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Quando as mulheres ganhavam o mesmo que os homens na fiação de lãs de Vila Franca de Xira

Quando as mulheres ganhavam o mesmo que os homens na fiação de lãs de Vila Franca de Xira

Maria José Mendes amamentou a filha nos intervalos do trabalho

Aos seis anos arrumava cozinhas em troca de um tostão. Aos 16 tornou-se operária da Fábrica de Fiação de Lãs, em Vila Franca de Xira. Maria José Mendes amamentou a filha no intervalo das meadas de lã. Não chegou a beneficiar do infantário que o o industrial José Maria Ferreira Delgado ajudou a criar para as operárias terem onde deixar os filhos, mas ganhou, como outras mulheres, o mesmo ordenado dos homens. O patrão queria colocar as operárias ao mesmo nível para que fossem “respeitadas”.

Edição de 20.04.2011 | Sociedade
Começou a trabalhar aos seis anos em casas de senhoras de Vila Franca de Xira. Arrumava cozinhas em troca de um tostão. Subia um caixote e debruçava-se sobre o alguidar em cima da mesa. Não havia água canalizada nem electricidade, recorda Maria José Mendes aos 84 anos. Depois a família de César Pereira, onde também trabalhou, aconselhou-a a procurar emprego na Fábrica de Fiação de Lãs de Vila Franca de Xira para que garantisse assim sustento “para quando fosse velhinha”. Lá trabalhou 17 anos. É com a pensão de antiga operária que hoje sobrevive sozinha num segundo andar do centro da cidade. O patrão, o industrial José Maria Ferreira Delgado, pagava às mulheres o mesmo que aos homens. “Queria que fossem respeitadas em sua casa”, conta a neta, Verónica Rufino. Maria José Mendes deixa soltar um sorriso largo, de orgulho, quando pensa na vida inteira de trabalho que aguentou. Escapam-se dois ou três soluços porque a jornada foi verdadeiramente dura. Antes de se tornar operária trabalhou no campo e carregou à cabeça bilhas de água de 10 e 20 litros. O terramoto que atingiu Salvaterra empobreceu a família e empurrou-a para Vila Franca de Xira. É a mais velha de cinco irmãos. Nunca foi à escola. Aprendeu a escrever o nome para ir trabalhar para Inglaterra. Lá deu à filha o que não pôde ter. Inglaterra estava na altura repleta de gente de Vila Franca de Xira.Ainda tinha 16 anos quando entrou como operária para a fábrica. Foi trabalhar das 8h00 às 17h00 ao lado das “velhinhas” que separavam maçarocas de fio cru que seguiam depois para a tinturaria. Aprendeu depressa a fazer meadas de lã, a aplicar as anilhas de papel nos novelos e a envolve-las num papel fino antes da mercadoria sair directamente para as lojas. “Meadinhas com uns carimbinhos. Três meadas para cima e três para baixo”, diz maquinalmente como se ainda se dedicasse ao trabalho. Lã de angorá. Suave o suficiente para fazer casaquinhos de bebé. Era uma das operárias mais jovens da época da fábrica. Quando nasceu a filha ainda não existia o infantário que o industrial José Maria Ferreira Delgado criou com o padre Moniz para que as mulheres trabalhadoras tivessem onde deixar os filhos. Duas irmãs mais novas tomavam conta da sua menina. Maria José Mendes amamentou a filha nos intervalos das meadas de lãs. Foi também na fábrica que a procurou o pai depois de uma longa ausência por causa de uma viagem no navio até ao Oriente. A casa onde morava com a mãe e os cinco irmãos não tinha água canalizada ou electricidade. Não sabe ainda como a menina Maria Helena, filha do industrial, hoje com 83 anos, subiu as velhas e escuras escadas de madeira, acompanhada por duas meninas da Igreja, para levar-lhe 40 escudos. “Sabia da minha vida”, calcula. Era Maria José Mendes que garantia o sustento da casa e dos irmãos já que o padrasto pouco deixava em casa. “Ia dar de comer aos meus irmãos e à minha mãe. Estava cada um com o seu pratinho na mão. De repente ouço um barulho nas escadas. Fiquei a tremer. Era ela com mais duas meninas da Igreja”, conta com gratidão.Mais tarde o industrial disponibilizou aos funcionários o almoço na fábrica. Maria José Mendes não usufruiu da regalia. Tinha que ir aproveitar o intervalo para dar assistência à mãe que ficou paralisada depois de um trombose. Puxava-la pelas pernas e encostava-a à parede para dar-lhe de comer. Depois voltava a deitá-la.Esteve em Inglaterra apenas quatro anos. Os ciúmes do marido trouxeram-na para Portugal. No coração Maria José Mendes guarda a forma como foi tratada, a aba de grilo do porteiro cortês e o trabalho na casa da duquesa de Kent. “Soube há pouco tempo que tenho o retrato dela assinado: Para a Maria com amor”Filha de industrial reuniu antiga operária e afilhadas Uma entrevista de O MIRANTE à filha do industrial da Fiação Nacional de Lãs, em Vila Franca de Xira, publicada a 19 de Agosto de 2010, impulsionou um encontro entre Maria Helena Rufino, a operária Maria José Mendes e duas afilhadas da família de José Maria Ferreira Delgado.Foi no domingo, no restaurante Kottada, que Maria Helena Rufino, pintora, reencontrou na companhia da filha e do marido velhas amigas que já não via há mais de meio século. À mesa, de que se abeirou atenciosamente Fernando Arguelles, o gerente do restaurante, sentaram-se outros amigos, como Pedro Miguel Gil, empresário da Residencial Flora e que em tempos explorou o restaurante “O Recanto do Ti Pedro”, em Vila Franca de Xira.As filhas do motorista tornaram-se afilhadas da famíliaSeis dos nove filhos do motorista de José Maria Ferreira Delgado, Arlindo Reis, têm como padrinhos elementos da família do industrial da Fiação Nacional de Lãs. “Ao meu padrinho metia-lhe confusão que os filhos não fossem baptizados”, explica Paulette Reis, hoje com 76 anos. Tinha sete quando recebeu o baptismo. Foi madrinha, aos 16 anos, a filha do industrial, Maria Helena Rufino.“José Maria Ferreira Delgado era muito religioso. Tínhamos que ir à missa todos os domingos”, continua Paulette Reis. “E rezar o terço todos os dias às sete da tarde”, acrescenta a neta do industrial, Verónica Rufino.O pai, Arlindo Reis, chegou a ser mecânico das máquinas de fiacção mas como era funcionário de confiança tornou-se motorista do industrial. Todos os anos os afilhados iam a casa da família pelo Natal buscar presentes. Camisolas feitas na fábrica e outros mimos. Dois dos filhos de Arlindo Reis trabalharam na fiação. As duas irmãs enveredaram pela área da costura.Em dias de passeio a família de Arlindo Reis era convidada para viajar na traineira até à ilha do Lombo do Tejo, em Vila Franca de Xira. Apanhavam ostras enquanto as crianças corriam pelos campos.
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