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“Levantava-me de madrugada para fugir do Alves Redol e brincar em paz”

“Levantava-me de madrugada para fugir do Alves Redol e brincar em paz”

Escritor vila-franquense inspirou-se na infância de Constantino Caralinda

O miúdo que encantou Alves Redol e o inspirou a escrever “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” já tem 62 anos. A idade tolda-lhe o físico mas não apaga as memórias de uma infância tornada célebre pelo escritor de Vila Franca de Xira. A O MIRANTE diz guardar boas memórias da infância com Redol e confessa que o escritor “era uma lapa” que não o deixava brincar em paz.

Edição de 02.11.2011 | Entrevista
Quando pela manhã Alves Redol se aproximava do número seis da rua da Portela no Freixial, aldeia de Bucelas, concelho de Loures, já Constantino havia fugido do seu encontro. Foi assim dezenas de vezes porque, diz Constantino Caralinda, Alves Redol “era um pouco chato” e com 12 anos nenhuma criança quer andar com um escritor neo-realista atrás de si, como fazia Redol.“Ele queria ver tudo o que eu fazia, onde ia, com quem ia, durante quanto tempo. Fazia muitas perguntas. Era uma lapa, estás a ver? E eu queria era brincadeira”, conta-nos com um sorriso Constantino Ferreira Caralinda, hoje um homem de 62 anos que continua a viver na mesma casa onde nasceu, na mesma aldeia, na mesma rua e ainda a cultivar a mesma terra onde brincava em criança. A sua juventude inspirou Alves Redol a escrever “Constantino, guardador de vacas e de sonhos”, considerado um dos melhores trabalhos do escritor. Constantino recebe O MIRANTE em sua casa com o mesmo sorriso de quem cumprimenta um velho amigo. A conversa começa na sala de estar, uma divisão de paredes brancas despidas de quadros, chão de lajes vermelhas e onde os únicos móveis existentes guardam loiça. Não há livros ou discos. Há um pequeno recuperador de calor e uma televisão. Na cozinha está bacalhau ao lume. O mesmo bacalhau que matava a fome na sua infância porque a carne era só para dias de festa.Redol foi morar mesmo para o lado da casa de Constantino e passava horas a conversar com os agricultores e com as gentes da aldeia. Criou laços de amizade que viriam a ser importantes quando um dia a PIDE (polícia política do regime ditatorial) visitou o Freixial à sua procura. De todas as conversas que manteve na aldeia houve um miúdo que lhe despertou o interesse e que não parava quieto todo o dia. “Ele via a vida agitada que eu levava e isso intrigou-o porque eu raramente tinha tempo para brincar, toda a gente me chateava. Primeiro eram os meus pais para ir tratar das vacas, depois a minha avó para tratar da casa e mais tarde passou a ser o Redol a atazanar-me o juízo por causa do livro”, conta-nos com uma gargalhada. Quando Redol chegava e Constantino já havia desaparecido era a sua avó que o chamava aos gritos. Tudo começou quando Alves Redol pediu licença ao pai de Constantino para escrever um livro inspirado na sua meninice. Do que falaram, Constantino não se lembra. Redol era uma pessoa limpa, aprumada e de trajes formais. “Mas fumava muito e isso cheirava-se”, conta. O escritor era também uma pessoa de relacionamento fácil. “Quando queríamos dinheiro eu e um amigo íamos à pesca no Trancão e depois vendíamos o peixe ao Redol, que o comprava por uns tostões”, recorda.Durante a preparação do livro, o escritor neo-realista vigiou Constantino sem dizer uma palavra. Mais tarde começou a acompanhá-lo e a tomar notas e por fim fazia perguntas. “Vais tomar banho no rio para onde? Vais apanhar ninhos em que árvores? Para quê? Às vezes quando ia aos pássaros, queria saber como se armavam as armadilhas, por exemplo”, revela. Redol acabaria por sair da aldeia sem lhe dizer nada e só voltou mais tarde para lhe dar um exemplar do livro.Um homem tímido que não gosta de confusõesConstantino é tímido, gosta de estar sossegado e longe das confusões. Diz sentir-se orgulhoso de ter sido escolhido por Redol para ser fonte de inspiração para o livro mas confessa dar-se mal com a atenção pública. No final dos anos 60 dezenas de excursões de escolas de todo o país foram ao Freixial para o conhecer. “Eram carradas de putos e dezenas de professores aqui na rua, todos com as mesmas perguntas e as mesmas histórias. Foi um bocado maçador”, desabafa. Os anos foram passando e com eles chegou o anonimato. Na aldeia todos sabem da sua aventura mas já muito raramente falam dela. Tem um dos primeiros exemplares do livro com uma dedicatória de Redol. “Toda a gente me pediu o livro para ler. Foi emprestado dezenas de vezes, está muito velho. Já foi encadernado novamente para sobreviver”, diz. Constantino assume que nunca ganhou nada com o livro. “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” é o único livro da autoria de Redol que tem dentro de casa e também é o único que leu, três vezes na vida. Não o sabe de cor mas lembra-se das histórias que lá estão escritas porque eram suas. Todos os momentos do livro aconteceram na realidade, excepto a viagem de jangada até Lisboa. A jangada até existiu, mas nunca navegou.Constantino conta a O MIRANTE que ainda não visitou nenhuma das exposições do centenário do escritor e que desde os anos 60 não voltou a ser convidado para conversar publicamente sobre o livro. Só recentemente foi abordado para falar numa escola de Vila Franca pelo filho do escritor, António Redol. “Se o Alves me encontrasse hoje acho que ficaria orgulhoso de mim porque fui uma pessoa com uma vida humilde, que nunca tratou mal ninguém, sempre fui muito trabalhador, nunca roubei e tenho tido uma vida justa e de sacrifício”, assume com a voz embargada. O cheiro do bacalhau cozido, vindo da cozinha, anuncia a hora de jantar. De livro na mão, Constantino recorda a dedicatória de Redol que sempre o deixa sentimental. “Este livro pertence-te por muitas razões meu bom amigo. Escrevi-o com muito carinho por ti e pelos teus e espero que faça de ti um homem digno daquilo que penso de ti”. A dedicatória termina com um grande abraço do Alves Redol e Constantino, ao fechar o livro, garante-nos que vai continuar a sonhar até morrer.“Portugal não soube aproveitar o 25 de Abril”Na opinião de Constantino Caralinda a revolução do 25 de Abril de 1974 foi uma oportunidade perdida de mudar Portugal para melhor. “Estou um pouco desiludido, não soubemos agarrar o 25 de Abril. Somos os culpados de tudo o que está mal porque não sabemos votar e os senhores que lá estão são como os que estavam anteriormente senão mesmo piores, porque são mais refinados e malandros”, defende. Constantino diz nunca ter vivido acima das suas possibilidades e confessa não perceber a vaga de austeridade exigida aos portugueses. “Nunca pedi dinheiro ao banco. Alguma coisa está a trabalhar mal neste país. Dizem que cada português deve dinheiro ao Estado mas acho estranho porque eu trabalho desde miúdo, pago os meus impostos e sempre descontei para a Segurança Social”.De guardador de vacas a mecânico de aviõesConstantino Ferreira Caralinda nasceu no Freixial, Bucelas, concelho de Loures em 1949. Tem uma irmã, Ana Maria Caralinda, e duas filhas, de 30 e 35 anos. Vive junto com Dina Isabel há 18 anos. Frequentou a escola até à quarta classe e sonhava arranjar emprego na área da electricidade. Aos 13 anos o sonho tornou-se realidade e foi trabalhar para uma oficina ligada ao ramo da electricidade em Bucelas. Aos 17 anos teve a oportunidade de ingressar nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA) em Alverca do Ribatejo. “Só se entrava por cunha e o meu pai conhecia uma pessoa que trabalhava lá e me meteu nos quadros”, revela.Ao serviço das OGMA chegou a fazer comissões em Guiné, Moçambique e Angola a reparar aviões. “Foi uma boa experiência apesar de ter visto muitas coisas más da guerra, sobretudo pessoas maltratadas”, lamenta. Como ganhava pouco nas OGMA, “como ainda hoje se ganha”, Constantino decidiu partir para Angola e arranjar trabalho. Entrou para uma açucareira onde trabalhou como técnico de válvulas electropneumáticas. Em África nunca trancou a porta de casa porque a empregada da limpeza perdeu a chave. Diz que nunca foi roubado. “Excepto pela empregada, ela é que me roubava”, assume. Ao fim de 10 anos regressou ao Freixial, esteve desempregado dois meses e entrou na TAP em Lisboa onde carregava as bagagens nos aviões. Ao fim de dois anos descobriu uma empresa de helicópteros em Santa Cruz, Torres Vedras, e ingressou como mecânico. Actualmente trabalha em Tires, numa empresa ligada à manutenção de aeronaves. É mecânico em jactos privados Learjet. Diz que só vai parar de trabalhar quando morrer porque não consegue estar parado, um hábito que vem de infância. Os seus tempos livres passa-os no campo, junto às vinhas e aos animais. A sua cor favorita é o azul-escuro. Diz que antes de morrer gostava de ter uma “quinta a sério”, com muitos animais e máquinas de produção. Não tem o vício de ler nem de ouvir música apesar de gostar de fado. Em casa garante que é diplomático e por isso não se importa de dar razão à companheira em algumas situações. Ocasionalmente ajuda-a a cozinhar. “Ou no mínimo a pôr a mesa”, assume. Adormece a ver a novela com ela e diz que a falta de tempo é o seu maior problema. Tem dois cães e assume que a alcunha “cuco” é uma herança de família. A “rambóia” já acabou há muitos anos.O menino de Redol para quem os computadores são como pianosNa aldeia do Freixial o nome Constantino é sobejamente conhecido. É fácil encontrar entre os mais velhos da terra quem ainda lhe chame “o menino de Redol”. Constantino assume que sempre viveu na aldeia - mesmo quando trabalhava em Alverca - e é lá que se sente bem. Assume que nunca trocaria a sua terra e sobretudo a sua infância por outra mais abastada. “Venha de lá o peão e a jangada de canas porque estar em frente à televisão não me serve. Há tanta coisa na rua para descobrir. Para mim os computadores são uns pianos, umas máquinas com teclas, não sei mexer neles. Se vivesse num apartamento sem nada que fazer até tentava aprender, mas hoje em dia não tenho tempo para fazer as coisas que quero quanto mais para perder tempo com computadores”, explica.Chegar à aldeia do Freixial é como passar um portal para outra dimensão. Começa logo na estrada de acesso à aldeia, que é subitamente bloqueada sem qualquer aviso por um rebanho de ovelhas quando nos aproximamos. O coreto, os bancos de jardim, as ruas, os passeios e boa parte das habitações existentes são as mesmas de que Redol fala em “Constantino, guardador de vacas e de sonhos”. Até o rio Trancão, que em tempos ganhou a fama de ser o rio mais poluído do país está hoje a voltar a tons mais claros e menos malcheirosos. “O Freixial está na mesma, cada vez mais velho”, lamenta Constantino Caralinda. Nas ruas não se ouve o som do trânsito ou das fábricas. Os poucos jovens da aldeia trabalham fora e só regressam ao cair da noite. Na tasca serve-se vinho nos mesmos copos de há 40 anos. Lurdes Princesa continua a vender pão com uma carrinha que passa uma vez por dia na aldeia. Outras vezes vem a carrinha do peixe porque os grandes supermercados ficam longe. Para as gentes do Freixial ver um jornalista é sinal de alarme. “Não morreu ninguém”, apressamo-nos a responder. Procuramos a casa de Constantino Caralinda, o menino de Redol. Não há como enganar, é entrar na aldeia e seguir em frente. Afinal de contas não há muito mais do que umas cem habitações. A casa onde viveu Redol tem a fachada em mau estado. Também a placa de homenagem que ali se encontra está comida pela passagem do tempo. Apesar de se encontrar perto de dois grandes centros urbanos, Loures e Vila Franca, o Freixial ainda consegue deixar no ar ao entardecer o cheiro a campo e o silêncio. Os mesmos atributos que encantaram Redol há muitas décadas.
“Levantava-me de madrugada para fugir do Alves Redol e brincar em paz”

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