chegar aqui?Foi uma decisão muito pensada. Claro que não foi fácil. Havia uma coisa que eu sabia quando estava em Lisboa. Não queria ser médica do hospital. Eu gostava de estar cá fora com as pessoas, não podia tratar de um número de cama. Tinha que tratar da senhora Antónia, do Francisco. Quando fui para a periferia experimentei essa realidade. Mas posso dizer que nos primeiros meses não foi fácil, apesar de ter cá família, de ter os meus filhos e o meu marido.Porquê?Coruche era um ambiente muito fechado. Eu venho dos anos 60, tenho todos os tiques das pessoas dessa época. Chego a Coruche e sou médica. O ser médica aqui era ser uma pessoa de referência, quer queiramos quer não. Mas eu era uma médica que usava chinelas, que usava saias compridas, que tinha um cabelo até à cintura, que brincava com os filhos no jardim, que ia à praça às compras. Numa primeira fase incomodava-me principalmente a forma como as pessoas me olhavam. Quando vinham à consulta eu era a médica, mas lá fora havia um ar de desconfiança. Ainda por cima eu era nora de uma pessoa muito tradicional e penso que muito querida em Coruche, que era dono de uma mercearia, o Faustino Capaz. O seu marido também veio trabalhar para cá?Não teve tanta dificuldade mas também não foram só facilidades. Ele foi a primeira pessoa de uma família de referência a andar de sandálias. Um vizinho uma vez disse-lhe que andar de sandálias não era muito próprio, por exemplo. Não pinta o cabelo. É por opção. Por comodismo? Também. Já tenho cabelos brancos desde os 30 anos, já me habituei. Nunca me preocupei muito com a idade que tenho. Há uns dias que dizemos que gostávamos de ter 30 anos e voltar a fazer não sei o quê. Mas tenho estado bem com a idade que tenho. Os meus melhores anos foram os quarentas, quarentas e muitos. Se calhar porque tinha os filhos crescidos e portanto já podia fazer outras coisas. Tenho dois rapazes e dois netos.É frequentadora das festas de Coruche?Sou um bocadinho despegada. Gosto de ir à inauguração e de vez em quando passo por lá. Vou ver alguns espectáculos e vou jantar às tasquinhas. Mas sinto que as festas são importantes. Fazem-me sentir que pertenço aqui. Que isto também é meu. Não sou de cá mas sinto-me perfeitamente adaptada. E touradas? Não sou uma especial aficionada. Se me perguntar se já fui a alguma digo-lhe que fui a duas ou três. Gosto de ir lá para ir ver como é. Sou pouco fundamentalista na maioria das coisas. Sou muito de consenso de discutir as coisas comigo própria. Divirto-me muito com as garraiadas porque acho que as pessoas que estão lá dentro também se divertem. Gosto do cortejo etnográfico, acho que é uma pesquisa importante e que mostra de onde é que Coruche veio. À procissão nunca vou. Há quem não goste da requalificação da zona ribeirinha. Eu acho que a zona ficou muito melhor. Não tem qualquer comparação. Gosto do espaço. É um espaço que pode ser ocupado de várias formas. É um espaço que deu alguma ordenação ao estacionamento. Ficou bonito. Coruche ficou mais relacionada com o rio. Antes era o rio que se relacionava com a vila. Ele é que vinha até cá quando galgava as margens. Isso foi um benefício enorme para a vila. Coruche não tinha muitos espaços de lazer e de encontro.“O meu Partido do coração é o MES”Começou a interessar-se por política quando?Antes do 25 de Abril houve alguns problemas na minha faculdade. A PIDE chegou a entrar no hospital de Santa Maria. Mas foi já em 1974, quando estava no meu quarto ano. Francamente só a partir do 25 de Abril é que comecei a interessar-me por política. Antes era mais a questão reivindicativa estudantil, as condições de ensino, as condições de trabalho no hospital de Santa Maria. A sua orientação foi logo para o PS?Não. Entro no PS quando o Ferro Rodrigues se candidata a secretário-geral. Entrei eu e o Vieira da Silva. Comecei no Movimento de Esquerda Socialista. Aliás é o meu único partido pensado. É o meu partido do coração como se costuma dizer. Era um partido que tinha gente de todas as condições, éramos capazes de nos ouvir uns aos outros, de nos tratar mal uns aos outros, de construir coisas em conjunto. Primeiro meteu-se na medicina e depois na política.Estar organizada em termos políticos só quando surgiu o convite para ir para a Assembleia da República.Entrou na lista de candidatos do PS por causa das quotas das mulheres? Se calhar foi. Lembro-me que a primeira lista em que concorri, em 1999 fui colocada em quarto lugar porque o PS tinha decidido que havia de ter uma mulher em quarto lugar. Fui convidada e na altura não foi uma coisa que me agradasse muito. Mas depois pensei que se calhar tinha um papel a fazer. O desafio da altura tinha muito a ver com a condição feminina, com o papel das mulheres, com as questões relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Isso convenceu-me a experimentar. Entrei como independente e só mais tarde é que me filiei.E a experiência como foi?Não foi fácil. Quando cheguei a maioria das pessoas já lá estavam há muito tempo. Eu conhecia toda a gente e ninguém me conhecia, nem ninguém me falava. Eu sempre achei que era uma técnica na política e portanto não sei falar de tudo, recusava-me a falar de tudo. Podia manifestar algum tipo de opinião mas em termos de intervenção sempre me recusei a falar daquilo de que não sabia o que estava a dizer. Fez sempre os mandatos todos?Fiz dois mandatos que não chegaram ao fim. O primeiro foi porque o Guterres saiu. O segundo foi porque a Assembleia foi dissolvida no tempo do Santana Lopes. Mas foi muito gratificante. Porque tive as duas experiências. Estive no poder, embora sem maioria absoluta e estive na oposição. Lembra-se da primeira vez que falou no plenário. Acho que foi uma pergunta ao Governo. Uma pergunta ao governo quando pertencemos ao partido do governo é o mais fácil. Depois fez parte da Assembleia Municipal de Coruche. Fui desafiada para concorrer a presidente da câmara mas não tenho vocação de autarca executivo. Sou mais para um planeamento mais largo, mais vasto, mais macro. Não tenho características de um trabalho muito local, muito localizado. Gosto de ter horizontes mais largos. Não aceitei mas aceitei a assembleia municipal. Na altura em termos políticos era importante.Do que não gostava na Assembleia Municipal?Não gostava das pessoas que queriam trazer as polémicas políticas nacionais para o discurso local. Houve um período em que não era bem vista nem pela oposição nem pelo PS, mas quem está a dirigir uma assembleia tem este problema. Tem um discurso muito directo, muito prático. Como é que dava com os jogos de bastidores…Não me dei muito bem. Costumo dizer que prometo as coisas quando tenho a certeza que sou capaz. Senão digo vamos trabalhar em conjunto para. As coisas que são muito feitas nos bastidores a mim nunca me agradaram muito. E se calhar não é só isso. Para ter o meu percurso pessoal e para ganhar o meu dinheiro nunca precisei de estar por dentro de jogos políticos. E isso deu-me sempre muita liberdade. Há liberdade em Portugal? Estamos num país em que há liberdade. Não tenho dúvida. Penso que não volta atrás. O que acho é que há muitas pessoas que se auto-censuram. Que não dizem espontaneamente aquilo que poderiam dizer. Ou porque pensam que o emprego está em risco, ou porque não querem arranjar chatices. Isso não quer dizer que o valor liberdade não esteja presente. A liberdade é a escolha. É o poder dizer ou não. Se não puder de todo dizer, aí não tenho liberdade, agora se puder escolher o valor liberdade existe. A boa alunaNasceu em Lisboa a 16 de Setembro de 1951 e foi lá que passou a infância, a adolescência e parte da idade adulta. Chama-se Portugal e gere um agrupamento de Centros de Saúde mas não tem qualquer relação familiar com Rui Portugal, o actual presidente da Administração de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. É a mais nova de três irmãs e só foi para medicina porque era muito boa aluna e teve direito a uma bolsa de estudo. E porque começou a trabalhar enquanto estudava. “A minha família não tinha posses para eu estudar. O meu pai era condutor dos eléctricos da Carris. A minha mãe era empregada de limpeza analfabeta. Vivíamos numa zona entre Algés e Linda-a-Velha”.Enquanto jovem interessou-se por música e fez parte de um coro académico na universidade. “Gostava muito de ter aprendido música mas nunca foi possível. Também gostava de fazer teatro e um pouco mais nova jogava basquetebol, cheguei a ser iniciada no Benfica porque a professora do liceu onde eu estava, que era o liceu de Oeiras, era treinadora no Benfica. Mas foi tudo passageiro”.
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