
Quando Salazar morreu o Grémio Dramático Povoense não colocou a bandeira a meia haste
João Quítalo, nascido e criado na Póvoa de Santa Iria, é um apaixonado pela freguesia
O presidente da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, João Quítalo, nasceu e cresceu numa Póvoa de Santa Iria antiga, à beira do comboio, sem o trânsito intenso que hoje se faz sentir. Foi mecânico de aviões e chegou a chefe de divisão na OGMA. Começou a fazer teatro aos 15 anos e passou pelo Grémio Dramático Povoense, uma colectividade que não colocou a bandeira a meia haste quando Salazar morreu. Colou cartazes da UDP, foi aliciado pelo PCP mas acabou a militar no PS. É intrinsecamente de esquerda. Tem 59 anos e está reformado. É presidente da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira e da direcção da ARIPSI onde passa agora os seus dias depois de uma longa carreira profissional de 39 anos.
Ao contrário de muitas pessoas que vieram viver para a Póvoa de Santa Iria o senhor nasceu cá. Como foi crescer na Póvoa?Foi muito bom. A Póvoa de Santa Iria naquela altura era uma terra que se situava da estrada nacional para baixo. Era uma terra segura onde todos se conheciam. Passava um carro de vez em quando. Só havia uma escola primária com um muro a separar as meninas dos meninos. Havia outra escola do professor Sousa Branco, conotado com o antigo regime. Era extremamente rigoroso. Eu que era bom aluno levei uma reguada quando estava a fazer um ditado no exame de admissão. Fazíamos a prova à noite. Devo ter adormecido momentaneamente. Escrevi “i” em vez de “e” no meio da frase. E depois foi logo estudar para Lisboa?Sim. Fiz lá o ensino preparatório. Com dez anos ia de comboio sozinho às 6h30 da manhã para Lisboa. Na altura o comboio tinha umas plataformas tipo Texas. Ainda viajei nessas carruagens inspirado pelos filmes de cowboys. Depois vinham os revisores e mandavam-me para dentro com toda a razão. Quando começou a ficar sensibilizado para as questões da política?O meu pai tinha a quarta classe mas lia muito e sempre foi um homem de esquerda. Cheguei a ler na minha casa o “Avante” que ele trazia da Carris. Ouvia as conversas do meu pai e comecei a despertar para a política. Era uma época muito mais interessante do que é hoje porque não tínhamos tantas solicitações. Estávamos resumidos à terra e aos amigos. A partir dos 15 anos comecei a fazer teatro. Entrei no grupo Alegre Juventude Católica. Encenámos várias peças, entre as quais “O Defunto”, de Fernando Augusto que pertencia ao grupo e tinha chegado de Angola. A guerra colonial era uma coisa que nos revoltava. A seguir podíamos ser nós. Foi uma peça feita antes do 25 de Abril que não foi à censura. Na Póvoa fizemos muitas peças à revelia da censura. Como conseguiam? Era mais fácil por serem um grupo juvenil?Corríamos esse risco. Como o grupo estava ligado à Igreja tínhamos alguma protecção mas ainda chegámos a ter problemas com o padre. Apresentámos as primeiras peças no salão da igreja. Uma sala pequena onde montámos um mini teatro. Dois meses depois fomos para o Grémio que tinha uma secção cultural muito activa e politizada, muito por causa do Partido Comunista Português. Começámos a colaborar com o Grémio e muitos passaram-se para lá. O grupo ligado à Igreja acabou. Algumas pessoas afastaram-se. Foi o seu caso? Ou era um menino de Igreja?Não. Acabei por sair. Havia coisas com as quais não concordava. E depois também comecei a praticar desporto no União Atlético Povoense. Como os jogos de futebol eram ao domingo de manhã deixei de ir à missa. De que é que não gostava na Igreja?Há coisas que tenho dificuldade em aceitar. Há uma rigidez muito acentuada que ainda hoje se sente na questão do aborto, por exemplo. Por que é que os católicos não aceitam o aborto? Um acidente pode acontecer. Se uma mulher não tem condições para criar um filho por que razão há de ter que passar por essa privação? Privação para ela e para o ser que há de vir. Acho que devia existir mais tolerância. É claro que a Igreja também tem coisas boas. Na altura em que as Bragadas começaram a ser construídas clandestinamente havia gente muito pobre. Nós fazíamos um levantamento quase casa a casa das pessoas que tinham mais dificuldades e depois um peditório por altura do Natal. Com esse dinheiro íamos a Lisboa aos armazéns do Martim Moniz comprar roupas para dar às crianças e famílias. Depois dávamos um lanche no Grémio. Chegou a aproximar-se do Partido Comunista no Grémio?Sim. Um pouco mas nunca cheguei a entrar. Só fui militante de um partido: o PS. Naquela altura a Póvoa era uma actividade de esquerda. Quando morreu o Salazar o Grémio Dramático Povoense não colocou a bandeira a meia haste. Foi a única colectividade do concelho de Vila Franca de Xira que não tomou essa atitude. Ficou marcado. A que ponto?Um dia para tentar conseguir apoios fomos pedir uma audiência ao presidente da câmara, o tenente coronel Vargas, que era presidente mas mandava pouco. Quem mandava era o vice-presidente, o professor Casquinha. Não tivemos sucesso. O “Dramático”, chamavam-lhe assim, não tinha colocado a bandeira a meia haste quando o professor morreu... Fizeram uma tentativa de nos repescar para o regime mas não conseguiram. Pediram a identificação dos quatro mas estou convencido que já sabiam quem éramos.O Grémio teve muita importância na sua formação.E na formação da maioria das pessoas da Póvoa. Tinha muita actividade cultural. Vieram cá muitos escritores e cantores. Bernardo Santareno, Manuel da Fonseca, Alves Redol e Zeca Afonso. Depois da revolução separaram-se as águas politicamente e a actividade cultural do Grémio até sofreu com isso. Acho que não chegámos a ser presos políticos porque entretanto se deu o 25 de Abril. As minhas ideias chegaram a andar muito à volta da UDP. Não cheguei a militar mas colei cartazes. O Partido Comunista ainda chegou a querer falar comigo mas o partido tinha atitudes de tal maneira radicais que não aceitava.E no Partido Socialista o que o convenceu?No Partido Socialista tínhamos a liberdade de fazer o que bem entendíamos. A liberdade de expressão é uma coisa que prezo. Mesmo dentro do Partido Socialista já tenho sido contestatário e ninguém me proíbe. No PCP se alguém sai daquela linha não tem hipótese de lá continuar... O senhor presidente da assembleia municipalO bigode é a sua imagem de marca. Já tentou mudar o visual mas a esposa, professora de História, pediu-lhe que não voltasse a fazê-lo. “Não quero parecer ainda mais jovem”, justifica-se com humor o presidente da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, João Quítalo, 59 anos, enquanto mostra o espaço da nova casa da ARIPSI, na Póvoa de Santa Iria. João Quítalo é o novo presidente da direcção da Associação de Reformados e Idosos da Póvoa de Santa Iria. Está reformado há dois anos e agora os seus dias são passados na sede da instituição, depois de fechar um ciclo de 39 anos como funcionário da OGMA, em Alverca. Começou a trabalhar aos 18 como mecânico de aviões e saiu no topo de carreira como chefe de divisão com 48 pessoas a seu cargo. Gerir recursos humanos não foi fácil mas o curso de organização e gestão de empresas pelo ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), que concluiu já a trabalhar, ajudou-o.Ingressou na OGMA para fugir à guerra colonial mas esteve em Angola e Moçambique a cumprir comissões de serviço para a empresa. Estava em Moçambique quando se deu o 25 de Abril. Foi eleito na assembleia de freguesia da Póvoa antes de chegar à assembleia municipal. Nasceu em casa, na Póvoa de Santa Iria. Os pais eram oriundos da Vidigueira, Alentejo. O pai foi funcionário da Mague e mais tarde da Carris. João Quítalo chegou a colaborar num jornal da Póvoa. Actualmente integra o conselho fiscal da Associação D. Martinho, dos Bombeiros da Póvoa e faz parte da associação do Pessoal da OGMA. Admite que muitos desconhecem que a assembleia municipal, que dirige, é um órgão fiscalizador da actividade do município e por isso se empenha em ir às escolas levar informação. Tem uma vivenda na cidade onde nasceu e que hoje está repleta de prédios. Tem vergonha do estado em que está a zona ribeirinha da cidade e por isso defende a urbanização que para lá está prevista. No resto da cidade admite que já não é possível construir mais mas considera que esse assunto é responsabiliza da gestão comunista que governou o concelho antes do PS. Praticou atletismo e ténis de mesa mas hoje é mais adepto do ginásio. Frequenta um na zona da Expo. Para chegar lá utiliza o comboio. Tem uma filha, assistente social. Vendeu uma casa de praia para se render ao prazer das viagens. Não gosta de permanecer entre os tachos mas é um fervoroso adepto da boa gastronomia.Freguesias de Cachoeiras e Calhandriz poderiam ser extintasSocialista defende a existência de menos freguesias no concelho de Vila Franca de XiraO socialista e actual presidente da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, João Quítalo, é defensor de que existam menos freguesias com mais meios e competências. No caso do concelho de Vila Franca de Xira, por exemplo, defende a extinção das freguesias de Cachoeiras e Calhandriz. Considera por seu lado que se justifica manter as autarquias de São João dos Montes e Sobralinho. “Não faz sentido ter freguesias com menos de mil eleitores, por exemplo. O Fundo de Financiamento das Freguesias deveria ser reajustado tendo em conta a dimensão populacional”, argumenta, referindo-se não só ao caso do concelho de Vila Franca de Xira, como à realidade do país. “Algumas juntas de freguesias nem jardins têm mas fazem flores com o dinheiro que recebem”, critica. PS quer ganhar as próximas eleições em Vila Franca sem recurso a “forasteiros”O presidente da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira acredita que o PS vai voltar a conquistar a câmara municipal nas próximas eleições autárquicas. João Quítalo defende que a escolha se faça entre os valores do concelho sem recurso a “forasteiros”. Por que razão decidiu entrar para política?Entrei para o Partido Socialista por vontade própria em 1995. Na altura era secretário geral António Guterres. Uma pessoa extremamente íntegra que admiro. Entrei porque entendi que era a única forma de ajudar a desenvolver a minha terra. Na altura as instituições não me despertavam muito interesse e achei que a política era uma boa forma de o fazer.O que lhe parece este negócio entre o PS e a Coligação Novo Rumo?Até agora não tem havido grandes problemas. Já não é a primeira coligação do género. Isso já aconteceu no primeiro mandato de Maria da Luz Rosinha. É verdade que a Coligação cresceu bastante. Muito à base da popularidade de João de Carvalho, uma pessoa extremamente interessante de quem sou amigo.Preocupa-o o facto da direita poder ganhar as próximas autárquicas?Não me preocupa porque estou convencido de que o PS ainda vai ganhar as próximas eleições. Acho que a CDU já não voltará a ser poder na Câmara de Vila Franca de Xira. Desenvolvem um trabalho importante mas não evoluíram. Têm sempre os mesmos eleitores...Mas o PS vai resistir em Vila Franca mesmo ao desgaste a nível nacional?Vai porque as eleições autárquicas não têm nada a ver com as eleições legislativas. Contam muito as pessoas e o trabalho desenvolvido nas freguesias. Mas se contam as pessoas como pode esperar que o PS ganhe as próximas eleições (não se recandidatando Maria da Luz Rosinha) se ainda não há um candidato perfilado?O PS tem um conjunto de personalidades que vão ser capazes de responder a este desafio. De facto nestes 14 anos (ainda faltam dois para acabar o mandato) Maria da Luz Rosinha tem sido uma pessoa com um dinamismo fora de série. Foi isso que me levou a aceitar o lugar de presidente da assembleia municipal. Foi uma surpresa quando a presidente e o presidente da comissão política concelhia, Fernando Paulo, me convidaram. Demorei quase um mês a aceitar. Fernando Paulo será o candidato?Essa é uma questão que ainda não está decidida.Não está decidida mas é decisiva. Até Setembro, a dois anos das eleições autárquicas, vamos ter o candidato do Partido Socialista. Tudo isto parte de uma vontade própria das pessoas que se sintam capazes e com motivação para um cargo que não é fácil.Considera que vale a pena apostar numa pessoa como Fernando Paulo que não tem grande experiência fora da vida política?Mas tem grande experiência ao nível da política concelhia. O Fernando Paulo fez parte da assembleia municipal que integrei e foi um elemento excelente dessa bancada. É um bom político mas não tem provas dadas cá fora.Nunca trabalhou numa empresa. A vida dele foi sempre a vida política. É a única crítica que se lhe pode fazer. Mas será crítica? Ao fim e ao cabo esteve sempre a trabalhar em prol da comunidade. O trabalho político é importante... É a decisão da nossa vida em sociedade. Da maneira como fala defende Fernando Paulo para candidato.O Fernando Paulo ainda não me disse se era candidato. Espero que seja uma pessoa do concelho. Não aceito os forasteiros. Como aconteceu com Zita Seabra. Ou Santana Lopes na Figueira da Foz. Espero que não haja pressão a esse nível. Falou há pouco de um presidente de câmara do estado novo que não controlava nada. Maria da Luz Rosinha funciona de forma oposta.É uma pessoa com uma capacidade e trabalho e um dinamismo fora de série. Não conheço outra mulher com este andamento. Está a dizer que de uma forma geral os homens trabalham mais que as mulheres?É-lhes dada essa possibilidade. Trabalham mais homens que mulheres mas as mulheres neste momento estão a conquistar muito território que era dos homens. Mesmo nas empresas. O senhor é uma pessoa discreta. Acha que foi por isso que o convidaram para o cargo?Não tenho problemas desses. Sou um presidente da assembleia municipal um pouco diferente por estar mais presente em muitos eventos onde não era comum no concelho ver o presidente da assembleia municipal. Em alguns casos até me tem sido pedido que represente a câmara. Quando fui autarca na assembleia de freguesia da Póvoa de Santa Iria era bairrista em demasia. Às vezes exagerava a reivindicar coisas para a Póvoa. Cheguei a ser até um pouco deselegante com a Maria da Luz Rosinha. Tivemos alguns desaguisados o que nunca nos impediu de sermos amigos.

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