
“Somos uma aldeia que acredita e que por acreditar faz”
A tremenda vontade e brio do Sport Clube Operário de Cem Soldos
É uma aldeia a cinco quilómetros de Tomar que não precisa de Tomar para estar no mapa. Chama-se Cem Soldos e é a casa do Festival de Música dos Bons Sons. Ali moram pessoas de fibra, bairristas até à medula que têm uma vontade imensa de fazer muito bem tudo aquilo que decidem fazer. O espírito comunitário é cimentado na acção. O Sport Clube Operário, liderado por Luís Ferreira, é o estaleiro dos que querem realizar sonhos e são raros os que não sonham por aquelas bandas.
Como é que se combate a crise do associativismo no Sport Clube Operário de Cem Soldos?Passa por envolvermos as pessoas desde muito cedo para que se apercebam da mais-valia que é integrar este projecto. Da mesma forma que fui beneficiário da actividade da Associação quando era mais novo, senti que era a altura de contribuir para que a mesma continuasse. Outro aspecto tem a ver com o facto de dinamizarmos actividades que realmente interessam aos nossos associados. Por exemplo, temos o ténis porque surgiu a disponibilidade de uma pessoa ensinar a modalidade e a população aderiu. A associação beneficia e perpetua, ao mesmo tempo, do espírito comunitário de Cem Soldos. Estamos habituados a ver pessoas mais velhas na direcção. Como é que aqui chegou?Não foi uma escolha minha, foi uma escolha de uma equipa. Acharam que devia ser eu e aqui estou. Somos uma equipa bastante coesa, de 17 elementos, onde a média de idades anda abaixo dos 30 anos. Sou presidente da direcção desde 2011 mas estou ligado ao clube, como membro, desde os 15 anos. O que é que torna esta associação tão especial?Uma carolice tremenda e uma vontade imensa de fazer muito bem as coisas. Trabalho na área de eventos e noto que em Cem Soldos existe um empenho e um brio tão grandes como nas equipas de grandes profissionais. As pessoas assumem o desafio de fazer bem. Por exemplo, fizemos uma festa no Ano Novo e foi uma cerimónia fantástica, com todo o pormenor e requinte porque, nos bastidores, há uma equipa de produção cultural. Não somos operários de uma fábrica mas sim operários de um objecto que é a Cultura.O Festival Bons Sons é o vosso evento embaixador. Que outras actividades dinamizam?O “Bons Sons” só existe porque existe um envolvimento contínuo com a comunidade que permite a sua realização. Temos três frentes, como quase todas as associações. A Cultural, onde se destaca o grupo de Teatro “ULTIMaCTO” que corre o país inteiro com as suas peças e que é responsável pela elaboração da Mostra de Teatro que já vai na XV edição. Temos ainda uma componente de Animação Geral. Todos os meses temos um evento, à escala regional, que pode passar pela realização de concertos, festas temáticas, workshop’s ou dança contemporânea. Por exemplo, temos agora um grupo informal de 20 crianças que cantam musicais e organizam, duas a três vezes por ano, um espectáculo. Finalmente, na área do Desporto temos o Judo, que é a única secção federada, onde os nossos atletas já arrecadaram medalhas de ouro, prata e bronze em campeonatos nacionais e até internacionais. Temos ainda o cicloturismo e a ginástica de manutenção, que é a secção mais antiga da associação onde, três vezes por semana, cerca de vinte senhoras se juntam nas aulas. A nível social qual tem sido o vosso papel?Dinamizamos o Atelier de Tempos Livres, trabalho que levou à criação de três postos de trabalho. Os funcionários vão buscar as crianças à escola e fazem todo acompanhamento das mesmas em horário extracurricular. Temos ainda mais dois funcionários, um na secretaria e outro no bar. Destaco ainda o apoio que damos à manutenção do centro de saúde uma vez que é a associação que paga as despesas com água, luz e outros serviços. Sentimos que a associação devia prestar este serviço à população. Como é que conseguem gerir, do ponto de vista financeiro, todas estas vertentes?Nunca fomos subsídio-dependentes e conseguimo-lo com uma enorme ginástica financeira. Temos 700 associados que pagam uma quota de cinquenta cêntimos/mês ou seja, seis euros por ano, o que é uma receita residual. O facto de sermos uma equipa grande de voluntários permite uma gestão mais elástica do ponto de vista financeiro mas confesso que todos os finais do mês são complicados uma vez que só as despesas fixas correntes são elevadas. Estamos a tentar que cada actividade se pague a si própria, através de apoios ou trocas de serviços. Como é que o Festival Bons Sons alcançou um nível tão profissional?Reconhecemos o potencial de cada elemento da equipa e colocamos as pessoas a fazer o que mais gostam, dando-lhe oportunidade de serem criativas, de experimentarem fazer o que não lhes é permitido fazer nos respectivos empregos. Há tanta gente e tanta coisa para fazer que não há necessidade de colocarmos as pessoas a fazerem o que não gostam. O que move esta entrega por parte das pessoas em prol de uma comunidade?Não paramos para nos questionar sobre isso. Nascemos com isso. É uma lógica de ser. Porque sim. Porque é agora a nossa vez. Percebemos que, neste momento de crise económica e social, as associações são pilares importantes para contrariar esta lógica de dificuldades em crescendo. Percebe-se que, a uma microescala, o nosso trabalho tem consequências directas. Tornamo-nos mais fortes por isso e, agora, com esta distinção de O MIRANTE também fomos reconhecidos por isso. Quais são as maiores dificuldades para quem anda no mundo associativo?Cada vez mais as associações deparam-se com legislação muito rígida e com normas de higiene e segurança muito apertadas. Acho que cada vez há menos diferenciação entre uma associação e uma empresa e isso é injusto. As linhas de apoio são cada vez menores e o serviço público que fazemos é cada vez é maior. Se não fossem as associações em Portugal não havia cultura, não havia apoio social, não havia desporto. As associações são os tentáculos menores - ou melhor, maiores - de toda a dinâmica que envolve um dever cívico. Eu vivo numa aldeia e é a minha aldeia que deve decidir o seu futuro. Costumamos dizer que “barco sem rota não beneficia de vento algum”.E que rumo leva o SCOCS?Temos uma rota, temos actividades contínuas mas também projectos mais ambiciosos que nos guiam. Eu sinto que o nosso papel passa por aumentar a qualidade de vida nos habitantes de Cem Soldos. É uma aldeia que está no centro do país, onde é muito fácil chegar e partir. Continuam a nascer muitas crianças em Cem Soldos mas não vivem cá. É uma dinâmica difícil de gerir. Cem Soldos seria a mesma aldeia sem o Sport Club Operário?Esta associação fez com que Cem Soldos mantivesse a sua identidade e não se transformasse num subúrbio da cidade de Tomar, que dista apenas cinco quilómetros. Mas penso que se não existisse esta associação existiria outra. O associativismo está-nos na massa do sangue. Somos uma aldeia que acredita e que por acreditar faz. Depois, o facto do trabalho da associação ser reconhecido, não só a nível local como nacional, levou a que as pessoas não tivessem vergonha de dizer que são da aldeia. Pelo contrário, têm muito orgulho de dizer que são de cá. Não há o estigma de vir da aldeia.Os operários da cultura de Cem SoldosO Festival de Música “Bons Sons” é apenas a face mais visível do Sport Clube Operário de Cem Soldos, uma colectividade formalizada em 1981 que trabalha para a dinâmica permanente de uma aldeia com perto de mil habitantes, na freguesia da Madalena, Tomar. Com uma direcção de 17 elementos, composta maioritariamente por jovens nascidos em Cem Soldos, a crise do associativismo não se sente nesta casa que aproveita ao máximo os recursos que a terra dá, colocando os seus membros a desempenhar as funções para as quais estão mais vocacionados e promovendo actividades que os associados mais aplaudem.Para além do ULTIMAcTO - Grupo de Teatro de Cem Soldos, que já arrecadou vários prémios e organiza anualmente uma mostra teatral, o Sport Clube Operário de Cem Soldos dinamiza _ sob a égide “Cem Soldos, Aldeia Cultura” - diversas iniciativas de índole cultural, recreativa e desportiva algumas delas de cariz intergeracional, como é o caso do grupo “Avós e Netos”. O objectivo central do SCOCS passa por combater a desertificação da aldeia, situada a apenas cinco quilómetros de Tomar, trazendo até ao lugar eventos que normalmente só brindam quem vive nas grandes urbes. Localizada no coração da aldeia, a associação já criou cinco postos de trabalho criando condições para a fixação de população.Ligado umbilicalmente ao Sport Clube Operário de Cem Soldos, o actual presidente da direcção é Luís Ferreira, 29 anos, designer gráfico a trabalhar em Lisboa que confessa que, mesmo longe fisicamente, o seu coração permanece ligado à aldeia onde nasceu, cresceu e para onde deseja voltar um dia. A associação beneficia do espírito comunitário existente na aldeia e perpetua-o. A sua imagem de marca é o facto de conseguir envolver toda a população nos seus projectos. Quanto às pessoas são determinadas e perfeccionistas. Assumem o desafio de fazer bem tudo aquilo que decidem fazer. É assim que conseguem que toda a gente, em qualquer parte, tenha orgulho em dizer que é de Cem Soldos.

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