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O professor de matemática que nunca lidou com casos de indisciplina

Artur Silva chegou a ser director da Escola Secundária Gago Coutinho entre 1992 e 1994

O ex-professor da Escola Secundária Gago Coutinho, Artur Silva, recordou a O MIRANTE algumas experiências da sua profissão a propósito da celebração do 40º aniversário da Escola Secundária Gago Coutinho, localizada em Alverca do Ribatejo.

Edição de 02.11.2011 | Sociedade
Um dia depois de acabar de leccionar as aulas nocturnas, Artur Silva saiu da escola por volta das 23h30 e encontrou um aluno à chuva. Perguntou-lhe se queria boleia e depois de insistir lá conseguiu deixá-lo em Arcena. No dia seguinte o aluno não apareceu na aula e o professor perguntou aos alunos se sabiam o que tinha acontecido. Descobriu que sempre que o pai se zangava com o filho não o ia buscar e obrigava-o a ir a pé da escola para casa. “Foi um exemplo que me marcou porque mostra o que muitas pessoas têm de sofrer para poderem estudar”, recorda o ex-professor, de 65 anos, que chegou a Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira, em 1974 para dar aulas de matemática na Escola Técnica Gago Coutinho. Vivia-se um período conturbado do pós-25 de Abril, mas a escola esteve sempre dotada dos melhores professores, funcionários e alunos. No primeiro dia de aulas colocava logo um pequeno problema no quadro. “Queria desde logo que os alunos vissem quem é que dominava a matéria e também mostrar-lhes que eu estava ali para os ensinar algo que estava ao alcance de todos”, conta o professor que nunca se deparou com casos de indisciplina. Segundo o professor, os jovens são muito justos e rapidamente se apercebem se os professores têm ou não qualidade, passando ou não a respeitá-los. Entre 1992 e 1994 chegou a ocupar o cargo de director da escola. Depois de observar um jogo de basquetebol entre pessoas paraplégicas lembrou-se de contratar para guarda-nocturno da escola uma pessoa nas mesmas condições. “Não tinha dúvidas que uma pessoa paraplégica, munida de uma cadeira de rodas eléctrica e auxiliado por dois cães, cumpriria com grande eficiência a sua missão”, refere. Chegou a ser feito um canil na escola, foram comprados dois cães de raça pastor alemão e a Segurança Social chegou a adquirir uma cadeira eléctrica. O mandato terminou e o projecto acabou por ser abandonado pelo sucessor de Artur Silva. Este Verão encontrou um antigo aluno que está a trabalhar no Canadá e teve de realizar provas de matemática para poder entrar. “Veio agradecer-me por ter sido exigente com ele e isto é a maior compensação que um professor pode alcançar”, refere. Em relação à matemática garante que a dificuldade é muitas vezes uma questão cultural. “Por vezes são os próprios pais a dizerem aos filhos que a matemática é um bicho de sete cabeças e as crianças crescem a ouvir isso”, acrescenta. Desde 2006 que está aposentado mas continua a dar algumas aulas de formação a futuros professores de matemática para poder transmitir toda a experiência que acumulou durante a carreira.

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