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Enterro do Galo voltou a colocar a calhandrice em dia na Chamusca

Enterro do Galo voltou a colocar a calhandrice em dia na Chamusca

As quadras de escárnio e maldizer voltaram em Quarta-Feira de Cinzas numa tradição que resiste a todas as crises
Edição de 20.02.2013 | Cultura e Lazer
A tradição de pôr em quadras de maldizer as principais calhandrices do ano tem, na Chamusca, a designação de “Enterro do Galo”. O funeral é na noite de Quarta-Feira de Cinzas, agora e sempre no Grupo Dramático Musical. Há padre, sacristão, carpideiras que choram o defunto enquanto é lido o seu testamento feito em versos de escárnio e maldizer em que são relatadas as principais calhandrices locais. Quem assiste vai tentando adivinhar a quem as quadras são dedicadas. A risota é geral mas também há quem não ache muita graça ao ver-se caricaturado. Este ano o Eco Parque do Relvão, as “guerras” de candidatos a presidente da câmara no Partido Socialista, a entrada de touros de Quinta-Feira de Ascensão, os sucessivos cortes de água na vila ou o aumento das multas de trânsito, foram contemplados no bem-humorado testamento do Galo, para além dos habituais episódios de infidelidades e outras maldades. Logo na abertura da função houve aperitivos jocosos e avisos aos presentes. “Calhandreiros e calhandreiras, alcoviteiros e alcoviteiras, candidatos das autarquias e mestres da sabedoria da vida alheia agarrem-se…, que este pobre galo vai a enterrar”.A concorrência que as redes sociais na internet estão a fazer à celebração anual das calhandrices não foi esquecida no Enterro do Galo. “A culpa é do facebook , metem lá toda a merda! Bolas!!! Lá tou eu a falar em merda! Peço desculpa aos presentes pela linguagem mas com tanta merda a passar na Rua Direita todos os dias (em direcção ao aterro sanitário da Carregueira), isto fica-nos na cabeça.”Como ia a dizer esta malta mete tudo no facebook e depois queixa-se. Ele são fotografias das bebedeiras; fotografias da casa da vizinha, umas a molhar os pés, e até umas do incêndio numa cozinha. Apanha-se lá de tudo. Poemas de amor, recados da política, frases de rancor enfim… é uma vergonha, tamanho despudor. Depois chega-se à altura do enterro do galo e ficam por aí aos cantos escondidos para que ninguém os veja”.Informada a população da morte do ilustre animal chega a parte mais esperada. “Vamos lá ao testamento deste desgraçado, antes que as finanças criem mais um imposto para pagar. Aproveitem e cubram-se, pois a rega vai começar, mas não é como de costume… Cá vai disto!!!”, anuncia o celebrante. Somos um concelho empregadorO maior da margem TejoOu vão trabalhar para a CâmaraOu vão para a Resitejo.Ó Pinto espertalhãoQue de esperto só tens a maniaAgora para as eleiçõesCorreste com o homem da tipografiaNos novos tempos modernosEstá tudo alteradoRende mais vender na ruaQue vender no mercado.Nas corridas da ascensãoPara poupar o carcanholOs bilhetes portuguesesVinham escritos em espanholEm Quinta-Feira de AscensãoÉ grande o frenesimMas na praça da nossa terraSó pega malta de AlmeirimNa entrada de touros destes anoNão vai haver tantas carrinhasCom os cortes no orçamentoEm vez de bois vêm galinhasA nossa autoridadeQuase nunca se viaAgora com os maçaricosÉ multas de noite e de diaContrataram duas funcionáriasPara o leilão não ficar fechadoUma põe a correnteA outra fecha o cadeadoPensaste ir para a ResitejoSem que ninguém o dissesseMas tinhas lugar garantidoSó por seres do PS.Olha o pai da boazonaDisseste com ar de machãoLevaste duas chapadasBateste com os cornos no chão.Lá vai a viúva produzidaToda bonita e com cheiroVai coçar a passarolaLá para os lados do PinheiroO Porto das mulheresEra um bom local para o turismoMas há quem o aproveitePara praticar o nudismoFoi grande a confusãoQuando fomos para a Águas do RibatejoAgora não há líquidoNem nas torneiras, nem no TejoEste ano não há regaPara nossa tristeza e mágoaQuando abrimos a torneiraNão saiu uma gota de águaNaquele espaço milagrosoFazem-se corpos perfeitosDepois a meio do treinoJá se anda a apalpar os peitosFoi uma noite religiosaCom grande encenaçãoDisseste mal de toda a gentePara depois pedires perdãoVendeste as oliveirasÁ câmara municipalO pior foi quando apareceu o donoAs coisas correram malO galo tem facebookFoi grande a admiraçãoEsta ano as calhandrices vão-se saberAntes do jornal da região.* Testamento completo em www.omirante.ptComentário“Lavar a roupa suja”Esta semana O MIRANTE é um pequeno repositório de versos brejeiros que anunciam as várias iniciativas organizadas na região em Quarta-Feira de Cinzas. Em todas elas O MIRANTE esteve presente e, aqui e ali, tratado e maltratado como mandam as regras do Carnaval e dos testamentos que são escritos muitas vezes por gente pouco letrada mas muito sabida e, em muitos casos, por pessoas que não só sabem escrever como sabem fazer crítica social.Fica aqui uma palavra de apreço para um grupo de jovens da Chamusca que não só continua a tradição, com os velhos de pantufas em casa a morrerem antes do tempo, como melhoraram e muito a qualidade “literária” do testamento embora toda a liberdade que sempre é permitida, e deve ser abusada, nestas alturas de “lavagem da roupa suja”.Pela primeira vez O MIRANTE publica uma reportagem do testamento lido na Póvoa de Santa Iria. Já não era sem tempo. Mesmo assim a reportagem fica aquém daquilo que o acontecimento merece. Esperamos melhorar no próximo ano e estarmos mais atentos.Não é normal que em cidades como a Póvoa de Santa Iria o pessoal escreva testamentos que não ficam a dever nada àqueles que são escritos para comunidades pequenas onde todos se conhecem. Só quem vive no seio destas grandes comunidades percebe que tudo funciona como nas pequenas. A diferença está apenas na diversidade. O resto é tudo igual. Quem julga que as grandes cidades como a Póvoa não têm vida própria e gente bairrista engana-se redondamente. Basta estar atento ao trabalho associativo e às actividades que se organizam todos os dias e muitas vezes enchem os fins de semana. Mesmo que a participação seja escassa ninguém desiste. E, ao contrário do que acontece nas comunidades mais pequenas, os dirigentes marimbam-se para o presidente da junta e fazem tudo, ou quase tudo, como se a política não existisse. Mas é claro que os políticos não passam despercebidos e levam na cabeça nas alturas certas.Recuperamos uma das quadras deste Enterro do Galo onde O MIRANTE foi citado e onde um presidente de junta de freguesia, que representa uma das cidades mais identificadas como dormitório de Lisboa, levou que contar.“Só em festas importantes/Na Póvoa de Santa Iria/Aparecem os representantes/Da Junta de Freguesia. Julgam-se gente importante/E não se juntam ao povo/Foram notícia em O MIRANTE/e não vimos nada de novo. O entrudo e amigões/Numa tarefa conjunta/Deixa merda e cagalhões/Para os engravatados da junta”.JAE
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