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Vereador João Sarmento diz que a gestão municipal de Torres Novas é um descalabro e que o pior está para chegar

Vereador João Sarmento diz que a gestão municipal de Torres Novas é um descalabro e que o pior está para chegar

“Não vale a pena dizer que a culpa é da crise porque há muitos concelhos que têm a situação financeira controlada”

Nasceu na Beira, Moçambique filho de um grande empresário da construção civil que, depois da independência, voltou a ser pedreiro em Portugal. João Sarmento, vereador do PSD na câmara municipal de Torres Novas aprendeu na escola da vida o valor de cada cêntimo. Aos 10 anos de idade, saía da escola e trabalhava a alisar blocos. A partir dos 13 anos as férias eram passadas nas obras. Aos 19 o pai deu-lhe sociedade. Venceu e meteu-se na política por considerar que a sua experiência pessoal poderia ser útil. Não desiste de fazer propostas para melhorar a gestão municipal mesmo que raramente o oiçam.

Edição de 02.11.2011 | Entrevista
O senhor criticou a câmara por ter pago trabalhos a mais na obra do Centro Escolar do Pedrógão. Como proprietário de uma empresa de construção civil nunca lhe aconteceu ter que reclamar o pagamento de trabalhos a mais? Por vezes acontece. Um particular pode ter que pagar trabalhos a mais mas uma câmara não?Eu quando sou aluno vejo as coisas de uma forma e quando sou professor, vejo de outra. Quando sou construtor vejo as coisas na perspectiva dos construtores e quando sou vereador defendo a autarquia e o dinheiro público, com unhas e dentes. Os trabalhos a mais custaram ao município 77 mil euros. A lei diz que os erros e omissões em projecto de obras públicas, são da responsabilidade do empreiteiro ou do projectista e nunca do cliente.Está a dizer aos seus clientes como proceder em situações idênticas? Estou a fazer uma obra onde houve erros de medições no projecto que já ultrapassam os cem mil euros. Eu só tenho que andar para a frente. A verdade custa mas temos que ser sérios e assumir as responsabilidades. Uma coisa é certa, desde que levantei o problema na câmara até hoje nunca mais houve trabalhos a mais?Também houve menos obras.Houve algumas. Noutros centros escolares também eram para aparecer trabalhos a mais e eu disse logo que votava contra. Não apareceram. O presidente pode ter resolvido isso sem o senhor saber, recorrendo às competências que lhe estão atribuídas.Se o fez agiu mal e fica com isso na consciência. Ele ao ser eleito comprometeu-se a defender os interesses dos torrejanos da melhor maneira.Pondo de parte a polémica dos trabalhos a mais, a construção dos Centros Escolares foi uma boa decisão?Tendo a humildade de reconhecer que essas obras, com as quais concordo, são mérito do actual executivo, não posso pactuar com mentiras. Não se pode dizer, como faz o presidente, que está tudo bem. Sistemas de circulação de ar e de detecção de gás que não funcionam, inexistência de computadores, telefones desligados, mesas que são poucas e obrigam a que as crianças almocem por turnos são problemas que resultam da leviana atenção que é dada a algumas situações.Uma empresa tem como objectivo dar lucro. Uma câmara municipal deve ter em atenção o bem estar dos cidadãos. Muitas vezes dá a entender que o município deve ser gerido como uma empresa. Acha isso possível e recomendável?Eu penso sempre nos custos. Quem gere uma câmara sem ter em atenção os custos faz má gestão. Infelizmente os exemplos de más decisões e de esbanjamento são muitos. E já nem falo nas grandes obras feitas para satisfazer a vaidade. Falo em questões do dia a dia.São conhecidas algumas das suas propostas feitas nas reuniões do executivo mas raras são as que a maioria PS leva à prática.Denunciámos como anti-produtiva e contra todos os princípios de boa gestão, a dispersão de instalações dos serviços técnicos da Câmara Municipal. Faz-se a gestão de 4 armazéns, 3 em Torres Novas e 1 nos Riachos. Mensalmente o município paga uma renda por cada um dos espaços. Como é possível optimizar custos e tempos com os armazéns dispersos? Sugerimos que o Município construísse na zona industrial um pavilhão que centralizasse os serviços.Qual foi a resposta?Não havia dinheiro. Propusemos também a criação de duas ou três pequenas unidades em determinadas freguesias para apoio logístico porque dói ver o que se passa. Vai uma retroescavadora trabalhar para Fungalvaz, por exemplo. Sai às 8 e meia de Torres Novas, chega a Fungalvaz às 10 horas, começa a trabalhar, e ao meio dia pára. O trabalhador agarra na camioneta e vai a Torres Novas. Depois de almoço sai de Torres Novas à uma hora, chega a Fungalvaz à uma e meia e às quatro tem que ir embora porque a máquina tem que parar às cinco horas em Torres Novas. Para quem, como eu, passa a vida a fazer contas a tostões, isto é um descalabro em termos financeiros. Só fala nas reuniões? Não fala informalmente com o próprio presidente? O vereador Folgado Mota que é aqui seu vizinho, é um homem prático e experiente. Nem a ele consegue convencer? O Folgado Mota apoia noventa por cento daquilo que eu digo mas na hora de votar ele é solidário com o presidente e o seu partido que é o PS.Qual foi a pior obra do presidente da câmara até agora?A pior decisão do presidente da Câmara foi a adesão à Águas do Ribatejo. A pior obra que ele fez foi a nova piscina. Estragou a antiga que estava a funcionar bem e que era do agrado dos torrejanos e implantou outra num sítio completamente errado, com uma cobertura que em termos de perda energética é do pior que existe. Há um consumo de gás exorbitante para se conseguir manter a piscina à temperatura ideal. Nem sequer o combustível foi bem escolhido. Foi o maior erro de muitos erros cometidos por ele.E a pior decisão é a adesão à empresa Águas do Ribatejo?Considero que a água é um recurso estratégico deste século. Entregar a gestão deste recurso a uma organização que segundo responsáveis pela sua gestão actual presta serviços deficientes é uma má decisão. O Município deixa de ter o controlo sobre um bem que mensalmente trazia receitas para os seus cofres, para integrar uma organização que historicamente é mal gerida, porque, quem assegura a sua gestão não tem conhecimentos específicos para o efeito. Tudo isto em troca de quê? A câmara municipal, por si só, não tinha capacidade para fazer investimentos que são imprescindíveis, nomeadamente na área do saneamento.Infelizmente nestes 18 anos de gestão do António Rodrigues a câmara investiu meia dúzia de euros na área das águas e do saneamento básico e o que fez foi mal feito. Daí o descalabro a que se chegou mas não é entregando tudo que se resolvem os problemas. A Águas do Ribatejo vai fazer grandes investimentos...Imagine que tem um prédio em ruínas e o quer recuperar. Vem falar comigo e eu digo que lhe faço o trabalho se o senhor passar o prédio e o terreno para o meu nome e aceitar ficar lá a viver pagando-me uma renda depois da casa arranjada? O negócio da Águas do Ribatejo é isso mesmo. Ruinoso, ruinoso, ruinoso. A Câmara fica sem os furos, sem as condutas, sem as ETAR, etc e depois vai pagar a água que consome.Como se constrói um empresárioJoão Sarmento nasceu em Moçambique, na cidade da Beira a 21 de Maio de 1966. O pai tinha na altura uma empresa de construção civil que dava emprego a cerca de mil trabalhadores. Em 1974, com o início da descolonização tudo mudou. João Sarmento chegou a Portugal com os avós maternos e as irmãs aos 8 anos de idade. Foram viver para Pé de Cão, Lamarosa, concelho de Torres Novas de onde a família era originária. Os pais vieram alguns meses depois. A família Sarmento teve que refazer a sua vida a partir do zero. O grande empresário de Moçambique voltou a ser pedreiro. Durante sete anos, pais e filhos viveram num barracão de blocos de cimento com telhas de zinco.Aos 10 anos João Sarmento ajudava o pai quando vinha da escola. “Todos os dias tinha à minha espera, numa pequena fabriqueta do meu pai, 600 blocos para alisar. A partir dos 13 anos comecei a trabalhar nas obras durante as férias escolares. Não ia obrigado. Eu gostava daquilo. Ainda gosto. Sou capaz de trabalhar 18 horas por dia sem me cansar”, conta. Com 19 anos o pai deu-lhe sociedade na empresa e ele deixou de estudar. “Fiz uma obra para seis meses e ganhámos cinco mil contos. Fiquei entusiasmado”. O empresário diz que teve uma infância feliz, tanto em Moçambique como na pequena aldeia de Pé de Cão. “Sempre me trataram com muito carinho”, confidencia.A Pé de Cão Construções de que é dono é uma empresa superfamíliar. “Tenho uma empresa com pessoas que trabalham comigo há mais de vinte anos. Tenho a minha mulher, Paula, que trabalha comigo desde os 16 anos. Já lá vão 26 anos. A minha cunhada que trabalha aqui há 23. O Adriano há 15, o Zé Manuel trabalha comigo desde os meus doze anos, começou com o meu pai. O Chico, a mesma coisa. O meu cunhado desde os meus dez anos de idade”. João Sarmento tem uma filha, a Mariana, com 20 anos, que estuda Economia. O filho, Francisco, tem 18 anos e está em Informática e Gestão de Empresas. “Gostava que os meus filhos dessem continuidade àquilo que eu e a minha mulher começámos. Mas também é perigoso. É o problema das empresas familiares. Quando caem, cai tudo. Estamos todos dentro”, explica. Em dois mil e nove criou no eco-parque do Relvão, na Carregueira, Chamusca, a Pé de Cão Ambiente, uma empresa que ainda está a crescer. Faz reciclagem de entulhos de obras e de óleos alimentares usados. As viaturas de serviço utilizam 50 por cento de gasóleo e 50 por cento de biodiesel. Entretanto criou uma empresa em Moçambique, na cidade da Beira, (onde mais poderia ser?). Chama-se JS Construções. Tem cinco homens da sua confiança, que foram de Portugal, a trabalhar com uma equipa de 70 trabalhadores locais. De volta à terra onde nasceu e onde viveu a infância diz que “O futuro está em África”.“Quem acumulou erros de gestão não pode desculpar-se com a crise”Tem uma empresa consolidada em Torres Novas, uma outra na Chamusca em gestação e uma terceira em Moçambique que está a crescer. Porque foi para a política?Fui para a política porque acho que fazem falta na política pessoas que falem verdade. Pessoas que tenham experiência de vida e que tenham sensibilidade para gerir.E que tenham tempo.Infelizmente muitas pessoas vão para a política só porque têm tempo mas se têm muito tempo é mau sinal. É sinal que não estão a fazer nada. Perdeu as eleições há dois anos. Os eleitores não ligaram aos seus atributos nem aos seus argumentos e deram mais uma maioria absoluta a António Rodrigues. Já acontece isso desde 1993. Os eleitores são parvos?Claro que não. Se lhe dão a maioria é porque estão satisfeitos. Mas penso que ainda não se aperceberam da verdadeira dimensão do problema municipal. O certo é que se está a gastar hoje aquilo que não se tem. Já não se estão a contrair dívidas para fazer obras. O que está a legar para as gerações futuras são só dívidas. Dívidas que resultam da manutenção de equipamentos que foram construídos sem ter em conta esses custos.São duas concepções diferentes de encarar a gestão municipal e postas em confronto, a sua perde.Ele tem uma forma de gerir que só pensa no imediato. Eu não consigo fazer nada na vida só a pensar no imediato. Eu penso sempre no futuro. Esta forma de gerir o município vai ter consequências desastrosas. Já o digo há muito tempo. Foram efectuados nos últimos meses acordos de pagamento de dívidas com a Resitejo, CESPA, RESIN e Rodoviária do Tejo, num valor que ultrapassa os três milhões de euros. Gasta-se no presente e transferem-se as responsabilidades para o futuro. A situação económica actual também ajuda a piorar as coisas. Existem diversos concelhos neste país com maior ou menor dimensão mas que têm a situação financeira controladíssima. Não vale a pena andar a dizer que a culpa é da crise. A culpa é nossa. É de quem está à frente de cada município. De quem não tem capacidade para perceber o que é gerir um concelho.Vai recandidatar-se?Tenho vontade de me recandidatar. Gosto muito de estar na política. De poder contribuir com a minha experiência para fazer coisas completamente diferentes daquilo que os políticos fazem. De ser diferente. De falar verdade. Eu consigo dizer o que penso e os que lá estão não conseguem.A avaliar pelo seu primeiro resultado eleitoral o senhor tem a receita ideal para perder eleições.(Riso) As pessoas podem ser enganadas algumas vezes mas ninguém as consegue enganar sempre. A verdade acaba por se impor. “Não tenho telhados de vidro”Recentemente o presidente da câmara terá dado a entender que o senhor que é sempre lesto a fazer acusações tem uma situação ilegal, presumo que relacionada com a sua empresa. Quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada, diz a sabedoria do povo.Ele disse que eu também tinha uma situação ilegal e estava a referir-se concretamente a um estaleiro da Pé de Cão Construções. O que ele não explicou é que se a situação ainda não está resolvida é por culpa da câmara. Estou mesmo convencido que esta situação não está ainda resolvida porque eu sou de um partido da oposição e ele pensava que me subjugava assim.Ou seja, o estaleiro está ilegal.É uma situação que andamos há anos a tentar resolver. A empresa pediu legalização. Houve resposta a indicar-nos o que tínhamos que corrigir. Está tudo de acordo com o que foi exigido. A única coisa que falta é a câmara emitir a licença para eu ir lá pagar e levantá-la. Já lá vão meses e nunca mais obtive resposta. Fui eu que fui ter com ele para desbloquear a situação e depois ele atreve-se a dizer o que disse. Não há palavras para descrever a atitude que ele teve. A Pé de Cão Construções deve ser a terceira ou quarta empresa que mais impostos paga no concelho. Temos 70 funcionários. Merecíamos mais respeito. Já se referiu publicamente ao diferendo entre os “Bombeiros Torrejanos” e o Município. Não deveria antes referir-se ao diferendo entre o presidente da câmara António Rodrigues (PS) e o ex-presidente da câmara e actual presidente da Direcção dos Bombeiros, Arnaldo Santos (PSD)? A falta de diálogo entre as duas instituições fez com que não fossem feitas obras nem fosse comprado equipamento para os bombeiros. Pode haver também culpa do professor Arnaldo Santos mas é lamentável que uma pessoa como o presidente da câmara que diz ter orgulho em ser torrejano e que diz agir sempre em defesa da população, perpetue esta situação. Ele não pode colocar questões pessoais acima de tudo. Ao não ajudar a resolver o problema dos bombeiros quem sofre com isso não é o Arnaldo Santos mas os torrejanos.É um crítico da programação do “Teatro Virgínia” e da programação das festas da Cidade. Não se deve gastar dinheiro em cultura quando ele falta para outras coisas?Nada disso. Eu defendo a cultura mas penso que as verbas despendidas, nomeadamente no Virgínia, são exageradas. Além disso as manifestações de cariz cultural têm que estar entrosadas com as populações que servem e não o inverso. A importação e imposição de estereótipos de pseudo-intelectuais afastam as pessoas.Fazem falta mais ranchos folclóricos e bandas, é isso? Os munícipes mais novos não lhe merecem atenção?Merecem toda a atenção e defendo que uma parte da programação lhes seja dirigida. Mas uma parte e não toda como acontece agora, tanto no Virgínia como nas Festas da Cidade. O que eu quero é que se lembrem também dos munícipes menos jovens. E defendo actividades culturais em que o voluntariado seja um factor relevante. Defendo, por exemplo as recriações históricas que atraem pessoas e incrementam o comércio, bem como o aumento da participação dos locais nessa actividades para reduzir custos. Já leu algum livro do presidente da câmara?Não. Gosto muito de ler mas escolho outras coisas.
Vereador João Sarmento diz que a gestão municipal de Torres Novas é um descalabro e que o pior está para chegar

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