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A utente mais velha do centro de dia de Santo Estêvão que trabalhou até aos 72 anos

A utente mais velha do centro de dia de Santo Estêvão que trabalhou até aos 72 anos

Deolinda Augusto tem 94 anos e gostava de chegar aos 100 anos

Tem pena de não saber ler nem escrever. Viu uma única vez o mar, quando já tinha mais de 50 anos. Começou a trabalhar aos 9 anos nos campos e só largou a enxada aos 72 anos. Toda a vida cultivou a alegria para se esquecer das dificuldades. Muitas vezes não teve pão para pôr na mesa, mas considera-se uma mulher rica.

Edição de 18.01.2012 | Sociedade
Tem 94 anos e uma mente lúcida. Deolinda Augusto é a utente mais idosa do centro de dia do Centro Social de Santo Estêvão, concelho de Benavente, e segundo as suas palavras, a melhor que por lá anda de momento. No dia em que se senta para a conversa, queixa-se de algumas dores na cabeça por causa de uma queda recente. De resto, assegura que está “rija” e sem problemas de maior. “Já não vejo muito bem, mas aos 94 anos o que se podia esperar?”, pergunta em jeito de brincadeira. Anda vestida de preto da cabeça aos pés. É assim desde que o marido morreu, já lá vão 17 anos. “Nunca mais tirei o preto porque gostava muito dele. Gosto de manter a tradição”, conta a viúva. Mesmo assim, o luto não ajuda a afastar potenciais interessados. No centro gostam de arranjar-lhe namorado, mas a resposta da viúva é sempre a mesma: “Se quando era nova não os quis, não é agora depois de velha que os vou querer”. Diz que era mulher de arrastar muitos pretendentes, mas amor mesmo só tinha a um, o seu querido marido, que nunca apareceu uma única vez bêbado em casa. Mostra também as unhas pintadas com um verniz dourado. Depois de uma vida a trabalhar no campo, aproveita agora para cuidar de si. Nascida e criada em Santo Estêvão começou a trabalhar aos nove anos nos campos para ajudar a sustentar a família. Fazia de tudo, desde cavar, a semear, regar ou lavrar a terra. Só largou a enxada aos 72 anos. Desses tempos recorda as dificuldades que passou para criar os seus quatro filhos. “Passámos muita fome. À noite só tinha café para o jantar de toda a família. Lembro-me que chegava a não ter um lençol para pôr na cama”, conta com a lágrima no canto do olho. Viviam-se tempos muito difíceis em Santo Estêvão, mas a união entre todos da comunidade também ajudava a ultrapassar algumas das dificuldades. O marido também ajudava no campo, mas a sua única arte era a de “fazer filhos”, conta a rir Deolinda, que rapidamente seca as lágrimas. Foi aos 15 anos que começou a namorar e casou aos 19. Neste momento mora com o seu filho mais velho, de 74 anos, que sempre se manteve solteiro. Já perdeu a conta aos netos e aos bisnetos. De vez em quando passa alguns dias na casa dos seus restantes três filhos. Quando perguntamos qual é o segredo para chegar a esta idade, não consegue responder. Conta que nunca fumou ou bebeu bebidas alcoólicas, para logo confessar que um copinho de vinho do porto cai muito bem de vez em quando. O que mais gosta de fazer na vida é mesmo dançar. O marido chegava a ficar com os filhos, para Deolinda Augusto ir aos bailaricos de Santo Estêvão. Já a televisão aborrece-a. Gosta é de conversar e brincar com os amigos. Hoje diz que continua sem nada ter, mas sente-se muito rica. Toda a vida cultivou a alegria, mesmo nas alturas em que não tinha um pedaço de pão para dar aos filhos. Quer chegar aos 100 anos. Mas para já aguarda o 95º aniversário que se realiza a 29 de Setembro.Superar a morte é a maior dificuldadeLidar com a morte e passar a encará-la com alguma naturalidade é uma das maiores aprendizagens para quem trabalha com a população idosa. Quem o diz é um dos funcionários mais antigos do Centro Social de Santo Estêvão, António Oliveira, de 53 anos. “Ao longo destes 26 anos, já faleceram largas centenas de idosos. Passamos tanto tempo aqui que acabam por ser da nossa família. Com o tempo, passamos a encarar a morte com mais naturalidade”, confessa. No centro não existem muitos idosos que estejam abandonados pelos familiares. “Temos alguns idosos que têm os filhos a trabalhar no estrangeiro e não podem estar com eles tantas vezes. Mas a comunidade também é pequena e todos se ajudam”, revela António Oliveira. O Centro Social de Santo Estêvão tem de momento 40 utentes, mas tem capacidade para acolher 45.
A utente mais velha do centro de dia de Santo Estêvão que trabalhou até aos 72 anos

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