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“Foi em Ourém que aprendi a ter sonhos”

Cineasta Fernando Lopes regressou à terra da sua infância para ser homenageado pelo município

Realizador de filmes como “Belarmino” (1964) ou “O Delfim” (2002), Fernando Lopes viveu até aos 12 anos em Ourém. De passagem pelo concelho para receber a medalha de ouro municipal, Fernando Lopes recordou a O MIRANTE a terra que conheceu nos seus primeiros anos e onde aprendeu a amar o cinema.

A conversa teve lugar no último dia de Primavera. Café e uma água com gás numa esplanada central de Ourém, de frente para o jardim e a fonte que dão as boas-vindas à cidade. Fernando Lopes fala devagar, saltando muitas vezes entre temas, lembrando outros tempos e pequenas características do período político da sua infância que surpreendem a jovem repórter que o escuta. Os cigarros, tal como as histórias, sucedem-se. Fala-se de Moçambique, da família abastada e republicana, da segunda guerra mundial, da guerra colonial. Rebobina a memória e recupera os jogos de futebol da garotada em Vila Nova de Ourém, o autoritarismo do professor Roque, a tia Margarida, e manifesta a surpresa face ao desconhecimento das novas gerações de ourienses relativamente à sua História.Fernando Lopes nasceu em Alvaiázere, mas com quatro anos foi viver para a então Vila Nova de Ourém. Quem o acolheu em sua casa foi a tia Margarida, cujo último nome já não se recorda, uma cinéfila do seu tempo, “bem preparada culturalmente”. Foi graças a ela, recorda o cineasta, que deu a sua entrada nas obras de Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, entre outros grandes escritores portugueses. “No fim de aprender a ler, ela obrigou-me a lê-los. Agradeço-lhe. Abriu-me os olhos”.Foi com a tia Margarida que também se deu a sua introdução no mundo do cinema. Acompanhando a veia cinéfila da tia, todos os fins-de-semana ia com ela ao então Cine-teatro. “Há dois filmes que me marcaram desse tempo: «Os carrascos também morrem» (1943) e «30 segundos sobre Tóquio» (1944)”, lembra. “A tia Margarida era muito divertida e muito culta para aquela época. Assinava folhetins. Tinha muitos livros e uma cultura literária vasta”. Hoje, Fernando Lopes recorda uma mulher “com uma mentalidade muito aberta, o que era algo inédito” numa região como aquela, tão conservadora e religiosa. “Era muito conhecida aqui do meio, ia com ela ao cinema, os dois sozinhos”.Fernando Lopes tem 75 anos e deixou Ourém aos 12, quando se mudou para Lisboa, indo ao encontro da mãe. “Lembro-me muito bem da escola, que era ao lado da câmara municipal e da prisão. Era onde fazíamos sempre as fotografias da escola e os jogos de futebol. Tínhamos os presos como público”, recorda rindo.A instrução primária foi-lhe dada por uma figura também conhecida da memória de Ourém, o professor Roque. “Era terrível, levei umas reguadas porque fugia à escola para ir jogar futebol”. Sendo o professor que organizava os jogos da bola, viam-se os jovens obrigados a usar camisolas azuis, apesar de a grande maioria ser do Benfica. “Não deixava ninguém usar encarnado, era completamente fascista”.A imagem do professor faz-lhe lembrar um momento marcante que viveu na então Vila Nova de Ourém: final da segunda Grande Guerra, quando houve um desfile em que se hastearam as bandeiras dos vários países aliados, menos a da União Soviética.“A primeira noção que tenho de amizade vem dessa escola e do professor Roque. Fazíamos muita vida em conjunto, inventando histórias do Castelo de Ourém, dos combates com os mouros, das lutas de D. Nuno Álvares Pereira”, que foi também Conde de Ourém. “Levei para os filmes o espírito de relação entre amigos que aprendi aqui em Ourém. E o cinema faz-se em trabalho de equipa, pois são necessárias grandes equipas para se realizar um filme”. Por isso, hoje Ourém é para Fernando Lopes uma cidade a redescobrir. “Para mim será sempre Vila Nova de Ourém”. Mas apesar da ligação afectiva, não regressa à terra com muita frequência. “Só tenho mais noção de Ourém quando surge na televisão, principalmente quando há eleições”.“Ourém já não é a mesma daquele tempo”“Foi em Ourém que me fiz pessoa e aprendi a ter sonhos, como o sonho do cinema. Esta distinção foi como voltar atrás e olhar para quando era miúdo”. No dia da cidade de Ourém, celebrado a 20 de Junho, Fernando Lopes recebeu uma homenagem da câmara municipal. Pela terra que o viu crescer já nasceram alguns projectos e outros que ainda aguardam oportunidade. O cineasta lembra o seu filme “Nós por cá todos bem” (1976), onde algumas cenas foram gravadas no Castelo de Ourém. Mais conhecido, “O Delfim” teve a sua acção na Quinta da Alcaidaria. “Hoje tomava ali o pequeno-almoço, numa sala onde se passou uma grande cena”, comenta. “Umas casas foram reparadas, mas aquilo está praticamente igual a quando o filme foi gravado”.Na calha, mas ainda a aguardar uma oportunidade, está o projecto do filme “Muda aos Cinco e acaba aos Dez”, a ser gravado em Ourém. Uma história sobre um jogo de futebol entre garotos em que um deles morre numa ribeira. Inspirado na sua infância? “Claro”, refere entre sorrisos, preferindo não falar muito mais sobre o projecto.No ar está ainda o Festival Internacional de Cinema de Ourém, do qual já se fala pelo concelho. “Acho uma ideia muito interessante, que pode atrair gente de muitos locais”, comenta. “É óptimo que os festivais não sejam só em Lisboa e no Porto. Um festival em Ourém pode tornar o concelho mais conhecido internacionalmente, em outras áreas, uma vez que chama a televisão, a imprensa. É uma ideia muito boa e com pés para andar”, reflecteA conversa termina. É hora de almoço. Em redor de Fernando Lopes junta-se um grupo de curiosos que escuta interessado a conversa. Bloco de notas fechado, ainda se lembram alguns momentos breves da infância do cineasta e de alguns nomes, como de Miguel Alvega, que compuseram a sua história. “Ourém já não é a mesma daquele tempo. Mudaram as ruas, as pessoas e parece que muita da sua História se vai esquecendo. A velha serração dos Verdascas é hoje o supermercado Lidl”, comenta o realizador.Uma vida dedicada ao cinema portuguêsFernando Marques Lopes nasceu a 28 de Dezembro de 1935, em Maçãs de Dona Maria, concelho de Alvaiázere. Viveu até aos 12 anos em Ourém com uma tia, tendo depois ido ao encontro da mãe em Lisboa. Trabalha então como paquete, continuando os estudos no ensino técnico.A sua introdução no cinema é dada através do movimento cine-clubista. Em 1957 integra o quadro técnico da RTP e em 1959 torna-se bolseiro do Fundo do Cinema Nacional, seguindo então para a London Film School, em Inglaterra, onde recebe o diploma em realização de cinema. Foi o realizador de “Belarmino” (1964), uma média-metragem sobre a vida do pugilista Belarmino Fragoso, obra singular do movimento do Novo Cinema, seguido também pelo realizador Manuel de Oliveira. Em 1965 faz um estágio de três meses em Hollywood. Já em Portugal realiza, entre outros, os filmes “Uma Abelha na Chuva” (1971) e “O Delfim” (2002).Fernando Lopes foi co-fundador e director da RTP2 nos anos 80. Durante vários anos leccionou também no Curso de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa.

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