
“Cheguei à conclusão que a política para mim não tem interesse”
Francisco Salter Cid foi vereador do PSD em Almeirim mas bastaram quatro anos para ficar enjoado de política
Francisco Salter Cid foi vereador da Câmara de Almeirim pelo PSD na década de 90. Só cumpriu um mandato porque sentiu que não tinha vida para a política nem para os jogos de poder. Afastou-se da vida pública e partidária e diz que já nem tem vontade de votar. Não vai a actividades culturais na cidade porque não sabe delas, uma vez que não vê qualquer divulgação. Foi responsável durante quase toda a sua vida de trabalho pelos celeiros da EPAC em Almeirim, que fecharam há anos, e custa-lhe que a zona não tenha um equipamento destes que considera ainda hoje importante para a valorização da agricultura da região.
Por que é que depois de ter sido vereador nunca mais teve intervenção política?Não quis. A política é um bocado nojenta e é para os políticos. Não lhe chamaria pessoas não sérias, mas pessoas com um feitio muito especial que se interessam muito pelos partidos. E não tenho feitio para isso. Também não acredito que toda a gente faça tudo mal mas a crítica é que está sempre tudo mal. Raramente há uma coisa bem feita, no entender da oposição. Mas quando estes chegam ao poder fazem igual.Ainda é militante do PSD?Já não sei se sou se não. Não pago quotas há mais de quatro anos. Há uns tempos vieram ter comigo para pagar as quotas para votar em alguém que já nem me lembro. Foi a última vez. Cheguei à conclusão que a política não tem interesse algum.E no seu tempo tinha interesse?Foi uma experiência. Não sabia bem e fiquei sem saber exactamente como são os contornos da política, mas fiquei com a ideia de que isto não é para mim. Pela falta de sinceridade, de honestidade. Os políticos têm que dizer muitas mentiras e, depois de as dizerem, muitos ficam convictos que o que dizem é verdade.Sentiu-se desconfortável enquanto vereador?Não! Fiz as coisas de acordo com a minha consciência e não com a consciência dos partidos. Os eleitos devem fazer as coisas a pensar nas populações e muitas vezes não é isso que acontece. Há muitas coisas de bastidores que não cheguei a conhecer bem, nem quero.Parece que ficou magoado com o PSD?Filiei-me no partido logo após o 25 de Abril. Hoje não sei o que sou, se sou PSD, PS, PCP ou Bloco de Esquerda. Cada um tem qualquer coisa de bom. Não sou esquerdista e também não sou saudosista de Salazar, mas foi um político que morreu pobre e hoje vemos muitos que estão na política há dois ou três anos e ficam ricos. Trabalhei uma vida inteira e não sou rico. Mas até parece que é salazarista.Não. Mas o Salazar também nunca me fez mal. Vivia-se mal naquela altura mas como os tempos estão não sei se nalgumas situações hoje não se está pior. É que as pessoas hoje aparentam uma coisa que não são.Se insistirem muito ainda é pessoa para voltar atrás e integrar uma lista à câmara?Não está nos meus horizontes meter-me em política, mas se me metesse era como independente num movimento ou partido que soubesse que ia ganhar, porque gostaria de fazer bem à população.Vai votar em todas as eleições?Votei nas últimas eleições autárquicas e acho que foi a última vez. Vou votar em quem?Como tem visto a agitação política no concelho sobretudo ao nível do PS?Isso faz parte dos movimentos de interesses que ao povo não interessam nada nem lhe trazem qualquer coisa para melhorar a sua vida.Teve que engolir alguns sapos quando esteve quatro anos na oposição na câmara?Era vereador conforme a minha consciência. Se calhar não disse tudo o que queria. Mas fazia aquilo que entendia que era o melhor e não aquilo que os dirigentes do PSD queriam. Impuseram-me coisas e não acatei. Queriam que me demitisse e não o fiz. Nunca me sujeitei ao que os outros queriam.Nunca se chateou com o presidente da câmara?Nunca. O Sousa Gomes (actual presidente, que já não se pode recandidatar) foi sempre uma pessoa educada. Todos os problemas que lhe apresentava eram tratados com cabeça, tronco e membros. Se não gostava do que eu lhe colocava explicava o porquê. Tenho muita consideração por ele.Conhece os actuais vereadores?Não, nem quero saber disso para alguma coisa. Já apresentei um problema ou dois e tratei dos assuntos ou com o Pedro Ribeiro (vice-presidente) ou com o presidente. Os outros elementos da vereação não sei quem são nem o que fazem.“Almeirim é uma boa terra para viver”Vive no centro da cidade, no parque das laranjeiras. É um bom sítio?Requalificaram o espaço para tirar os carros do local, mas agora que o local não é um parque de estacionamento continua a haver carros, só que estacionados nos sítios onde as pessoas deviam andar a pé ou de bicicleta. O parque até ficou engraçado, mas gastou-se muito dinheiro e aquele piso que alguém inventou é horrível, os repuxos a maior parte do tempo não funcionam. Com o aspecto que tem a praça, parece que foi feita há cem anos.A cidade está a perder algumas marcas características e históricas?Hoje toda a gente quer coisas novas e as velhas não interessam e dão cabo de muita coisa, infelizmente. É pena que não seja recuperado o antigo hospital de Almeirim. Há coisas que não entendo. Mas apesar disso Almeirim é uma boa terra para viver e evoluiu muito.Foi o responsável pelos celeiros da EPAC na cidade. Custa-lhe que tenham fechado e que estejam agora a degradar-se? A determinada altura apareceram umas inteligências luminosas que fizeram muita coisa e uma delas foi acabar com a EPAC. Este é um celeiro relativamente pequeno e é verdade que hoje já não fazia sentido naquele local. Mas no país há uma grande quantidade de silos desactivados. É uma vergonha. Continua a fazer falta um equipamento destes nesta zona?Sim. Somos uma região produtora de milho e de outros cereais e os produtores estão sujeitos aos preços que lhes são impostos e a EPAC era um garante do preço. Em determinada altura começámos a secar milho e entretanto houve logo uma cooperativa que também quis instalar uns secadores. Falei com eles para que houvesse um entendimento e usassem os equipamentos da EPAC, poupando-se dinheiro. Não quiseram porque havia dinheiro à farta que vinha da Europa. Agora nem um nem outro funcionam. Com os fundos comunitários o que se fez foi duplicar equipamentos e serviços e muitos tiveram que fechar algum tempo depois.O que é que gostava que fizessem naquele espaço?Houve numa altura uma ideia de transferir as instalações para a zona industrial num terreno que seria oferecido pela câmara, mas perdeu-se a oportunidade e se calhar se tivesse sido concretizada hoje estariam a funcionar. A câmara é que devia comprar aquele espaço para valorizar uma zona nobre da cidade onde há equipamentos desportivos. Mas só a demolição deve custar muito dinheiro.Costuma ir a actividades culturais no concelho?Quais? Onde? Não sei que actividades existem porque muitas vezes não são divulgadas. Costumo mais ir a Santarém, sobretudo ao cinema que não há cá.Licenciou-se em restauro no Politécnico de Tomar aos 65 anosCom 60 anos foi tirar um curso superior de conservação e restauro. Adaptou-se bem ao actual sistema de ensino?Foi muito engraçado. Não tem nada a ver com o tempo em que andei a estudar na juventude. O convívio que fiz com os colegas com idades de serem meus filhos foi muito giro. Fiz grandes amizades. Era quase o pai daquela malta toda porque até ao nível dos professores não tive nenhum mais velho que eu. Acabei o curso em 2010 e ainda hoje os professores me telefonam, mandam mensagens.Sentiu-se jovem…Não, porque eles também não me deixavam sentir jovem ao tratarem-me por senhor. Mas considero-me uma pessoa jovem de espírito.Não teve dificuldades de comunicação com os outros alunos da escola?Tive algumas. Hoje há uma linguagem que nem imaginava. É um palavreado a que não estava habituado e que não havia no meu tempo de estudante. Sobretudo por parte das raparigas. Na altura não se podia dizer merda e agora isso é a coisa mais natural e o palavreado que se usa é tudo de merda para cima. Nunca disse uma asneira à frente de uma colega, mas elas não se importavam nada de as dizer. A princípio isso incomodou-me, mas depois habituei-me… que havia de fazer?Gostou de todos os professores?No Politécnico de Tomar não só eram professores como amigos, colegas, eram tudo. Tive muitos bons professores. Queixo-me é que eram um bocado exigentes (risos). Às vezes até dizia que era mais velho e respondiam-me que se não estudasse chumbava como os outros.O que é que o levou a estudar de novo?Gostava muito de ver os restauros de um rapaz e fiquei de ir ter com ele para aprender, mas passados oito dias ele suicidou-se. Decidi então inscrever-me no curso porque também não me via a ir para o café passar o tempo.Já era uma pessoa que gostava deste tipo de trabalhos?Tenho muito dinheiro investido em ferramentas que ia comprando ao longo da vida. Quando ia a um supermercado tinha que comprar uma ferramenta mesmo que não precisasse dela no momento. Tenho ferramentas que nunca utilizei e outras que comprei porque não sabia onde estavam as que já tinha adquirido há algum tempo.Um sportinguista que tem a missão de restaurar três mil taças do clubeFrancisco Salter Cid nasceu a 3 de Janeiro de 1945 no Entroncamento, terra natal da mãe, mas viveu a infância na Chamusca onde residiam os pais. Foi para Almeirim ainda jovem onde foi responsável pelos celeiros da EPAC na cidade, que secava cereais, sobretudo arroz. Estudou na Escola Agrícola de Santarém, depois de ter passado pela escola da Chamusca e pelo colégio Andrade Corvo em Torres Novas. Confessa que nunca teve jeito para línguas e era o pior a Inglês. Recorda-se que uma vez, numa prova, o professor perguntou-lhe em língua inglesa quantos anos tinha e respondeu muito contente: estou bem muito obrigado, e o senhor?Esteve na tropa em Elvas como oficial miliciano. Não foi à guerra colonial porque na altura precisavam de capitães. Quando o chamaram para fazer o curso de capitão deu-se a revolução do 25 de Abril e livrou-se da guerra. Almeirim é a terra que adoptou como sua e onde se sente bem. Recorda-se de nos primeiros tempos em que trabalhava nos celeiros as pessoas das aldeias irem aos celeiros de carroça entregarem sacos de cereais para secagem. Para alguns era quase um dia de viagem em que tinham de se fazer ao caminho às quatro da manhã.É uma pessoa pacata, que gosta de passar os tempos livres em casa. As principais viagens que fazia era nas férias, para o Algarve. Nunca teve jeito para jogar futebol nem para outros desportos. Já adulto é que descobriu um desporto pelo qual se apaixonou, o ski, e era frequente ir para Baqueira, a maior estância de Inverno em Espanha. Há algum tempo que não pratica por causa de uma maleita num joelho, mas ainda quer matar saudades um dia destes.Neste momento dedica-se ao restauro, num ateliê na zona industrial que lhe foi cedido por um amigo que tem uma empresa. Está a fazer o restauro das bases em madeira das taças do Sporting Clube de Portugal. São cerca de três mil e garante que não ganha nada com o negócio e que o faz pelo seu amor ao clube, que apenas paga os materiais necessários. Diz em jeito de brincadeira que já tem com que se entreter até ao fim da vida. É no meio de pincéis, ferramentas, pedaços de madeira e tintas, que se sente bem. “Isto distrai-me muito. Se não tivesse qualquer coisa para fazer, com que me distraísse, morria mais cedo”, confessa.

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